Por que as mulheres precisam participar do planejamento das cidades
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Por que as mulheres precisam participar do planejamento das cidades

Emily Canto Nunes em 10 de fevereiro de 2017

“Todo dia ela faz tudo sempre igual”, dizia Chico Buarque na sua música Cotidiano. Se sorrir todo dia pela manhã é algo que uma mulher apaixonada possa fazer por seu amor e pelo seus filhos, o mesmo não se pode dizer dos caminhos que percorre. Ao menos foi isso que a administração de Viena, na Áustria, descobriu em estudos que fez na década de 1990 com homens e mulheres que habitavam o nono distrito e usavam transporte público. E isso vale para as mulheres de todo o mundo.

Segundo o site CityLab, que conta um pouco da história de Viena, em uma determinada pesquisa, a maioria dos homens afirmou que usava o carro ou algum transporte público duas vezes por dia, uma para ir trabalhar na parte da manhã e outra para voltar para casa a noite. As mulheres, por outro lado, usavam a rede de calçadas, as rotas de ônibus, as linhas de metrô e bondes, e não apenas mais, mas com mais frequência e por uma infinidade de razões — levar e buscar filhos na escola, visitar parentes ou simplesmente ir ao supermercado no final do dia.

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“A maioria dos homens preencheu o questionário em menos de cinco minutos”, disse Ursula Bauer, que aplicou o estudo, ao site CityLab. “Mas as mulheres não conseguiam parar de escrever”, contou. Foi Ursula, ao lado de outras mulheres que atuavam na administração municipal, que começaram a mudar Viena e transformá-la em referência. Uma dessas pessoas é a urbanista Eva Kail, que se tornou peça fundamental na integração da mulher ao espaço público na Áustria e referência no assunto.

Especialista na questão de gênero, Eva vem, desde a década de 1990, implementando dezenas de projetos que promovem a equidade de gênero em Viena, criando conjuntos habitacionais que melhoram a vida das mulheres com filhos — o Women-Work-City, por exemplo — ou parques que são atrativos também para meninas e não apenas para os meninos, nos quais elas não precisam disputar espaço com eles na hora de brincar.

Carine Roos

Carine Roos Foto: Arquivo Pessoal

Viena é o exemplo que melhor ilustra, na opinião de Carine Roos, idealizadora do UP[W]IT (Unlocking the Power of Women in Technology), quanto o planejamento das cidades precisa da visão das mulheres assim como na tecnologia — ou as duas áreas juntas.

Segundo ela, não é que uma cidade seja machista, mas o machismo é um problema estrutural da sociedade que também se reflete nas cidades, uma vez que existe uma ausência de mulheres no planejamento urbano assim como na tecnologia. “Nas cidades vemos muito essa questão da violência, do assédio. Toda a mulher já deixou de fazer algo porque não quis passar por uma rua escura, ou não fez uma travessia porque só tinha homens no caminho. E temos que saber que isso impacta”, afirma Carine.

“Uma cidade feita para a mulher provavelmente seria melhor para todo mundo, porque a mulher é quem normalmente cuida dos filhos, logo, das crianças, e dos pais, os idosos. Se trouxessem iluminação para uma rua que as mulheres se queixam de ser escura, essa rua se tornaria mais segura para mulheres, crianças, idosos”, exemplifica.

De acordo com Carine, a ideia da UP[W]IT é colocar as mulheres na tecnologia no centro da discussão, ou liderando essas transformações, inclusive das cidades, porque isso gera inovação. “Desde sempre o desenvolvimento da sociedade ou mesmo da tecnologia foi mais masculino”, ressalta.

Ainda assim, Carine acredita que é importante envolver os homens nessas discussões todas. “Nos eventos que faço tem 70% de participação de mulheres e 30% de homens, mas confesso que depende do quão aberto ao diálogo eles estão, porque é muito difícil um homem questionar o seu próprio privilégio, para eles a situação está dada, é muito confortável não discutir esse tipo de questão”, afirma. Segundo ela, no entanto, já existem homens sensíveis a esses problemas, e isso é importante porque as mulheres vão encontrar chefes homens pelo caminho, por exemplo.

A inclusão de pessoas de diferentes classes sociais é outro ponto que preocupa Carine ao criar eventos que empoderem as mulheres na tecnologia. “É preciso ter mulheres de diferentes realidades”, afirma, lembrando que o caminho que uma mulher da periferia faz na cidade é normalmente diferente do percurso que uma mulher de classe média faz no seu dia a dia.

Tecnologia à favor das mulheres e da cidade

Na tarde do dia 11 de fevereiro, em São Paulo, a UP[W]IT realizada, com apoio da CA Technologies, o evento “Cities for Everyone”, com transmissão pelo Facebook. Na opinião de Carine, o urbanismo, assim como a área de Tecnologia de Informação, carece de um olhar feminino para que seja mais igualitário para todos.

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Um dos grandes objetivos do “Cities for Everyone” é encontrar soluções para as cidades que possam ser utilizadas pela administração pública ou mesmo por ONG. A inspiração para os projetos a serem desenvolvidos no evento vem de iniciativas como a do aplicativo NINA e do Safetipin.

O NINA possibilita a denúncia, em tempo real, de violência sofrida em transportes públicos, mapeando os casos de assédio em ônibus e outros transportes das cidades, classificando o tipo de crime, tempo, rota e ainda possibilita o registro de imagens. Já o Safetipin é um app que permite mapear, de forma colaborativa, as áreas mais seguras e inseguras de uma cidade.

Carine acredita que mesmo países como o Brasil e cidades com pessoas tão grandes e diversas como São Paulo podem oferecer mais equidade de gênero às mulheres. Mas, segundo ela, é preciso ter mais do que aplicativos de táxi e tocar no cerne da questão.

Iniciativas nacionais como a do vagão de metrô feminino no Rio de Janeiro não são exatamente uma solução do ponto de vista da especialista. “Temos um problema de assédio e de falta de respeito com as mulheres. E 50% da população é de mulheres. Você vai colocar 50% das mulheres dentro de um vagão? Não faz sentido, porque você não discute a prevenção, é só uma medida paliativa que não resolve o problema, que é discutir o machismo”, afirma.

No Rio de Janeiro, aliás, o tipo de violência que a mulher está mais exposta é a sexual. Segundo o Dossiê Mulher 2016 do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, 32% dos casos de violência sexual ocorreram no âmbito doméstico e/ou familiar, o que é preocupante, assim como é alarmante o dado de que 68% dessas vítimas estavam em outros espaços, como escola, trabalho, locais de lazer, rua, transporte público, entre outros. É por isso que a ActionAid lançou, há alguns anos, a campanha Cidades Seguras para as Mulheres, que busca influenciar o poder público para melhorar a qualidade dos serviços urbanos e, assim, diminuir a sensação de insegurança que acompanha as mulheres em suas jornadas diárias.

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  • Booker

    É impossível planejar uma cidade, são infinitas variáveis.

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