Brasileiros desenvolvem biovidro capaz de regenerar ferimentos
Glass Factory
Foto: iStock/GettyImages
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Brasileiros desenvolvem biovidro capaz de regenerar ferimentos

Kaluan Bernardo em 30 de outubro de 2016

Pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) desenvolveram um vidro especial que pode ser utilizado para regenerar ferimentos. Conhecido como biovidro, ele tem composição semelhante a um vidro comum, mas com alguns elementos e concentrações diferentes. Diferente do vidro de janela, que é feito principalmente de sílica, o biovidro pode ser feito de diferentes formas – das maleáveis às rígidas.

Ele pode ser usado em implantes dentários, ortopédicos ou como fibra, para regenerar ferimentos na pele. Nesse último caso, o material é flexível e maleável. Basta colocá-lo na pele, com uma bandagem, e observar a cicatrização mais rápida.

A tecnologia não é completamente nova. O biovidro foi criado no final da década de 1960 na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos. O material é usado em ossos, mas tem muitas limitações – como ser muito frágil e ter tendência a cristalização (impedindo a produção de peças tridimensionais, fibras e outras estruturas).

Já o que está sendo testado na UFSCar tem uma nova fórmula que evita a cristalização do material – o que permite que seja usado de diferentes maneiras.

O biovidro na pele

“Em contato com a ferida ou pele exposta, ele [o biovidro] começa a dissolver, se reintegrando ao corpo e acelera a regeneração”, explica Marina Trevelin Souza, uma das pesquisadoras responsáveis pela descoberta, à rádio EBC. Conforme o material dissolve, libera íons no local. As células entendem o estímulo químico e passam a se proliferar e fechar a ferida.

O material, segundo a pesquisadora, não provoca inflamações. “Por ele ter uma composição muito parecida com o que temos, o corpo não cria nenhuma reação inflamatória exacerbada” comenta.

Além disso, o material é bactericida, evitando possíveis infecções no local e permitindo acelerar ainda mais a formação de cicatrizes e vasos sanguíneos. Segundo a pesquisadora, a inovação foi pensada para feridas complexas, como queimaduras de terceiro grau.

Foram feitos testes tanto in vitro (aplicado em tecidos biológicos no laboratório), quanto in vivo (com animais). No segundo caso, perceberam que houve menos formação de queloides, o que significa que o biovidro é capaz de gerar cicatrizes esteticamente menos agressivas.

Outras aplicações do biovidro

Nos ossos, o efeito é semelhante: o biovidro entra em contato com o osso e estimulam as células. “Esse estímulo é provocado pela liberação de certos tipos de íons que, quando absorvidos pelas células ósseas, ativam genes relacionados ao processo de proliferação celular”, comenta Marina à Revista Fapesp.

O biovidro também pode ser usado em forma de pó, ajudando na regeneração tanto de feridas na pele, quanto nervos, dentes ou fraturas ósseas.

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Os cientistas também pensam em uma aplicação que chamam de biofuncionalização. Nela, o biovidro é usado como recobrimento de implantes. “Recobrimos próteses ortopédicas e odontológicas (metálicas ou cerâmicas) com uma camada de vidro bioativo em sua superfície”, explica Marina à revista Fapesp. “Isso também acelera o processo de osteointegração e previne infecções. Além disso, essa camada não compromete as propriedades do material do implante, porque ela é totalmente reabsorvida pelo organismo após alguns dias”, conclui.

O futuro do biovidro no Brasil

A tecnologia foi licenciada em duas patentes para a Vetra, uma empresa formada por ex-alunos do Departamento de Engenharia de Materiais da UFSCar. Além de Marina, outros sócios são Clever Ricardo Chinaglia e Murilo Camuri Crovace, todos pesquisadores.

Os testes foram feitos em uma rede com mais de 64 pesquisadores de diferentes universidades, como USP e Unicamp. Ainda faltam os testes clínicos, que são feitos em humanos. Após essa fase, é necessário conseguir aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. Esse processo, por ser complexo, demora um pouco. A pesquisadora estima que serão ao menos três anos para podermos ver o biovidro no mercado.

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