Identidade de gênero, cisnormatividade, binarismo: entenda conceitos
identidade de genero
Foto: Istock/Getty Images
Inovação > Comunicação

Identidade de gênero, cisnormatividade, binarismo: entenda conceitos

Camila Luz em 14 de dezembro de 2016

Assine nossa newsletter

Ao preencher qualquer formulário no Brasil, é preciso marcar o sexo escolhendo entre duas opções: masculino ou feminino. No entanto, há quem não se reconheça homem nem mulher, ou tenha uma identidade de gênero que não coincide com seu sexo biológico.

Hoje, o Tinder reconhece 37 identidades de gênero, como transgênero, pangênero e andrógeno. Em Nova York, nos Estados Unidos, há 31 nomenclaturas de gênero para serem usadas em âmbitos profissionais e oficiais. O Brasil ainda reconhece apenas duas e não educa seus cidadãos para que tenham conhecimento sobre a diversidade.

O estudante de enfermagem Elias Teixeira é fundador e presidente da Liga de Estudos de Gênero e Sexualidade da USP (LEGS), em Ribeirão Preto. Ele afirma que temas como sexualidade e identidade de gênero são pouco discutidos mesmo dentro de uma das principais universidades do país. “Fundei a LEGS em dezembro de 2014 justamente para discutir essas temáticas que a gente não tem na formação. Nem na psicologia, nem na medicina, nem na enfermagem. A gente não discute esses assuntos aqui dentro”, conta.

identidade de gênero

Elias Teixeira, fundador e presidente da Liga de Estudos de Gênero e Sexualidade da USP (LEGS), em Ribeirão Preto. Foto: Reprodução/Facebook

Orientação sexual X Identidade de gênero

Por falta de informação, muita gente confunde identidade de gênero com orientação sexual. “Orientação sexual é por quem eu sinto desejo ou atração, seja física, romântica ou sexual”, explica Elias. “Se sou homem e sinto atração por outro homem, sou homossexual. Se sinto por mulher, sou heterossexual. Se sinto por esses dois gêneros, sou bissexual e assim por diante”.

Essa orientação não é determinada por outras pessoas ou pela sociedade, e sim pelo próprio indivíduo, que a define por suas vontades próprias. “Se uma criança se aproximar de uma pessoa homossexual, ela vai virar homossexual pois está sendo orientada? Não. Quando falamos de orientação sexual, estamos falando de orientação pelos próprios desejos”, explica.

Além de heterossexual, homossexual e bissexual, é possível ter outras inúmeras orientações, como o assexual (que sente apenas atração afetiva e romântica) e o  panssexual. “Essa pessoa sente atração por todos os tipos de identidades de gênero, como homem cis, homem trans, mulher cis, mulher trans, gênero binário e inúmeras outras”, diz.

identidade de gênero diz respeito ao gênero com o qual cada pessoa se identifica, que nem sempre coincide com o sexo biológico e com os padrões sociais atribuídos a ele. Quem nasce com pênis é considerado menino e segue um conjunto de regras estabelecidos pela sociedade, como não usar vestido e jogar bola. Já quem nasce com vagina é menina e deve seguir outro conjunto de normas, como usar maquiagem, brincar de boneca e aprender a cuidar da casa.

Quem se identifica com o gênero atribuído durante o nascimento é o cisgênero, enquanto quem não se identifica é o transgênero. Identidade de gênero tem a ver com a forma como a pessoa se enxerga dentro da sociedade, e não de acordo com seu genital.

Indivíduos podem ter qualquer identidade de gênero e qualquer orientação sexual. Por exemplo, se um homem cisgênero (identidade de gênero) namora uma mulher transexual (identidade de gênero), essa é uma relação heterossexual, pois se trata de um homem e uma mulher.

O que é ser transgênero

O transgênero é todo indivíduo que não se identifica com o sexo designado durante o nascimento, como os transexuais e os gêneros fluidos. “São todas as pessoas que transgridem o gênero dito padrão, dito normal, estipulado pela sociedade”, explica Elias.

O homem transexual nasceu com o órgão sexual feminino e foi registrado como menina. No entanto, não se identifica com as normas que definem o que é ser mulher dentro da sociedade, e sim com as que definem o que é ser homem. Já a mulher transexual nasceu com o órgão sexual masculino e foi registrado como menino. Porém, se reconhece como mulher, adotando nome, roupas e outros elementos que foram atribuídos ao sexo feminino pela sociedade.

Já o gênero fluido é aquele que se identifica às vezes com o sexo masculino e às vezes com o sexo feminino. Há inúmeras outras classificações de identidade de gênero, que podem ou não se identificar com signos masculinos ou femininos.

A população transgênero vive em condições de invisibilidade e marginalidade dentro da sociedade, por desinformação e preconceito. “Tirar a população trans [da marginalidade e invisibilidade] é um dever de todos, pois fomos nós, dentro de um processo histórico de exclusão e violência, que a colocamos lá”, afirma Elias. “Segundo pesquisa da ONG Transgender Europe (TGEU), o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, seguido do México, que está em segundo lugar e mata quatro menos”, ressalta

Binarismo e não-binarismo de gênero

Cisgêneros e transsexuais se identificam com sexos construídos pela sociedade e são considerados binários. Já o não-binário (ou genderqueer) não se identifica com nenhum dos dois: ele não considera que existem apenas homens ou mulheres e contesta os estereótipos.

O agênero, por exemplo, não se considera homem nem mulher. Já o bigênero se considera os dois ao mesmo tempo. O gênero fluido, por outro lado, se identifica com os dois sexos, mas de uma forma que varia. O indivíduo pode se sentir mais feminino em certos dias, mais masculino em outros ou simplesmente nenhum dos dois.

Para Elias, o gênero fluido pode ser binário, já que se identifica com os sexos masculino e feminino construídos pela sociedade. No entanto, o não-binarismo e outras identidades de gênero são questões muito particulares e o importante é que cada pessoa se classifique como bem entende — ou que simplesmente não se classifique.

“A sexualidade, por exemplo, é uma coisa frágil que a gente sabe que pode oscilar. Eu sou um homem cis gay, mas já fiquei com mulheres em vários momentos da minha vida. Mas para a sociedade, sou visto como gay. Vejo os grupos existentes e me encaixo melhor nesse”, diz Elias. “É uma forma de organizar e essa organização tem seus prós e contras. Mas não acho necessário se identificar, pois os rótulos são construídos. Por isso não gosto de dizer que há tantos tipos de orientação sexual e tantos tipos de identidade de gênero. Gênero e sexualidade são coisas muito complexas”, conta.

Transexual, travesti, drag queen e crossdresser

Segundo Elias, há quem classifique os transexuais como indivíduos que fizeram a cirurgia de transgenitalização, e as travestis como os que não passaram pelo procedimento. “Eu não gosto dessa análise e sigo as pessoas que definem a auto-identificação. Posso ser uma mulher transexual que não quer tirar o pênis, e posso ser uma travesti que quer. Algo que nos deve ser assegurado é poder nos identificarmos como queremos”, afirma.

Não há necessariamente uma diferença prática entre transexuais e travestis, mas há uma diferença social. “Há a questão de como a sociedade enxerga a travesti e a mulher trans. Ambas são hipersexualizada, mas quando você olha para a travestis, imediatamente por uma parcela enorme da sociedade é construída a imagem de que a pessoa está na esquina se prostituindo, é drogada, marginalizada e está vulnerável”, explica. “Já a mulher trans é de certa forma mais romantizada pela sociedade”.

Há pessoas que se apropriam do termo ‘travesti’ para brigar por causas sociais, enquanto outras se identificam dessa forma pois não têm conhecimento dos estudos da questão de gênero. “É uma população altamente vulnerável, que sofre com a violência e não tem acesso à educação e saúde (lê-se por estarem abandonadas pela sociedade), por exemplo”, diz. “Então existem pessoas altamente esclarecidas que fazem questão de se apropriar da identidade ‘travesti’ justamente para lutar por seus direitos”, explica Elias.

O drag queen é um artista performático que se “traveste” com objetivos profissionais e artísticos. Geralmente é um homem cisgênero que usa roupas femininas para criar personagens e fazer performances. Já o crossdresser é o homem que se veste de mulher pois sente prazer nisso. Tanto o dragqueen quanto o crosdresser podem ter qualquer orientação sexual, como hétero, homo ou bissexual.

Por fim, ser travesti é diferente de “estar travestido”: se travestir se resume a vestir roupas e acessórios, enquanto ser travesti é uma identidade de gênero.

Heteronormatividade, Cisnormatividade e a Teoria Queer

Em sua maioria, a sociedade brasileira é heteronormativa e cisnormativa. Ela considera que o normal é ser heterossexual e cisgênero. Quem foge do padrão seria anormal, esquisito ou até mesmo doente.

No final de década de 1980, a Teoria Queer surgiu nos Estados Unidos para questionar a heteronormatividade e a cisnormatividade. Ela afirma que orientação sexual e identidade de gênero são resultados de uma construção social. Portanto, não há papeis biologicamente inscritos na natureza humana.

No Brasil, o transexual ainda é lido como alguém que sofre de uma patologia chamada “disforia de gênero”. Para fazer a cirurgia de transgenitalização, por exemplo, é preciso se consultar com profissionais da saúde que irão atestar sua “condição” e permitir que entre em uma longa fila para realizar o procedimento.

Além disso, ainda não há leis ou normas que determinam se o indivíduo pode alterar seu registro civil. Transexuais e outras pessoas que desejem alterar seus documentos devem procurar na Justiça o reconhecimento de sua identidade de gênero em processos que podem ser longos e dependem do entendimentos dos juízes, que na maioria das vezes são preconceituosos e/ou despreparados para trabalhar com essa questão.

Elias dá uma dica para quem conhece pessoas não-binárias e transgênero e não sabe como se referir a ela:  “É bem simples. Você pode chegar para a pessoa e perguntar qual o nome dela. Se você está lendo uma figura feminina ou masculina, deverá se referir assim”, explica. “Mas se você está lendo uma figura meio andrógina ou não sabe como tratar sua identidade, pergunte a ela como tratá-la”, finaliza.

genero8

Gostou deste post? Que tal compartilhar:

Assine nossa newsletter e receba nossas novidades em primeira mão.

  • Wallace Dutra

    ficou lindo! *_*
    (so uma pequena correção, pra colocar “como me identifico” em IDENTIDADE DE GÊNERO – sem “n”)

    beijinhos 🙂

Últimos
Trend Tags
Array ( [0] => 76 [1] => 222 [2] => 237 [3] => 205 [4] => 94 [5] => 97 [6] => 115 [7] => 17 [8] => 238 [9] => 92 [10] => 157 [11] => 276 [12] => 153 [13] => 62 [14] => 125 [15] => 25 [16] => 173 [17] => 16 [18] => 66 [19] => 67 [20] => 12 [21] => 69 [22] => 127 [23] => 187 )
Vídeos
Copyright © 2016 Free the Essence

Assine nossa newsletter

e receba nossas novidades em primeira mão.