Seremos todos youtubers? Conheça escolas que oferecem oficinas
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Foto: Istock/Getty Images
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No futuro, seremos todos youtubers? Conheça escolas que oferecem oficinas

Camila Luz em 26 de fevereiro de 2017

Quais redes sociais você mais utiliza? Facebook? Quem ainda está na adolescência ou na infância provavelmente irá responder Instagram, Snapchat, mas principalmente YouTube. Jovens dessa faixa etária usam a plataforma tanto para entretenimento, quanto para estudos. Sobretudo, têm o impulso de gravar seus próprios vídeos, tornando-se youtubers.

Bebês com menos de um ano de idade já são capazes de segurar o celular na mão e assistir a vídeos no YouTube. Millennials — a geração que hoje tem entre 20 e 35 anos — usa computador de mesa desde a pré-adolescência ou infância, no caso dos mais novos. Logo, quando chegarem à idade adulta, as crianças de hoje estarão muito mais avançadas no quesito tecnologia do que nós, os adultos, jamais estaremos.

Como a internet faz parte da vida das crianças e adolescentes atuais, escolas estão oferecendo oficinas de YouTube, com o objetivo de prepará-los para produzir conteúdo de qualidade e analisar de forma crítica o que consomem online.

É o caso do colégio paulistano Pueri Domus, que desde 2015 oferece um laboratório de YouTube aos alunos do nono ano ao segundo colegial, chamado Pueri VideoLab.  “É a linguagem dos meninos, é a mídia dos meninos, muito mais do que Facebook. Essa geração com a qual lidamos aqui na escola já está em outra”, diz Maria Cecília de Camargo Aranha, diretora da unidade Verbo Divino.

“A escola é um local de produção de conhecimento. Os meninos, de maneira espontânea, produzem e veiculam conhecimento através das mídias eletrônicas, principalmente o YouTube”, completa.

Laboratório para formar youtubers

O curso oferece aulas teóricas, que incluem história do cinema, além de lições práticas, como gravar e editar vídeos, falar na frente da câmera e preparar o conteúdo. As aulas ocorrem em um espaço com fundo infinito, equipamentos, orientadores e professores. Todo ano, a escola oferece determinado número de vagas e os alunos passam por uma seleção para participar.

Youtubers em Pueri Video LAB

PuerI Foto: Divulgação

Além do curso formal, o Pueri Domus deixa o laboratório aberto diariamente para que qualquer estudante tire suas dúvidas sobre seus próprios projetos. Maria Cecília explica que a oficina complementa outras matérias. Há professores que solicitam trabalhos no formato vídeo, por exemplo. Além disso, o colégio incluiu em seu currículo um curso de mídias digitais. Para a diretora, a escola faz sentido quando está conectada com a vida real.

Nicolle Liane e Pedro Silva estão no terceiro ano, têm 16 anos e são alunos do Pueri Domus. Em 2015, participaram do laboratório de YouTube. “Usamos o YouTube no dia a dia, para complementar as aulas”, conta Nicolle. “Assistimos bastante videoaula, pois às vezes o professor explica na sala e não fica tão claro. No YouTube, conseguimos pesquisar um vídeo sobre assunto. É mais fácil do que ler um texto escrito”, completa.

Os adolescentes também usam a plataforma para entretenimento, pois é possível assistir aos canais que gostam a qualquer momento, sem depender de programação.

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Como espectadores, grande parte dos jovens são craques em YouTube. Mas nem todos sabem como é estar na frente da câmera e produzir conteúdo. “Para mim, o curso despertou o interesse de conhecer mais o outro lado. Eu sempre estava do lado da pessoa que assiste. Então quis conhecer como é estar do lado da pessoa que produz”, afirma Nicolle.

Pedro já teve sua experiência como youtuber fora da sala de aula. Durante um intercâmbio para a Inglaterra, criou um canal para compartilhar suas experiências com amigos e familiares. “Como viajei sozinho, quis mostrar para meus pais e amigos o que estava acontecendo e quais lugares visitava. Em uma mensagem ou ligação, não seria a mesma coisa”, conta.

Ter canais no YouTube é tendência entre crianças e adolescentes

Ainda que nem todos as crianças adolescentes tenham um canal, a tendência é que cada vez mais jovens façam sua própria conta na plataforma do Google. David Arzel, pai do youtuber Tancrède Bouveret, de 12 anos,  conta que boa parte dos amiguinhos do filho utiliza o YouTube para socializar entre si.

“Para essa nova geração, o Facebook é pré-histórico, já ficou obsoleto e antiquado”, conta. “Eles usam [o YouTube] para mandar mensagens e vídeos pequenos e interagem muito entre eles. Todos os amigos do Tancrède têm um canal. É algo espontâneo, de momento”, completa.

Tancrède criou seu canal, o Wolf Cecil, em maio de 2015. “Decidi criar porque sempre gostei bastante de assistir YouTube. Vejo vídeos desde os sete anos, quando descobri o jogo Minecraft”, conta o menino. No Wolf Cecil, Tancrède faz lives jogando Minecraft e se comunica com outras crianças que gostam do game. Ele também faz vlogs onde fala sobre seu hobby e responde perguntas dos seguidores.

A criação do canal também foi uma válvula de escape para a leucemia, descoberta em 2015. “Decidi criar o canal porque poderia ser um emprego que eu gostasse, mas também um refúgio para sair da minha doença. Tive leucemia, um câncer da medula óssea, então não ia para a escola. Ficava jogando Minecraft o dia todo”, relembra Tancrède. “Comecei a gravar vídeos e a jogar para me divertir mesmo. Também faço uns live streams, que funcionam como um ao vivo do meu jogo”, completa.

Tancrède começou a produzir os vídeos sozinho. Para aperfeiçoar o trabalho, passou a fazer aulas na escola Happy Code, uma rede que investe em inovação e tecnologia para ensinar competências digitais.

Alexandre Luercio, diretor de marketing da escola, conta que oferece cursos de desenvolvimento de aplicativos, games, robótica, drones e a oficina de YouTube. O público-alvo são crianças entre 5 e 17 anos. “O curso de youtuber e o de Minecraft funcionam como uma degustação e temos o cuidado da educação digital. Muitas vezes o pai chega e nem sabe direito o que isso significa, é a criança que o arrasta até lá”, explica. “O pai nem mesmo sabia que o filho conhecia tudo isso e decide matriculá-lo”, conta.

Vantagens e riscos do ambiente digital

O curso de YouTube foi criado pela Happy Code no final de 2015 com base em um insight. “Pensamos em um curso onde o aluno pudesse criar conteúdo de qualidade e aprender as técnicas básicas”, relembra Alexandre.

Para o diretor de marketing, a tecnologia está 100% presente na vida das crianças e adolescentes de hoje, então é preciso educá-los para lidar com ela de forma saudável. Por isso, a escola discute assuntos como cyberbullying e outros cuidados que devem ser tomados pelos pais ao permitir que seus filhos usem a internet.

Além disso, alunos que frequentam cursos formais desenvolvem habilidades como raciocínio lógico, matemático, desenvolvimento de projetos e até aprendem inglês.

“Esses dias, a mãe de uma aluna da Unidade Botafogo que está há dois meses na escola nos contou que antes a criança era retraída e tímida. Agora já está apresentando mudanças positivas e até melhorou seu relacionamento com a mãe”, conta Alexandre.

“Nosso propósito é mudar a vida de uma criança. Nosso sonho é que pelo menos um dos nossos alunos se torne o novo Bill Gates e tenha impacto no mundo. Mas para essa mãe, o filho é o mundo dela. Trabalhamos com empoderamento e protagonismo, tanto no micro quanto no macro”, afirma.

Para Alexandre, o maior benefício do YouTube é promover engajamento e autonomia. Quem é dono do seu próprio canal tem responsabilidades e precisa se preparar para postar cada vídeo. No entanto, a exposição é perigosa, então cuidados são necessários. Por isso, a educação digital é tão necessária.

“As redes têm seus riscos, então trabalhamos isso com carinho. O pai deve estar atento ao que está sendo postado e como isso está sendo feito. Às vezes um comentário despretensioso acaba ofendendo alguém. O conteúdo deve ser produzido de forma cuidadosa”, argumenta.

Maria Cecília concorda. “É uma questão de linguagem, precisamos ensinar os meninos a se comunicar com o mundo e a lê-lo com mais critério e qualidade. Ensinamos a enquadrar bonitinho, a usar palavras que não agridam ninguém. Ensinamos a fazer bem feito”, conta ela.

A educadora afirma que muitos alunos descobrem novas qualidades quando participam da oficina. É similar ao que acontece em disciplinas como artes ou educação física: certos estudantes não têm tantos méritos acadêmicos quando o assunto é física ou biologia, mas são excelentes artistas, atletas ou, no caso do YouTube, comunicadores.

Além disso, quem participa do laboratório de YouTube aprende a trabalhar em grupo, o que é fundamental para qualquer profissional. Muitas vezes, alunos com excelência acadêmica formam uma equipe de vídeo com estudantes que não obtêm tanto mérito e o resultado é muito bom para todos.

Todo mundo quer a educação digital

Pais e educadores não estão sozinhos no discurso de que escolas têm papel importante na formação de futuros youtubers. “A escola, além de formar para o vestibular, tem que formar para a vida. Tem que formar como indivíduo. E isso não pode ser feito hoje sem contato com o âmbito digital”, opina Pedro.

Para Nicolle, trazer o YouTube para dentro da sala de aula atrai o interesse dos alunos. “A gente também vive em um mundo digital. Quando a escola fica muito afastada disso, a coisa fica chata. Quando fazemos atividades em sala que exigem o formato vídeo, como um jornalzinho gravado, isso fica mais próximo do que estamos acostumados”, afirma.

Para Tancrède, as aulas na Happy Code o auxiliaram a planejar o que será gravado. “Não adianta só começar a gravar e fazer de qualquer jeito. Você tem que preparar seu vídeo e fazer um plano para não acontecer nenhum problema no meio”, conta.

Além disso, ter um canal no YouTube o tornou mais maduro e o ajudou a fazer novos amigos e parceiros. Ele tem seguidores que fizeram a arte do canal, por exemplo. Já como espectador, a plataforma de vídeo trouxe entretenimento para sua vida. “Uma coisa que eu gostava bastante de fazer no hospital, quando estava internado, era assistir vídeos sobre curiosidades, como fatos desconhecidos e “você sabia?””, revela.

Por fim, Tancrède conta que criar o próprio canal o ajudou a acreditar que tudo é possível. Hoje, o Wolf Cecil tem mais de 3.700 inscritos e, para o menino, muito ainda está por vir.

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