Como a ficção científica pode ser ferramenta feminista
Ursula K Le Guin
Ursula Le Guin. Foto: Reprodução
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Como a ficção científica pode ser feminista

Kaluan Bernardo em 1 de outubro de 2016

Há diversos subgêneros dentro da ficção científica, mas podemos dividi-la em dois grandes tipos: as utopias e as distopias. No primeiro caso, imagina-se uma sociedade ideal, livre dos problemas que conhecemos no mundo de hoje. No segundo, imagina-se os problemas do nosso mundo potencializados em uma sociedade tão piorada que nos faz refletir sobre a sociedade que temos. Em ambos os casos, um futuro diferente do nosso é usado para nos fazer refletir sobre o nosso presente. E a ficção científica feminista entre aí.

capa do livro frankenstein

Edição inglesa e Frankenstein, de Mary Shelley, publicado em 1831. Foto: Reprodução

A ficção científica é uma ótima ferramenta para tecer críticas à sociedade e pensar no que precisamos muda-la. Em “1984” George Orwell nos leva para um mundo onde há completo controle do Estado para criticar, entre outras coisas, os dispositivos de vigilância; em “Admirável Mundo Novo”, Aldous Huxley imagina uma sociedade completamente dopada e sedada em uma crítica ao excesso de entretenimento e futilidades.

Obras feministas de ficção científica podem imaginar utopias como mundos dominados só por mulheres onde não há guerras (e assim colocar sua crítica aos homens), ou mundos onde a relação entre homens e mulheres é ainda mais desigual e opressora, ressaltando o machismo presente no mundo em que vivemos com o objetivo de gerar reflexões.

Inclusive, considerado por muitos o primeiro livro de ficção científica, “Frankenstein” foi escrito por uma mulher, Mary Shelley, em 1818.

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Uma pequena história da ficção científica feminista

Em um  artigo para o site Motherboard, da Vice, a jornalista Claire L. Evans relembra a importância da ficção científica feminista na recente história da literatura. Muitas dessas histórias surgiram na década de 1960 e 1970, quando historiadores dizem que acontecia a segunda onda do feminismo.

Claire cita o poder das ficções científicas falarem sobre nosso presente ao mesmo tempo em que imaginam o futuro. “Por todas as suas incursões em temas que ninguém havia desenvolvido antes, os conflitos fundamentais de ‘Jornada nas Estrelas’ original pertenciam aos anos 1960: revoluções inter-raciais, imperialismo e Guerra Fria. O mesmo serve para a ficção científica feminista. Romances de Joanna Russ, Marge Piercy, Ursula K. Le Guin e Octavia Butler formam a literatura do movimento, relatando os medos e desejos das mulheres da segunda metade do século 20”, escreve.

capa do livro Mão Esquerda da Escuridão

Foto: Divulgação

A jornalista lembra contos como “A Mão Esquerda da Escuridão”, que se passa em um planeta de andróginos assexuados; ou ainda de “Quando Tudo Mudou”, de Joanna Russ, em que a autora fala sobre um planeta onde só há mulheres e, quando um homem surge, ele visto como um verdadeiro alien.

Muitas vezes a ficção científica apresenta mundos tão diferentes que o leitor se sente perdido naquele mundo imaginário. É o que chamam de estranhamento cognitivo. A ficção científica feminista usou bastante desse recurso para mostrar mundos completamente diferentes liderado por mulheres.

E essa literatura vem caminhando firme e forte desde então. Outros subgêneros, como afrofuturistas e cyberpunks ganharam e ganham cada vez mais espaço e incomodam quem não quer que as coisas mudem.

Recentemente, houve mais uma edição do prêmio Hugo, considerado um dos mais importantes para ficção científica e fantasia na literatura, cinema, TV e outras mídias. Grupos de autores e fãs conservadores, conhecidos como Sad Puppies e Rabid Puppies fizeram lobby para obras específicas, reclamando da presença crescente de mulheres e negros na premiação. No entanto, a pressão não foi suficiente. N.K Jemisin e Nnedi Okorafor, duas autoras negras, ganharam prêmios ao lado de Hao Jingfang, autora asiática.

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