Empoderamento e menos mortes são benefícios do anticoncepcional
benefícios do anticoncepcional
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Empoderamento feminino e menos mortes são benefícios do anticoncepcional

Camila Luz em 8 de novembro de 2016

Recentemente, Melinda Gates colocou o feminismo como tema principal de sua pauta. Uma de suas missões é melhorar o acesso a contraceptivos por mulheres de baixa renda em países subdesenvolvidos. Para a bilionária e filantropa, reduzir taxas de gravidezes indesejadas e, consequentemente, empoderar mulheres, está entre os benefícios do anticoncepcional.

A ginecologista Mariane Nunes de Nadai, especialista em anticoncepção e reprodução humana, concorda com Melinda e encara a questão da gravidez não planejada — principalmente na adolescência — como problema grave no Brasil.

“Se a menina engravida muito cedo, ela tem uma tendência forte de largar os estudos e sua formação em prol daquela família. Dificilmente vai levar a família como um todo para frente. Muitas vezes, acaba criando a criança sozinha, sem muitas condições, em um momento não adequado”, explica.

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Para Mariane, colocar contraceptivos à disposição de meninas dessa faixa etária deveria ser prioridade dos planos de governo. Isso beneficiaria a própria economia do país, pois adolescentes que continuam seus estudos serão mão de obra qualificada no futuro. Além disso, com menos gravidez não planejadas, os gastos do sistema público de saúde seriam reduzidos.

Os métodos de longa duração, como DIU Mirena e Implanon (bastão subdérmico hormonal implantado no braço), são os mais indicados nesse caso. O primeiro dura cinco anos e o segundo três. Outro ponto positivo é que a eficácia não depende da mulher lembrar de tomar o hormônio. “DIU e Implanon são métodos caros e não disponíveis no SUS, e sua chance de falha é muito menor”, explica.

Mariane acredita que adotando tais métodos contraceptivos as chances de gravidez são menores, logo, os gastos gerados com pacientes grávidas — consultas, internação, parto e cuidados com a mãe — serão reduzidos.

Benefícios do anticoncepcional e empoderamento feminino

Não é de hoje que o anticoncepcional, ou outros métodos hormonais, trazem liberdade e empoderamento para a mulher. Mariane conta que pesquisas para desenvolver a pílula começaram na década de 1920, mas o primeiro anticoncepcional combinado (estrógeno + progesterona) só chegou ao mercado nos anos 60.

Por conta de moralismos, a bula não dizia que a pílula bloqueava gestação, e sim que aliviava sintomas da menstruação. As mulheres sabiam que era para evitar gravidez, mas essa bandeira ainda não podia ser levantada.

Ainda que a pílula não tenha sido divulgada como forma de prevenir gravidez, foi usada para esse fim e significou a entrada do sexo feminino no mercado de trabalho. O método, inclusive, chegou no momento em que o feminismo ganhava força. “Foi a libertação da mulher, sua liberdade de escolher sobre o próprio corpo e de se consolidar no mercado de trabalho, deixando de ser só uma reprodutora”, afirma. Sobre esse período da história, inclusive, a Netflix possui um documentário bastante interessante: “She’s Beautiful When She’s Angry“.

Outros benefícios do anticoncepcional

Mariane aponta para outros benefícios do anticoncepcional. Segundo a ginecologista, o estrogênio, presente em anticoncepcionais combinados, aumenta em oito vezes o risco de trombose.  No entanto, mulheres grávidas têm oitenta vezes mais chances. “Só por engravidar você tem oitenta vezes mais chances. O que é pior? É essa balança que a pessoa precisa fazer”, explica.

cartelas de anticoncepcional feminino

Foto: Istock/Getty Images

Antes de decidir tomar a pílula, utilizar outro método hormonal ou não-hormonal, é preciso consultar um médico, realizar exames e apurar todas as informações para avaliar se os benefícios do anticoncepcional superam os riscos. A Organização Mundial da Saúde desenvolveu critérios para determinar quando é possível usar hormônios. “Quem tem pressão alta nunca poderá usar método que tenha estrogênio. Quem já teve trombose, enfarto e AVC também não”, diz Mariane.

Nesse caso, é possível usar métodos hormonais que tenham só progesterona, como DIU Mirena, Implanon e algumas pílulas. No entanto, eles não trazem a previsibilidade sobre o ciclo que métodos combinados trazem. Além disso, reduzem o fluxo menstrual, tendendo para o padrão da amenorreia (ausência de fluxo).

Mariane ainda aponta para benefícios do anticoncepcional em relação a expectativa de vida da mulher. “Além de tudo, a gente sabe que a instituição do anticoncepcional aumentou em muito a qualidade de vida e diminuiu as taxas de morte entre mulheres. Apesar do anticoncepcional ter surgido com altas doses de estrogênio, ele reduziu a mortalidade, pois a chance de desenvolver a trombose na gestação é muito maior”, completa.

A polêmica sobre o anticoncepcional masculino

Hoje, há anticoncepcionais que apresentam doses mais baixas de hormônio e menos riscos à saúde, quando comparados aos desenvolvidos na década de 1960. Para Mariane, o mesmo irá acontecer com o anticoncepcional masculino.

Recentemente, a Organização Mundial da Saúde interrompeu pesquisas sobre o anticoncepcional masculino, pois traz efeitos colaterais como depressão, acne e variações bruscas na libido – similares aos causados em mulheres que usam métodos hormonais.

Mariane explica que é difícil comparar o anticoncepcional masculino com o feminino, pois os dois utilizam hormônios diferentes e funcionam de formas diferentes. Mas os efeitos são sim semelhantes aos causados pelas pílulas que levam ou não estrógeno. Em sua opinião, a interrupção do estudo se dá por motivos culturais.

O que ainda não se consegue hoje é um método sem muitos efeitos colaterais para homens. O anticoncepcional masculino realmente tem efeitos, até semelhantes ao das mulheres, mas homens não toleram. É cultural.

Mariane também acredita que o estudo foi interrompido pela provável falta de adesão quando o método fosse lançado. “Mas ainda acho que o estudo será retomado de outras formas e vai voltar para a bancada para aplicação em humanos”, acredita. “Será um grande avanço. A responsabilidade deveria ser do casal”, finaliza.

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