O que é e como funciona a desescolarização? Saiba mais
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O que é a desescolarização? Como ela funciona?

Pedro Katchborian em 22 de agosto de 2016

Ainda adolescente, Gutto optou por cartolas e varinhas e se tornou mágico profissional. Poucos anos depois, decidiu seguir o ritmo do berimbau e virou capoeirista. Atualmente, prestes a completar 23 anos, dedica-se à música. O roteiro nada convencional de empregos é fruto da desescolarização, também chamada de unschooling, método educacional incentivado por sua mãe, Ana Thomaz. “Ele é tão genuíno que quando tem interesse em algo, estuda e constrói um mercado de trabalho próprio”, comenta Ana.

Ana é uma das adeptas do sistema, sugerido pela primeira vez por Ivan Illich, um filósofo e pedagogo austríaco que escreveu um livro chamado “Sociedade Sem Escola”, em 1971. Na obra, Illich sugere um novo método educacional:

“A busca atual de novos canais educativos deverá ser transformada na procura do seu oposto institucional: redes educativas que aumentam a oportunidade de cada um transformar cada momento da sua vida num outro de aprendizagem, de partilha e de interesse”.

Essa é a grande diferença da desescolarização para a educação em casa. Na segunda, há um currículo de disciplinas a ser estudado em casa e existe um horário para aprender e brincar. No unschooling, não há um momento específico de estudo.

Ana tem outras duas filhas e explica mais sobre o dia a dia desse processo. “Não há momento de aprender ou de estudar. O tempo todo é momento de viver“, cita. Para explicar melhor, ela comenta um momento de aprendizado de suas filhas. “Por exemplo, estávamos viajando de carro e minha filha perguntou: como o nariz da minha avó foi parar em mim? Quando você vai ver, estávamos falando sobre genética”, diz. Em relação ao cotidiano de suas filhas, ela descreve de maneira sucinta: brincar.

Educadora, Ana começou a desescolarização com Gutto. Aos 12 anos, ele pediu para sair do colégio. “Fiquei com muita dúvida e receio. Achei que estivesse ficando louca, mas algo me dizia que aquilo fazia sentido”, explica. Aos 14, ela concordou em tirá-lo da escola. “Eu pedi para ele esperar, para vermos se era uma possibilidade real. Não foi fácil, mas eu me trabalhei bastante”, diz.

“As crianças têm um caminho muito singular que não é o que o adulto imagina”, analisa. “O que aprendi com a desescolarização é que a criança é completa e o adulto pode enriquecer isso“, conclui.

Preconceito com a desescolarização

Por fugir do tradicional e lidar com um tema tão delicado quanto a educação, pensa-se que Ana e seus filhos podem receber críticas, o que ela nega ter acontecido.

Nunca sofri preconceito. Quem vê e convive fica tão admirado com a espontaneidade, educação e colaboração da criança, que não critica.

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Em relação à escola tradicional, Ana detona as mensagens passadas pelos colégios. “Por exemplo, quando tem uma prova, um professor fica em silêncio vendo o que as crianças estão fazendo. Isso quer dizer que as crianças são pequenas infratoras”, afirma.

Segundo ela, crianças que passaram pelo processo de unschooling tornam-se mais fáceis de conviver. Como a desescolarização é mais um processo de dar liberdade para a criança, para fazer esse método quem deve aprender mais são os pais. “As crianças nasceram desescolarizadas. É um trabalho dos pais. Enfrentar sozinhos essa mudança não é fácil”, comenta.

O futuro da desescolarização

Segundo a ANED (Associação Nacional de Ensino Domiciliar), o Brasil tem cerca de 800 famílias que praticam o ensino domiciliar— o que não significa que são praticantes da desescolarização. Nos Estados Unidos, estima-se que mais de 2 milhões de crianças tenham algum tipo de educação domiciliar.

De qualquer forma, Ana conta que o unschooling tem cada vez mais adeptos. “Há sete ou oito anos era uma coisa de outro mundo, hoje já se fala disso com mais naturalidade”, fala.

Ana conta que teve contato com outros países e culturas e que o Brasil está no caminho certo nesse sentido. “Estamos surpreendentemente mais consistentes do que em vários outros lugares“, explica. Atualmente, Ana Thomaz mora em Piracaia, no interior de São Paulo, e é criadora da Amalaya, um lugar de acolhimento para pais e crianças que se interessam pela desescolarização.

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