Roda de Matemática quer ensinar crianças a amar a disciplina
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Roda de Matemática quer ensinar crianças a amar a matéria

Camila Luz em 12 de setembro de 2016

“E se pudéssemos aprender a amar matemática antes que o mundo dissesse que não?”. É assim que Janaina Villela, Ligia dos Santos Zorzo e Gustavo Oliveira questionam quem abre o site da Roda de Matemática. A escola foi fundada em 2016 pelos três sócios com o objetivo de ensinar a disciplina para crianças de forma interessante e desafiadora, fora dos padrões do ensino tradicional.

De acordo com o blog da Roda, pesquisa recente feita nos EUA mostrou que mais de 50% dos jovens dizem “não serem bons em matemática”. Ainda assim, 93% dos entrevistados concorda que o desenvolvimento de boas habilidades matemáticas é essencial para suas vidas.

Segundo os três sócios, crianças são condicionadas a não gostar de matemática desde que entram na escola. A própria sociedade pinta a disciplina como difícil e chata de aprender. No entanto, isso tem mais a ver com métodos tradicionais de ensino do que com a matemática em si.

Na escola, aprender matemática significa saber toda a tabuada, decorar equações e repetir exercícios. Na Roda de Matemática, significa aprender a pensar de forma lógica, a resolver o mesmo problema de diferentes formas e a lidar com o erro. “O erro é seu amigo”, dizem os sócios. A equipe quer passar para os alunos a ideia de que errar faz parte e temos muito a aprender com isso.

Como funcionam as Rodas de Matemática

Apesar de auxiliar alunos em seus aprendizados, a “Roda de Matemática” não é aula de reforço para quem tem dificuldade. “Temos tanto crianças que não gostam e têm dificuldade, quanto as que amam matemática. Pais chegam para nós, dizem que os filhos gostam muito de matemática, mas não sabem onde colocá-los para desenvolver o interesse”, explica Janaina.

crianças brincando com professora

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Na Roda de Matemática, alunos de 5 a 12 anos são divididos em quatro níveis. O primeiro é formado por crianças que têm 5 ou 6 anos, o segundo por quem tem 7 ou 8 e assim por diante. Mas segundo Ligia, não é regra. “Temos uma aluna que já tinha idade para passar de turma, mas ainda estava meio travada. Resolvemos deixá-la na mesma turma por mais um semestre”, conta. Da mesma forma, alunos mais avançados e que estejam perto de completar a idade mínima para o nível seguinte podem estudar junto com os mais velhos.

As aulas têm duração de 1h20 e todas as atividades são desenvolvidas de forma colaborativa entre os alunos. O professor tem o papel de propor desafios e orientá-los enquanto buscam soluções e caminhos. Caminhos, no plural, pois o mesmo problema pode ter mais de uma resolução.

“No ensino tradicional, a resposta importa mais do que o desenvolvimento do exercício. Alunos devem chegar ao resultado seguindo um caminho único, que foi explicado pelo professor em sala”, diz Gustavo. Na Roda de Matemática, ele quer o contrário: que as crianças enxerguem os exercícios de diferentes formas e encontrem vários caminhos para solucioná-lo.

meninas brincando aprendendo matemática

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Para explicar seu método, Gustavo mostra um dos exercícios desenvolvidos em sala. No ensino tradicional, o aluno deveria usar o Teorema de Pitágoras para encontrar a área de um quadrado. Mas essa não é a única forma de resolver o problema e muito menos a mais simples. Visualizando as formas geométricas presentes no desenho de forma lógica, por exemplo, é possível chegar ao mesmo resultado.

As rodas são baseadas em seis fundamentos matemáticos que se intercalam e retornam em ciclos ao longo de cada semestre: algoritmos, raciocínio lógico, mensuração e escalas, probabilidade e estatística, geometria e, por fim, números, padrões, operações e álgebra.

Para Gustavo, o raciocínio lógico é o principal, pois a partir dele o aluno vai desenvolver habilidades que podem ser aplicadas em inúmeras situações matemáticas e até em outras disciplinas.

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Estudantes preparados para encarar a matemática e outros problemas

Diferente do ensino tradicional, a Roda de Matemática não exige que os alunos resolvam os exercícios no menor tempo possível. Como o processo é mais importante do que o resultado, os sócios deixam que as crianças fiquem livres para explorar todas as soluções, discutir resultados e questionar colegas.

Para estar de acordo com o método proposto, os professores da Roda precisam prestar atenção no que dizem no momento da aula. Parabenizar a criança quando termina o exercício rapidamente, por exemplo, não faz sentido. Afinal, o objetivo não é treiná-la para fazer provas, e sim estimular seu raciocínio para que consiga resolver qualquer tipo de problema no futuro.

Mesmo sem o objetivo de treinar para provas, quem participa da Roda de Matemática podem se sair bem em testes como o vestibular da Fuvest, para entrar na USP. A avaliação tem 90 questões objetivas e duração de cinco horas. Ou seja: o aluno tem pouco mais de três minutos para resolver cada questão.

Ligia explica que os alunos dos Círculos de Matemática, método no qual a Roda se inspira, vão tão bem em provas de matemática quanto alunos do método tradicional. “Pesquisas feitas na Califórnia acompanharam alunos que estavam no Círculo e não tinham essa cobrança de tempo. Mas quando faziam provas nesse formato, iam ‘muito bem, obrigada'”, conta Ligia. “Em provas sem cobrança de tempo, provavelmente se sairiam ainda melhor”, completa.

Inspiração: os Círculos de Matemática

Os Círculos de Matemática são parte importante da cultura matemática de países da Europa Oriental, como Rússia e Bulgária. Surgiram há mais de um século, por volta de 1910. São encontros regulares liderados por um professor, nos quais o objetivo é discutir problemas de forma integrada. De acordo com o site oficial da Roda, “são ambientes de investigação intelectual que desenvolvem confiança, perseverança e a criatividade matemática”.

pés de crianças em cadeira

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Os Círculos chegaram ao Ocidente somente na década de 90. Em 1994, os professores de Harvard Bob e Ellen Kaplan criaram o “The Math Circle”, o primeiro nos Estados unidos. O modelo se expandiu para outros estados, se multiplicou ao longo do últimos anos e, hoje, há mais de 230 Círculos espalhados pelo país.

Para fundar a Roda de Matemática no Brasil, três sócios de diferentes áreas profissionais se uniram: Janaina é publicitária, trabalhou em agências e como fotógrafa. Gustavo é formado em economia, adora estudar e ensinar matemática. Já Ligia é formada em direito e trabalhou na área até decidir estudar pedagogia.

Gustavo e Janaina são casados e têm dois filhos: João e Helena. Eles esperam poder ensinar matemática aos dois de forma desafiadora e interessante, para que possam ter a liberdade de fazer escolhas no futuro sem temer encarar a disciplina.

Os planos de fundar a Roda de Matemática existiam desde 2015. Depois de um semestre de aulas com uma turma piloto, a escola está instalada e funcionando no bairro de Pinheiros, em São Paulo.

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