A desigualdade de gênero no Vale do Silício vai além dos salários
Grupo de Mulheres em reunião
Foto: Istock/Getty Images
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A desigualdade de gênero no Vale do Silício além dos salários

Camila Luz em 3 de maio de 2016

O Vale do Silício, região da Califórnia que concentra as maiores empresas de tecnologia do mundo, tem enfrentado polêmicas relacionadas à (grande) desigualdade de gênero. Homens ocupam os principais cargos e recebem mais do que mulheres. Alguns casos mais graves trazem a questão do assédio sexual.

Gigantes como Google, Apple e Microsoft não andam muito bem das pernas quando o assunto é igualdade de gênero. Segundo a empresa de análise 500 miles, em 2015, apenas 33% das principais vagas nestas empresas eram ocupadas por mulheres. Piora: quando analisavam os cargos executivos, a proporção caia para apenas 18%.

 

 

Outro dado preocupante: entre as trabalhadoras do Vale do Silício, 60% alegam que já foram assediadas sexualmente. O número é do “Elefante no Vale”, um projeto que pretende entender as dificuldades enfrentadas por essas profissionais. Os dados são colhidos por meio de depoimentos dados por elas.

O Elefante no Vale

O projeto começou como um estudo independente, movido por duas alunas da Universidade de Stanford, Julie Oberweys e Monica Leas. Elas descobriram que 95% dos sócios de empresas no Vale do Silício são homens. “Isso é ridículo, é pior do que em Wall Street”, disse Julie em entrevista.

No site, funcionários e funcionárias no Vale do Silício podem se inscrever e contar suas histórias.

Leia também: Projeto fotográfico mostra que a diversidade cultural no Vale do Silício existe (e importa!)

 

As fundadoras do estudo contaram à revista Graduate School Of Stanford Business que muitos dos executivos falam sobre a área de tecnologia ser meritocrática. Sobe na carreira quem tem habilidades para negociar melhor.

Mas para Julie, outras questões são as principais responsáveis pela diferença de cargos e salários entre homens e mulheres.

Há problemas de recrutamento, há um preconceito latente e há assédio. Se não olharmos para todas essas coisas, o quadro não muda.

Ellen Pao e o machismo no Vale do Silício

Durante o estudo do Elefante no Vale, o caso icônico de Ellen Pao explodiu. A executiva perdeu o julgamento para o fundo de investimentos Kleiner Perkins Caufield & Byers, no qual ela trabalhava.

Em 2012, Pao foi demitida do fundo, alegando que sofreu vingança de um dos sócios, com quem ela tinha um caso. A empresa se defendeu, afirmando que demitiu porque não era uma boa funcionária – o que causou revolta.

Logo após sua demissão, foi contratada pela Reddit, um dos maiores fóruns da internet. Lá chegou a ser CEO, mas acabou se demitindo em 2015 após pressão dos usuários, que afirmavam que ela estava “censurando” o site.

A desigualdade de gênero é cultural e estrutural

Minnie Ingersoll, COO e co-fundadora da Shift, defende neste texto que o problema da desigualdade de gênero na área de tecnologia é cultural. “A cultura do Vale do Silício recompensa interações meio agressivas, de quem fala com confiança e responde rápido”, diz. Essas características seriam mais típicas dos homens.

Mulheres podem preferir se comunicar de outras maneiras, como pela escrita. Também podem ter o costume de elaborar melhor suas opiniões antes de compartilhá-las com os colegas. Para Minnie, são menos incisivas, mas não menos competentes.

Tomas Chamorro-Premuzic, em um artigo na Harvard Business Review, diz que pessoas costumam interpretar demonstrações de confiança como sinal de competência. Por isso, são levadas a acreditar que homens são melhores líderes.

Há mulheres que conseguem jogar o jogo desses executivos e ganhar espaço. Mas são exceções. Homens não são mais competentes ou preparados do que mulheres. São, apenas, favorecidos pela maioria das regras.

Mudas as regras do jogo

Para Minnie, o primeiro caminho é demitir os “babacas”: pessoas que fazem os outros se sentirem diminuídas, acabam com debates construtivos e criam ambientes de trabalho miseráveis.

Aumentar o número de mulheres trabalhando com tecnologia não irá acontecer só pelo recrutamento.  Para reduzir a desigualdade de gênero, é preciso trabalhar todas as questões culturais enraizadas após anos de predominância masculina.

A executiva defende que o Vale do Silício é o centro global de inovação e empreendedorismo. Os olhares estão voltados para suas empresas. Mulheres devem ter espaço para deixar seu legado também. A partir daí, começa a mudança.

 

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