O novo Facebook: Zuckerberg repensa missão da rede social
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O novo Facebook: Zuckerberg repensa missão da rede social

Kaluan Bernardo em 18 de fevereiro de 2017

Se tem alguém que curte fazer textão no Facebook, esse alguém é o próprio criador da rede, Mark Zuckerberg. Recentemente ele escreveu um manifesto de mais de 5 mil palavras dizendo como pretender criar uma “comunidade global” com a rede social. A carta é uma grande defesa pela globalização.

“O Facebook luta para nos aproximar e construir uma comunidade global. Quando começamos essa ideia não era polêmica. Todos os anos o mundo ficava mais conectado e isso era visto como uma tendência positiva. Mas agora, há pessoas pelo mundo que se sentem deixadas para trás pela globalização e pelas mudanças rápidas que aconteceram, e, como resultado, há movimentos que querem abandonar parte desta conexão global”, escreve. Para ele, é mais uma questão de como construir essa globalização do que voltar atrás e desistir da ideia.

Zuckerberg diz que pretende ajudar o mundo a ser um lugar melhor com o Facebook. Ele cita uma frase que diz ser uma de suas favoritas sobre tecnologia: “sempre superestimamos o que podemos fazer em dois anos e subestimamos o que podemos fazer em dez”. É por isso que ele diz que seu objetivo de longo prazo é criar uma “infraestrutura social” (termo que cita 14 vezes sem explicitar o que significa).

No geral, a tal da infraestrutura social teria uma comunidade que é de apoio, segurança, bem informada, engajada civilmente e inclusiva. “As respostas para essas questões não virão do Facebook, mas acredito que podemos fazer nossa parte”, escreve.

Em entrevista à BBC publicada no mesmo dia que a carta, o fundador do Facebook diz: “Se você está triste com o rumo das coisas, espero que não fique apenas sentado e chateado, mas que sinta a urgência que existe para a construção de infraestruturas de longo prazo”, afirmou.

A Carta de Mark Zuckerberg

Criando comunidades de apoio

Em determinado momento Zuckerberg diz que, recentemente, descobriu que há 100 milhões de pessoas participando de grupos “muito significativos” no Facebook e que seriam importantes para desenvolver essa infraestrutura social. O exemplo que ele dá é de pais que entram em grupos de paternidade após terem filhos.

Ele continua dizendo que, dos 1,7 bilhão de usuários da rede, ao menos 1 bilhão são membros ativos de grupos. Mas que eles querem melhorar isso e sugerir grupos mais relevantes e torná-los mais presentes no dia a dia das pessoas com o objetivo de incentivar o apoio.

Mas ele insiste na ideia de “grupos significativos” e afirma que medirá o progresso da rede pelo número dessas comunidades, e não de grupos em geral. Com isso, acredita ele, conseguirá aproximar mais as pessoas.

Criando uma comunidade segura

O empresário diz que embora problemas como desastres naturais, doenças, crises de refúgio e terrorismo tenham se tornado globais, as formas de resolver essas questões ainda são muito locais e “nenhuma nação pode resolver sozinha”.

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Zuckerberg diz que pretende identificar os problemas antes que eles aconteçam. Ele dá ainda um polêmico exemplo, que pretende ajudar alguém que pensa em cometer suicídio antes de que ela o faça. Ele diz que quer firmar parcerias para ajudar pessoas que estejam desenvolvendo doenças mentais, físicas ou prestes a cometerem crimes. Como o Facebook chegará a tal nível de análise e interferência na vida pessoal é assunto de um bom debate sobre privacidade.

Ele cita alguns exemplos que desenvolveu para situações de crises, como o Safety Check, no qual os usuários de um país que teve um atentado terrorista ou desastre natural podem marcar que estão bem e, consequentemente, informar seus amigos.

O Facebook muitas vezes é criticado pelo controle (ou falta de) que tem sobre posts de assédio, bullying ou exposição alheia na rede. Seu criador reconhece que não consegue avaliar os bilhões de posts com cuidado, mas que tenta analisar todos que são denunciados a eles. A ideia é utilizar inteligência artificial para aprimorar o controle. Mas esse é um processo que demorará muitos anos para funcionar, reconhece.

Comunidade informada

Sem citar diretamente o presidente Donald Trump, Zuckerberg aborda algumas questões que estiveram em debate desde sua eleição: as notícias falsas (conhecidas como “fake news”) e filtros ou bolha. O Facebook foi acusado diversas vezes de ser omisso em relação a essas questões e oferecer uma plataforma para que as pessoas se polarizassem e espalhassem mentiras.

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Embora faça um mea culpa muito sutil, o empreendedor bate na tecla de que “redes sociais oferecem pontos de vista mais diversos que a mídia tradicional”. Segundo ele, “comparado com receber notícias dos mesmos dois ou três canais de TV ou ler os mesmos jornais com suas visões editoriais consistentes, nossas redes no Facebook mostram conteúdo mais diversos”.

Ainda assim não consegue escapar do problema da desinformação e diz que procura formas de fazer as pessoas verem o quadro completo e não apenas perspectivas alternativas. “Temos que tomar muito cuidado como faremos isso”, afirma, se dizendo preocupado em garantir, ao mesmo tempo, a liberdade de expressão.

Zuckerberg diz que está lutando contra boatos do mesmo jeito que luta contra spam, mas que há uma linha tênue entre sensacionalismo, sátira e opinião.

Em uma sociedade livre é importante que as pessoas tenham o poder de compartilharem suas opiniões, mesmo que outros pensem que elas estão erradas.

Um dos algoritmos que ele tem usado para tentar entender se uma notícia é sensacionalista é perceber se as pessoas compartilham ela depois de lerem. Se muita gente abre, lê e desiste de compartilhar, provavelmente é porque o título não condiz ao conteúdo, afirma. Ele segue sem assumir a responsabilidade completa pela desinformação compartilhada no Facebook e diz que muito se deve ao próprio modus operandi da imprensa como um todo.

Zuckerberg conclui dizendo que, via de regra, prefere enfatizar as conversas sociais, não ideológicas no Facebook. “São amigos compartilhando piadas e famílias mantendo contato por diferentes cidades. Há pessoas encontrando grupos, sejam novos pais criando filhos ou novos pacientes sofrendo de uma mesma doença”, comenta.

Comunidade engajada civilmente

Embora fale que o Facebook prioriza mais publicações pessoais do que ideológicas, paradoxalmente, Zuckerberg pensa que pode fazer a rede criar mais senso de civilidade. O primeiro passo, segundo ele, é incentivar mias pessoas ao redor do mundo votarem.

Outro processo que pretende aprimorar é entregar mais notícias locais, fazendo com que as pessoas se envolvam em políticas regionais. “Podemos ajudar a estabelecer diálogo direto entre pessoas e nossos líderes eleitos”, disse.

Ele cita como exemplos desde pessoas convocando para protestos a governantes publicando suas agendas públicas. Não explicita, no entanto, como equilibra o ativismo cívico com a polarização e criação de bolhas que citou anteriormente.

Criar uma comunidade inclusiva

“O Facebook não é apenas tecnologia ou mídia, mas uma comunidade para as pessoas”, defende Zuckerberg. Novamente, ele faz um mea culpa e reconhece que errou em apagar vídeos relacionados ao movimento Black Lives Matter, ao retirar de fotos de guerra no Vietnã e por classificar incorretamente como “discurso de ódio” debates em diferentes espectros ideológicos.

“Isso é especialmente doloroso para mim porque normalmente concordo com aqueles que nos criticam dizendo que estamos cometendo erros. Esses erros quase nunca são porque mantemos posições ideológicas em relação à nossa comunidade, mas é porque há problemas operacionais em escala”, diz.

Por fim, Zuckerberg diz que é difícil ainda encontrar um padrão para o que deve e o que não deve ser censurado na rede social, uma vez que envolve diversas nuances e questões culturais de diferentes países. Mas que tentará ser mais complacente com documentos históricos e relevantes para debates públicos.

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