Nicholas Carr e a utopia da web: "a internet é uma cultura de distração"
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Nicholas Carr e a utopia da web: “a internet é uma cultura de dependência”

Pedro Katchborian em 10 de setembro de 2016

Libertadora e democrática. Desde que foi criada e popularizada, a internet é citada como palco de inovações e, mais importante ainda, como um ambiente em que as pessoas têm liberdade de expressão e podem ser elas mesmas. Criou-se essa imagem utópica de que a internet nos libertou, mas, segundo Nicholas Carr, ela fez o contrário.

capa do livro Utopia Is Creepy

Utopia is Creepy, Foto: Divulgação

Carr é um dos mais respeitados escritores sobre internet e tecnologia, tendo passado pelo The Atlantic, The New York Times, Wired e outros. Recentemente, escreveu um livro que traz uma outra visão sobre a tecnologia e a internet, chamado “Utopia Is Creepy”, em que traz uma visão menos utópica e revolucionária sobre a internet. Um trecho do livro com essa concepção foi publicado no Aeon, fazendo muita gente pensar sobre o assunto antes mesmo de ler o livro.

Para contextualizar o seu argumento, Carr começa contando a sua história com a internet em 2005. O hype da época era a blogosfera e ele resolveu inaugurar o seu blog, o Rough Type. Para ele, blogar transformou-se em uma maneira de fazer jornalismo e perdeu a sua personalidade. “Eles eram diários escritos em público, dar comentários sobre o que estava acontecendo. Você dizia o que queria”, explica. “Você apertava o botão de publicar e o seu post estava lá na World Wide Web, para todos verem”, completa.

Pouco depois, no verão de 2005, foi a vez da Web 2.0 chegar. “Sites como MySpace, Flickr, LinkedIn e Facebook estavam colocando dinheiro de volta ao Vale do Silício. Nerds estavam ficando ricos de novo”, afirma. Nicholas Carr continua:

Eles eram, se você pudesse acreditar no hype, a vanguarda de uma revolução democrática na mídia e na comunicação — uma revolução que mudaria a sociedade para sempre.

Carr explica que a maior religião nos Estados Unidos é a “religião da tecnologia” e que o país entraria em um “estado de superabundância”. Para contextualizar o estado de deslumbramento da época, ele comenta a capa da Wired de agosto de 2005. “Estamos entrando em um novo mundo. A humanidade seria reiniciada“, dizia a revista.

O escritor conta ainda que esse tipo de reação aos novos sites e que as plataformas sendo criados moldaram a opinião pública. “Ao espalhar essa visão utópica da tecnologia, uma visão que define o progresso como algo essencialmente tecnológico, eles encorajaram pessoas a dar ao Vale do Silício um passe livre para refazer a cultura para encaixar os seus interesses comerciais“, diz.

Acadêmicos de universidades corroboravam com a opinião da utopia da internet e da tecnologia. Para eles, o mundo virtual era uma fuga da repressão social, liberando pessoas para exercerem sua criatividade sem repressão. Carr cita o professor Yochai Benckler, de Harvard, com o seu livro The Wealth of Networks.

“Essa nova liberdade tem uma grande promessa: uma dimensão de liberdade individual; como uma plataforma para uma melhor participação democrática; como uma maneira de ter uma cultura mais crítica e auto-reflexiva; e, um aumento de uma economia global dependente de informação, como um mecanismo de ter melhoras no desenvolvimento humano em todo lugar”.

Nicholas Carr: “a internet é um projeto nascido da ansiedade”

“Benkler tinha boas intenções, mas suas considerações eram ruins”, comenta Carr. Para ele, os acadêmicos falharam em perceber em como a internet geraria negócios centralizados, um negócio com informações monitoradas para enriquecer um pequeno grupo de empresários e donos de empresas.

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“A internet acabaria gerando muita riqueza, mas uma riqueza concentrada em poucas mãos, não espalhada”, afirma. Nicholas Carr continua ao criticar o consumo das pessoas pela internet:

A cultura que emergiu da internet e que agora estende profundamente em nossas vidas é caracterizada por uma frenética produção e consumo, mas pouco empoderamento e menos ainda reflexão. É uma cultura de distração e dependência.

Nicholas Carr desconstrói essa ideia utópica. “O que era uma ferramenta sob o meu controle se tornou uma mídia sob o controle dos outros. A tela do computador estava se tornando um ambiente ou até uma cela“, explica.

Para ele, toda a Web 2.0 é vendida como heróica, como uma rebelião contra a tirania, mas não é nada disso. “É um projeto nascido da ansiedade. Nós vamos para o virtual por que o real demanda demais de nós”, explica.

Para finalizar, Nicholas Carr diz o que espera da tecnologia: “o que eu quero da tecnologia não é um novo mundo. O que eu quero da tecnologia são plataformas para explorar e aproveitar o mundo“.

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