Estudo: anticoncepcional à base de progesterona pode causar depressão
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Anticoncepcional à base de progesterona pode estar associado à depressão

Camila Luz em 18 de outubro de 2016

O uso de anticoncepcional hormonal pode causar problemas de saúde graves, como derrames e aumento da pressão arterial. Pesquisa feita na Dinamarca, publicada em setembro deste ano pela revista JAMA, mostra que o uso de hormônios também pode estar relacionado com a depressão.

cartelas de anticoncepcional

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A psiquiatra Mary Miranda leu o artigo e comentou ao Free The Essence. As conclusões foram tiradas após 14 anos de pesquisa, analisando dados de mulheres de 15 a 34 anos. Todas elas utilizavam o sistema de saúde do país, que é bastante rigoroso. “É um artigo de segmento, muito bem feito por sinal. Eles acompanharam mais de um milhão de mulheres, de janeiro de 2000 a dezembro de 2013. Em média, cada mulher foi acompanhada por mais de seis anos”, explica.

Os pesquisadores acompanharam tanto mulheres que começaram a tomar anticoncepcional, quanto as que não fizeram uso do método. Em seguida, observaram quais utilizavam o sistema de saúde apresentando sintomas de depressão, queixando-se de transtornos ou fazendo uso de antidepressivos.

“O que eles observaram foi que há um aumento da incidência do uso de antidepressivos depois das mulheres começarem a tomar anticoncepcional”, revela. “Isso ocorre predominantemente na adolescência, seis meses após começarem a fazer uso do método. Ou seja, quanto mais jovens, maior o risco  de apresentarem os sintomas. E esse risco é muito aumentado para drogas que têm progesterona”, completa.

A “vilã” progesterona

A pesquisa aponta para a progesterona como hormônio responsável pelos sintomas. O anticoncepcional hormonal pode ser combinado, com estrógeno e progesterona, ou ter apenas esta última em sua composição. “As pessoas que usavam pílulas que tinham predominantemente progesterona, ou derivados dela, apresentavam taxas maiores. Então a incidência era maior nesse grupo”, explica.

“Os hormônios sexuais são extremamente importantes na modulação de comportamentos. Interferem tanto no aspecto emocional quanto cognitivo”, diz. “Isso tem a ver com regiões do cérebro que têm receptores nos quais os hormônios agem provocando determinados tipos de comportamentos e respostas”, completa.

Suspeita-se que a progesterona iniba a função de uma enzima que metaboliza neurotransmissores como a serotonina, responsável por regular humor, sono, apetite, sensibilidade e funções intelectuais. Ao inibir a produção de serotonina, acaba tendo papel maior em sintomas depressivos. Além disso, age no Sistema Gaba, que tem papel inibitório e causa efeitos como aumento do sono.

Já o estrógeno tem ação diferente. “Ele disponibiliza triptofano, que é o precursor da serotonina. Então ele aumenta serotonina e funcionaria como um antidepressivo natural do corpo”, explica.

Além de apontar para uma maior incidência de depressão em mulheres que tomavam pílulas compostas apenas por progesterona, o estudo concluiu que o uso de métodos como DIU e anel vaginal também estão relacionados ao aumento dos casos. Alguns desses dispositivos só contêm progesterona em sua composição.

Hormônios sexuais e o cérebro: mulheres são mais propensas à depressão

Mulheres têm duas vezes mais chances de apresentarem depressão do que homens. No entanto, essa proporção só é verdadeira considerando as que já passaram pela menarca, a primeira menstruação. Antes disso, a taxa de depressão entre meninos e meninas é igual.

“Suspeita-se que haja algum fator hormonal que faça a depressão ser duas vezes mais frequente em mulheres do que em homens. Alguma coisa acontece na adolescência que modifica o corpo e faz com que meninas tenham maior risco”, afirma a especialista.

Além disso, certas fases da vida propiciam o aparecimento dos sintomas, como gravidez, puerpério (período após o parto que pode durar até 18 meses) e menopausa. A TPM, famosa por causar irritabilidade, ansiedade e outros sintomas incômodos, também causados por questões hormonais.

Na opinião de Mary, os achados da pesquisa dinamarquesa são importantes pois podem corroborar a ideia de que hormônios sexuais estão mesmo associados com variações de humor e depressão.

Como identificar a depressão e o que fazer com o uso anticoncepcional

Mary explica que mulheres que ficaram depressivas após o uso do anticoncepcional provavelmente já tinham predisposição causada por fatores genéticos ou biológicos. Essas pessoas teriam a mesma chance de desenvolver os sintomas em outras fases da vida por experiências negativas ou situações de estresse.

“Cada vez mais entendemos que fatores biológicos da pessoa têm importância em como ela lida com situações de estresse ou com suas escolhas”, explica a psiquiatra. No entanto, é sempre uma combinação de fatores.

Tem a genética do indivíduo, os genes com os quais nasceu, e as experiências vividas ao longo do tempo, que também modulam esses genes e permitem que alguns se expressem e outros não.

Experiências emocionais, portanto, podem desencadear depressão, assim como fatores como ritmo de sono, temperatura, luz, alimentação, ritmo de vida e atividades físicas.

Mary diz que  para identificar se a mulher está depressiva é preciso observar sinais como irritabilidade, desânimo, tristeza, choro e falta de interesse, motivação, curiosidade e de vontade de levantar da cama.

A psiquiatra afirma que a pesquisa recomenda interromper o uso do anticoncepcional quando o médico suspeita que é a causa da doença. Caso não seja possível, deve-se tratar com antidepressivos. O ideal, no entanto, é consultar especialistas que possam avaliar a pessoa e montar quadro mais abrangente sobre sua condição.

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