Cursos virtuais podem ser melhores do que os presenciais?
Happy Hispanic female student using laptop computer in classroom
Foto: iStock/GettyImages
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Cursos virtuais podem ser melhores do que os presenciais?

Kaluan Bernardo em 15 de outubro de 2016

Quando chegaram, os cursos online massivos e abertos (MOOC na sigla em inglês), prometeram revolucionar a educação. Plataformas como Coursera e Khan Academy foram elevadas ao futuro do aprendizado. Mas logo a empolgação passou e muita gente passou a olhar para esses cursos com certa desconfiança.

Estudos indicam que menos de 13% dos alunos que entram nesses cursos vão até o fim. David Bromwich, professor de inglês na Yale University, chegou a dizer que os MOOCs “cooperam com a tendência da mecanização” e “desencorajam o pensamento mais complexo sobre o conteúdo”.

Barbara Oakley discorda. Ela é professora de engenharia na Oakland University e já apareceu aqui no Free The Essence dizendo como reprogramou seu cérebro para migrar das “humanas” às “exatas”. Ela também é professora do “Aprendendo a aprender”, um dos cursos mais populares da plataforma Coursera. Em um ano o curso teve mais de 1 milhão de alunos.

Ela defende que, quando bem construído, um curso online pode ser bem melhor do que uma aula presencial. Eis os motivos:

Por que cursos online podem ser melhores, segundo cientista

“A verdade é que os MOOCs podem ser artisticamente e tecnicamente fascinantes e podem ter incríveis vantagens pedagógicas”, defende em artigo à revista Nautilus.

Ela começa desmontando o argumento das desistências dos cursos online. As pessoas que se inscrevem nesses cursos vão até eles por razões diferentes de um curso tradicional na escola. A maioria está simplesmente procurando por educação. E por isso não necessariamente tem como objetivo fazer um curso completo.

Barbara diz que nosso cérebro, diferente dos de outros animais, tenta focar em qualquer coisa o tempo todo. E por isso, sempre procuramos o que está em movimento e nos distraímos tão facilmente. Por essa razão também não somos capazes de ficarmos muito tempo sentados em uma sala de aula ouvindo um professor – por melhor que ele seja.

Um estudo em 1985 acompanhou professores de Física e revelou que, via de regra, alunos que tinham aulas apenas ouvindo o professor falando, avançavam muito pouco seus conhecimentos. Mesmo quando estavam com um reconhecido e premiado tutor.

Pesquisas posteriores mostram que a “aprendizagem ativa” – quando o aluno interage durante a aula – impulsiona muito mais a educação. No entanto, diz Barbara, que também publicou estudos sobre o assunto, é necessário manter um equilíbrio. A aula não pode ser feita só de interações e nem só com o professor falando.

E a melhor forma de se alcançar esse equilíbrio, defende ela, é pelos cursos online. O curso que Barbara ensina pela internet é cheio de recursos visuais. Os professores gravam em frente a uma parede verde e, constantemente, são colocados em diversos cenários que ajudam na explicação da matéria.

“Um dos truques mais usados pelos grandes cientistas foi se imaginar transportados para dentro do que estavam tentando entender. Einstein imaginou ele mesmo perseguindo um raio de luz para conseguir formular sua teoria da relatividade”, exemplifica. “Podemos ajudar estudantes a desenvolverem o mesmo tipo de intuição que vencedores do Nobel ao trazer objetos à vida em vídeos que forma que seria virtualmente impossível faze em sala de aula”, comenta.

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Segundo ela, a interação proporcionada por um professor que usa PowerPoint na sala de aula não é a mesma, uma vez que o aluno precisa dividir sua atenção.

Além disso, os cursos virtuais têm ferramentas de interação para que os alunos conversem em momentos diferentes, quando cada um estiver interessado na matéria. “Vídeos online permitem que estudantes façam o que seus cérebros foram programados para fazer – primeiro focar, depois rever as partes que eles estão tentando aprender, para então dar uma parada. Eles podem se perguntar, ou eu posso perguntar a eles. Eles podem parar o vídeo, pensar longe e, de repente, voltar ao vídeo. Eles podem entrar em fóruns de discussões com um amigo do Chile ou de Zimbábue. Muito disso seria impossível em uma aula tradicional de duas horas”, comenta.

Dito isso, a cientista não considera os MOOCs sozinhos a salvação da educação. “Isso [o futuro da educação] virá de diversas formas: MOOCs, recursos desenvolvidos por empresas de livros, e pelos próprios professores”, comenta.

O lado único dos cursos presenciais

Embora Barbara tenha pontos interessantes na defesa do curso online, há também as vantagens dos cursos presenciais, que não podem ser substituídos por classes virtuais.

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José Borbolla Neto, professor e consultor de ciências de dados e novos modelos de negócio, defende alguns aspectos únicos da educação presencial.

“MOOCs e EADs de maneira geral ocupam mais a ‘dimensão intelectual’ do ensino, na medida em que escalam a distribuição de conteúdos. Nesta área, especificamente, eles podem sim ocupar o lugar dos cursos presenciais, mas não substituir a necessidade da presença. Somos seres sociais, e isso é tão importante para o nosso aprendizado e desenvolvimento quanto o conteúdo em si”, defende ao Free The Essence.

Isso significa que, mais do que discutir a melhor forma de ensinar determinados conteúdos, é necessário repensar a função da escola. “Não acho que a função da escola, enquanto instituição, seja apenas transmitir informações (fazer um “upload forçado” na cabeça dos alunos). Acho que a escola tem (ou deveria ter) outros papéis, em especial aqueles que envolvem sociabilização, interação, integração com a comunidade etc. A educação vai muito além da ‘dimensão intelectual’. Não se trata apenas do acúmulo de conhecimento”, comenta.

Ele acredita que as escolas precisam repensar a experiência, os conceitos, os modelos de aula, as metodologias de ensino, os sistemas de avaliação sob o risco de desaparecer caso não o faça. “Além da aula em si ser uma experiência bem diferente, mais participativa, há todo um universo de experiências dentro do ambiente escolar que transcendem, de diversas formas o modelo tradicional”, diz. Cita como exemplos a participação do aluno na manutenção da escola; a possibilidade de produzir alimentos e se integrar com a natureza e a comunidade local; e poder participar processos democráticos de tomada de decisão.

Seja pela internet ou presencialmente, a educação precisa se reinventar. É por isso que José diz que, mais do que discutir as possibilidades de ensino virtual, precisamos pensar a tecnologia como forma de construir novas definições de escola, professor e aula.

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