Em seu 100º aniversário, animação brasileira trilha caminho de sucesso
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O Menino e o Mundo Foto: DIvulgação
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Em seu centésimo aniversário, animação brasileira trilha caminho de sucesso

Pedro Katchborian em 28 de abril de 2017

No final de fevereiro de 2016, o Brasil acompanhava o Oscar. Além de prestigiar a maior premiação do cinema, o país tinha um motivo especial para assistir o prêmio: o filme brasileiro “O Menino e o Mundo” concorria na categoria Melhor Animação. O longa perdeu para “Divertida Mente”, é verdade, mas a indicação já foi suficiente para que os olhos se voltassem para a animação brasileira.

Pouco mais de um ano depois, o cenário da animação brasileira “vive um momento muito especial”. Quem diz é o próprio Alê Abreu, diretor do “O Menino e o Mundo”. A presença do seu filme Oscar foi apenas um dos momentos marcantes da animação brasileira em 2016: o filme “Malak e o Barco”, feito a pedido da Unicef, venceu o Festival de Criatividade de Cannes em agosto do mesmo ano.

Kaiser Foto: Reprodução

Além de diversos filmes representado em festivais afora, a produção de animação vive uma data marcante em 2017: há 100 anos, mais especificamente no dia 22 de janeiro de 1917, houve a exibição do filme “O Kaiser”, de Seth (pseudônimo do cartunista Álvaro Martins). O filme é considerado o primeiro filme brasileiro de animação da história.

O momento parece promissor, mas nem sempre foi assim. O mercado até ganhou tração com profissionais autodidatas nos anos 60, 70 e 80, mas ainda eram poucos os que se arriscavam no ramo. “Entrei na animação aos 13 anos de idade, no início dos anos 80. Naquela época era possível contar nos dedos de uma mão os animadores que faziam cinema em São Paulo. Nas duas mãos os profissionais de todo o Brasil”, conta Alê.

A crise econômica do Brasil dos anos 90 pegou em cheio o mercado de animação brasileira. O animador Otto Guerra foi um dos poucos que continuou produzindo filmes na década. Mesmo assim, aqueles anos foram essenciais para que a animação brasileira chegasse ao patamar de hoje: o festival Anima Mundi foi criado em 1993.

Dois mil e dezessete também é importante para o Festival, que completa 25 anos de existência. No primeiro ano, apenas 30 curtas brasileiros foram mostrados. Na edição de 2017, foram cerca de 1.200 inscritos e 345 selecionados, com filmes de 45 países, sendo 70 brasileiros.

Muito além de um Festival from Anima Mundi on Vimeo.

O evento rola do dia 18 a 23 de julho no Rio de Janeiro e de 26 a 30 de julho em São Paulo e aqui você pode ver quais foram as produções selecionadas. “Constatamos um grande vigor na produção mundial e especialmente na brasileira. Muitos formatos diferentes, filmes de temas delicados, surpreendentes e atuais sendo comunicados e processados através da linguagem audiovisual, da qual a animação é a origem”, conta Marcos Magalhães, diretor do Festival. Além das sessões, o Anima Mundi ainda traz convidados internacionais, oficinas gratuitas para o público, palestras e masterclasses para profissionais e encontros de negócios.

Na edição de 2016, foram 412 inscritos e 121 exibidos — um aumento de cerca de 292% no número de inscritos. Para Marcos, o Festival ajudou a colocar a animação no rumo que está hoje. “O nosso festival acompanha tudo isso há um quarto de século e temos uma sensação boa de nos sentir parcialmente responsáveis pelos rumos que a coisa toda tomou. Vimos alguns autores consagrados hoje se iniciarem na animação em nossas oficinas, ou estrearem seus primeiros filmes no Anima Mundi”, afirma.

Ele explica que a animação brasileira vive um momento de “expansão e desenvolvimento:

Está se solidificando uma rede que inclui estúdios, produtoras, artistas independentes, escolas, canais de TV e outros agentes ligados à área, o que indica a estruturação de uma indústria criativa de peso e qualidade.

Animação brasileira: chega de exportar talentos

O mercado brasileiro se aqueceu nos últimos anos, mas profissionais brasileiros já vem demonstrando qualidade há algum tempo. Tanto que exportamos alguns talentos para grandes estúdios americanos. Alguns deles são: Leo Matsuda (Operação Big Hero), Rosana Urbes (Mulan), Ennio Torresan (Madagascar, Kung Fu Panda, Megamente, Bob Esponja e outros), Fabio Lignini (Como Treinar Seu Dragão, Gato de Botas e outros), Céu d’Ellia (Pateta – O Filme) e Carlos Saldanha (Rio e a Era do Gelo).

Só que agora estamos deixando de exportar e produzindo animações de alta qualidade com esses profissionais. “Realmente, há um tempo a alternativa para um iniciante que quisesse virar um profissional de animação era estudar ou trabalhar fora do Brasil”, explica Marcos. “Hoje existem oportunidades reais no mercado brasileiro para se aperfeiçoar e empreender com a linguagem da animação. Trabalhar com animação no Brasil é uma realidade atraente, para diversos profissionais, além de artistas e animadores”, completa.

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Alê Abreu, que está trabalhando em seu “Viajantes do Bosque Encantado”, o seu novo longa, concorda e diz que o momento deve ser celebrado. “Temos muito o que comemorar, não apenas pelas conquistas recentes, mas por tudo o que temos conquistado ser resultado de uma construção erguida por muitos colegas da área”, diz.

De fato, o cenário parece empolgante. Nos últimos três anos, O Festival de Annecy, o maior de animação do mundo, teve três brasileiros entre os premiados. “Uma História de Amor e Fúria”, de Luiz Bolognesi, venceu o prêmio de Melhor Longa em 2013, enquanto “O Menino e o Mundo” venceu o mesmo prêmio em 2014. Em 2015, foi a vez de “Guida”, de Rosana Urbes, vencer na categoria melhor Primeiro Curta.

Os prêmios ajudam a abrir caminho para outros interessados. “O caminho está aberto, só precisa ser alargado e “asfaltado” para que possamos continuar atendendo à demanda crescente por conteúdos de animação”, afirma Marcos. Mais do que isso, o diretor diz que já criamos a nossa identidade no ramo. “A personalidade da animação brasileira está definitivamente firmada (assim como acontece com a nossa música e o nosso futebol”, completa o diretor.

Alê Abreu, um dos que inspira outros animadores, também vê com entusiasmo o futuro do ramo. “A cada ano vejo a nossa animação crescer e vejo um caminho aberto e de muito sucesso pela frente”, completa.

Um dos desafios no Brasil é estruturar o ensino profissional de animação. “São dezenas de cursos, mas ainda são poucos para a nossa demanda”, aponta Marcos. “Também não se construiu uma relação mais próxima destas escolas com os estúdios, o que acontece regularmente na Europa, Estados Unidos e no Japão”, completa.

Apesar dos cursos existirem, uma pesquisa feita pela mestre em design Cristiane Fariah mostrou que cerca de 54% dos profissionais da área não têm uma formação superior no ramo — boa parte tem cursos técnicos. Segundo o Guia do Estudante, as empresas estão buscando cada vez mais profissionais da área. Ainda segundo a publicação, os melhores cursos disponíveis na área são na UFMG (Cinema de Animação e Artes Digitais) e na UFPel (Cinema de Animação).

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