O que é e como funciona a desescolarização? Saiba mais
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O que é a desescolarização? Como ela funciona?

Pedro Katchborian em 22 de agosto de 2016

Pais e filhos dos mais diferentes lugares têm optado por um novo caminho educacional: a desescolarização, ou unschooling, como é chamado em inglês. É o caso, por exemplo, de Gutto, que, ainda adolescente, optou por cartolas e varinhas e se tornou mágico profissional. Poucos anos depois, decidiu seguir o ritmo do berimbau e virou capoeirista. Atualmente, prestes a completar 23 anos, dedica-se à música.

“Ele é tão genuíno que quando tem interesse em algo, estuda e constrói um mercado de trabalho próprio”, comenta Ana Thomaz, a mãe. Ela acredita que o unschooling tem cada vez mais adeptos. “Há sete ou oito anos era uma coisa de outro mundo, hoje já se fala disso com mais naturalidade”, afirma.

Atualmente, Ana mora em Piracaia, no interior de São Paulo, e é criadora da Amalaya, um lugar de acolhimento para pais e crianças que se interessam pela desescolarização. A família é uma de ao menos 3,2 mil que apostam nesse conceito no Brasil.

Entenda um pouco mais dessa filosofia e estilo de vida.

O que é e como surgiu a desescolarização

Desescolarização é um conceito sugerido pela primeira vez na década de 1970. Um de seus principais proponentes é Ivan Illich, um filósofo e pedagogo austríaco que escreveu um livro chamado “Sociedade Sem Escola”, em 1971. Na obra, Illich sugere um novo método educacional:

A busca atual de novos canais educativos deverá ser transformada na procura do seu oposto institucional: redes educativas que aumentam a oportunidade de cada um transformar cada momento da sua vida num outro de aprendizagem, de partilha e de interesse.

John Holt, outro autor considerado o pai da desescolarização, é crítico do modelo engessado das escolas. “Nós destruímos o amor por aprender das crianças, de forma tão forte, quando eles são pequenos, encorajando e impondo a eles o trabalhar por recompensas mesquinhas e desprezíveis, estrelinhas douradas, papeis marcados com 100 e pendurados na parede, ou A em cartões (…) para a ignóbil satisfação ou sentimento de que eles são melhores do que alguém”, escreveu.

A desescolarização parte da premissa de que crianças são aprendizes naturais e que a curiosidade deve ser incentivada no lugar de uma educação moldada para ser igual a todos.

Desescolarização é diferente de educação em casa. Na segunda, há um currículo de disciplinas a ser estudado e existe um horário para aprender e brincar. No unschooling, não há um momento específico de estudo.

Ana é um exemplo disso. Ela tem outras duas filhas e explica mais sobre o dia a dia desse processo. “Não há momento de aprender ou de estudar. O tempo todo é momento de viver“, cita. Para explicar melhor, ela conta sobre um momento de aprendizado de suas filhas. “Por exemplo, estávamos viajando de carro e minha filha perguntou: como o nariz da minha avó foi parar em mim? Quando você vai ver, estávamos falando sobre genética”, diz. Em relação ao cotidiano de suas filhas, ela descreve de maneira sucinta: brincar.

Educadora, começou a desescolarização com Gutto. Aos 12 anos, ele pediu para sair do colégio. “Fiquei com muita dúvida e receio. Achei que estivesse ficando louca, mas algo me dizia que aquilo fazia sentido”, explica. Aos 14, ela concordou em tirá-lo da escola. “Eu pedi para ele esperar, para vermos se era uma possibilidade real. Não foi fácil, mas eu me trabalhei bastante”, diz.

“As crianças têm um caminho muito singular que não é o que o adulto imagina”, analisa. “O que aprendi com a desescolarização é que a criança é completa e o adulto pode enriquecer isso“, conclui.

Preconceito com a desescolarização

Por fugir do tradicional e lidar com um tema tão delicado quanto a educação, pensa-se que Ana e seus filhos podem receber críticas, o que ela nega ter acontecido.

Nunca sofri preconceito. Quem vê e convive fica tão admirado com a espontaneidade, educação e colaboração da criança, que não critica.

Em relação à escola tradicional, Ana detona as mensagens passadas pelos colégios. “Por exemplo, quando tem uma prova, um professor fica em silêncio vendo o que as crianças estão fazendo. Isso quer dizer que as crianças são pequenas infratoras”, afirma.

Segundo ela, crianças que passaram pelo processo de unschooling tornam-se mais fáceis de conviver. Como a desescolarização é mais um processo de dar liberdade para a criança, para fazer esse método quem deve aprender mais são os pais. “As crianças nasceram desescolarizadas. É um trabalho dos pais. Enfrentar sozinhos essa mudança não é fácil”, comenta.

John Holt é ferrenho nas críticas às formas de avaliação proposta pelas escolas, que “encaixotam” os alunos. Em seu site ele responde a uma série de afirmações feitas sobre desescolarização, como que as crianças serão prejudicadas pela visão dos pais, que “não poderão se encaixar no mundo ou que desescolarização é apenas para pessoas com muito tempo disponível. Para ele, o pior é submeter uma criança às regras da escola. “A rigor, escolas são lugares onde crianças aprendem a ser estúpidas”, declarou.

O futuro da desescolarização

Segundo a ANED (Associação Nacional de Ensino Domiciliar), o Brasil tem cerca de 800 famílias que praticam o ensino domiciliar— o que não significa que são praticantes da desescolarização. Nos Estados Unidos, estima-se que mais de 2 milhões de crianças tenham algum tipo de educação domiciliar.

Até o momento, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) determina que é obrigatória a todas as crianças de 4 a 17 anos a frequência em uma instituição de ensino. Os pais que não os matriculam estão às margens da lei e podem ser denunciados por abandono intelectual. Ao Estadão, o Ministério da Educação diz que a proposta do ensino domiciliar “não apresenta amparo legal” e fere o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Para adultos existem algumas iniciativas relacionadas à desescolarização. Uma delas é a Multiversidade, proposta por Alex Bretas, que procura ser uma “universidade para autodidatas”.

Alex, inclusive, é um grande defensor do aprendizado autodidata no Brasil. Ele trabalha há anos com o conceito de doutorado informal: a ideia de pesquisar e se aprofundar em um tema sem precisar das amarras universitárias.

O estudante e pesquisador também se envolveu com a UnCollege Brasil, uma escola que propõe um ano sabático para que jovens possam se reencontrar e, sozinhos, estudarem o que quiserem – nos moldes da desescolarização.

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