Entrevista: Qual o efeito do tablets na educação infantil
tablet na escola
Foto: Istock/Getty Images
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Entrevista: Qual o efeito do tablet na educação infantil

Kaluan Bernardo em 16 de julho de 2016

Muitas escolas estão apostando nos tablets como ferramenta de educação. No entanto, como a tecnologia é relativamente nova, elas ainda estão tateando e tentando descobrir a melhor forma de usar em sala de aula. Afinal, qual o impacto que os tablets e os games podem ter em sala de aula?

Tiago Mota, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, fez uma pesquisa de mais de dois anos voltada ao tema. Ele passou um semestre em uma escola de classe média alta em São Paulo acompanhando o uso de tablets no primeiro ano do ensino fundamental, com crianças de seis anos.

Aquele era o primeiro semestre que a escola usaria a tecnologia em salas de aula do ensino fundamental. E para isso contrataram um jogo chamado “Mistério dos Sonhos”, da empresa brasileira Xmile Learning.

O game, com desafios de português e matemática, registra a atividade dos alunos e envia um relatório aos pais e professores comparando a performance de qualquer um. Após passar o semestre acompanhando as crianças e sua relação com o game e o tablet, Tiago Mota pediu para eles desenharem sobre sua relação com a tecnologia. Disso, continuou a pesquisar e montar sua dissertação.

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Conversamos com ele para entender um pouco sobre os possíveis impactos que mídias como tablet podem ter na educação infantil. Veja trechos da conversa:

Free The Essence – Que tipo de relação as crianças têm com o jogo?

Eles criam um vínculo muito forte. Não me atreveria a chamar de diversão. Eles tinham os momentos de diversão, outros de tensão, de sobriedade e até mesmo de competitividade entre eles. O que dá para dizer é que as crianças queriam jogar. Quando o tablet chegava na sala, eles ficavam super felizes.

FTE – Como o tablet lida com a atenção da criança?

Isso tem a ver com o impacto da mídia em geral. No tablet você tem uma tela individual, quase sua. Um dos efeitos dessa mídia tem relação com o conceito de círculo mágico, defendido por um autor chamado Johan Huizinga. O círculo mágico é um espaço de suspensão de uma primeira realidade para a segunda realidade — a do jogo. Você sai de um sistema de regras e vai para o outro.

Antropologicamente o conceito de círculo mágico extrapola o jogo e vai para o ritual. E Huizinga diz que o jogo é a raiz do ritual. A sala de aula é um espaço ritual. O que está acontecendo ali são regras bem definidas que geram uma ordem de comportamentos e coisas que já são esperados.

Então temos um círculo mágico chamado sala de aula. E, dentro dele, o outro círculo, o da da mídia do tablet.

Quando você assiste a televisão de domingo, vê que está sendo gerado um ambiente comunicacional — um limite dentro de nossa vida, um espaço de completa absorção que obedece suas próprias regras.

O tablet tem a mesma função. É capaz de fazer o mesmo. Essa capacidade de absorção é especialmente potente pelo jogo, pelo tablet e pelo ambiente comunicacional que a escola é — o aluno sentado na cadeira e com dois de seus principais sentidos de alerta (a visão e a audição) totalmente imersos naquela mídia.

Nesse momento, Tiago mostra alguns dos desenhos que as crianças fizeram e que revela como elas inserem o tablet em suas representações. Formas retangulares aparecem por todos os lugares, até emoldurando o sol. É como se o tablet se tornasse sua janela para o mundo:

desenho de criança sentada em mesa e sol dentro de quadrado desenho de criança em folha de sulfite onde há uma criança sentada em mesa no canto esquerdo

 

FTE – Essa suspensão limita a criança?

Ela é cultural e não necessariamente é nova. A questão é tentarmos entender que tipo de impacto isso gera no conteúdo imagético da criança e sua percepção de espacialidade. Vale destacar que estamos trabalhando com idade tão crucial, que são as crianças de seis anos, que estão aflorando comportamentos miméticos. Os pedagogos chamam de idade do brincar, porque brincando a criança constitui o mundo.

E elas brincam com o tablet. Mas quando o fazem, a situação parece muito mais como um ato de resistência do que necessariamente uma brincadeira padrão. Porque a expectativa é que a criança esteja sentada, usando o tablet em silêncio. Se ela levanta, pega o dispositivo e vai brincar com um amiguinho, é repreendida pelo professor. Aquela brincadeira dela surge mais como resistência do que padrão.

Falamos muito em mobilidade, mas esse é um grande eufemismo. Porque para usar um tablet você precisa estar parado e, preferencialmente, sentado. Não é questão de demonizar a mídia, mas precisamos prever que, de alguma forma esse excesso de conteúdo imagético irá impactar a criança e sua produção imaginária.

Só saberemos como ficou a inteligência da criança quando ela estiver mais adulta. O que podemos dizer é que isso altera a imaginação e as faz se movimentarem menos em uma fase na qual o movimento é a inteligência da criança.

Tiago então mostra que, muitas das crianças, passam a reproduzir imagens e não organizar novas. Ele apresenta três desenhos feitos por três crianças de salas diferentes e que não se conhecem. São praticamente a mesma ilustração:

 

FTE – Qual o efeito desses padrões de reprodução?

Quem sempre sai perdendo é o corpo. Qual é a maior inteligência do corpo? É a da imaginação — como capacidade de interpretar e reformular imagens e criar novos mundos e imagens. Para um teórico chamado Dietmar Kamper, o oposto da imaginação é o imaginário —o aquelas imagens que vão se sedimentando na cultura de forma que se tornam indissociáveis.

O que estamos ensinando para uma criança colocando ela sentada diante de uma máquina de imagens? A gente está ensinando ela a reproduzir imaginário. Vemos que os elementos se repetem muito nos desenhos. São crianças que estão sendo capacitadas a reproduzir, não a criar.

FTE – Isso permite controlar mais as crianças? A mídia como tablet vira uma ferramenta de controle?

Vivemos uma cultura de adestramento . A escola é um ritual de adestramento. É muito difícil que o tablet fuja desse padrão cultural porque ele faz parte da cultura. Não é questão de demonizar a tecnologia em si. Mas é claro que o tablet não produz cultura, mas vai operar na que vivemos, que é essa do adestramento, do “fica quieto aí”.

FTE – Por outro lado, a tecnologia ajuda a criança absorver o conteúdo programático…

Sim, inclusive é o que o Mistério dos Sonhos faz. Qualquer jogo é regra e padrão. Quando domina a regra e o padrão, você vence. Isso tem uma função cognitiva, mas é limitado. Não podemos ser românticos e acharmos que sempre vamos romper com isso. A não ser que você eduque a criança para não dominar o sistema do jogo, mas a formular jogos, a criar. Normalmente só trabalhamos com a repetição dos padrões.

Ainda que o jogo faça com o que o desempenho da criança seja melhor nas matérias da escola, passe no vestibular, como vou mensurar a aprendizagem em um sistema que valoriza reprodução? E o que a criança reproduz é um imaginário consumidor.

Por exemplo: no final do ano, elas não queriam mais usar um tablet da Samsung, queriam um iPad. E a escola foi lá e comprou. Mas, do ponto de vista educacional, não faz sentido já que o iPad é muito mais fechado. Elas estão se tornando consumidores de imagens, telas, tablets e jogos. Não estão empoderando a molecada.

 

FTE – As crianças se isolam com os tablets?

Nos desenhos, a única pessoa de fora que aparece sou eu. Durante o uso dos tablets as crianças ficam isoladas do resto da sala. As professoras não sentem a necessidade de acompanhá-las e as próprias crianças não elas. Por isso, muitas vezes me associavam à atividade — porque eu ter ao único acompanhando eles. Eles se vinculam com quem está no mesmo círculo mágico — porque, como ritual, ele tem alto poder vinculativo. E é por isso que as crianças lembravam de mim, mas não dos professores.

O poder de absorção da mídia é único. Mas eles não ficavam parados, quietinhos. Buscavam por outras crianças que estavam usando o tablet. Eles se levantavam para ajudar, conversar e tal. Mas a professora reprimia porque, se pedissem ajuda, o relatório não daria certo. Isso acontece porque o jogo é todo voltado ao individual. Um game educativo não pode ser assim. Se fosse um jogo que envolve a sala inteira, veríamos outros tipos de ganho.

FTE – Quais são os cuidados que pais, professores e desenvolvedores devem ter?

Precisamos empoderar essas crianças. Podemos ouvi-las e ver quais são os usos que ela vai propor para o tablet. Por outro lado, temos que ficar de olho para ver se ela já não criou um vínculo hipnógeno, de ficar absorta na tela.

Na parte prática: o que o pai pode fazer é prestar atenção se a criança está sendo capaz de usar o corpo dela de forma a vincular a atividade do tablet (que, mais uma vez, não é demoníaco) com atividades corporais — algo como Pokemon Go faz.

Os pais podem pensar desde coisas simples como limitar o horário, mas o mais importante é pensar no como a criança vai usar aquilo. Você não pode deixar ela jogando sozinha, ela está perdendo a oportunidade criar vínculos. Então não terceiriza a educação de seus filhos para os tablets. Jogue com seu filho, acompanhe-o e brinque com ele.

Minha proposta é que a escola também se preocupe para conhecer o impacto que aquilo gera. Aquela tecnologia não é inocente. Os professores precisam entender que aquele tablet é uma imagem e tem ideologia. Então começam a propor atividades conscientes dos custos educacionais e do impacto de tudo isso.

E em relação aos desenvolvedores é saberem que o jogo não pode ser individual. É necessário vincular todos e fazer as crianças usarem o corpo, andarem, movimentarem-se.

FIGURA (5)

Foto: Arquivo Pessoal

FIGURA (22)

Foto: Arquivo Pessoal

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Foto: Arquivo Pessoal

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Foto: Arquivo Pessoal

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Foto: Arquivo Pessoal

FIGURA (8)

Foto: Arquivo Pessoal

FIGURA (10)

Foto: Arquivo Pessoal

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Foto: Arquivo Pessoal

FIGURA (12)

Foto: Arquivo Pessoal

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Foto: Arquivo Pessoal

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Foto: Arquivo Pessoal

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