Use camisinha: a evolução do método e a nova epidemia de sífilis
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Foto: Istock/Getty Images
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Use camisinha: evolução do método e epidemia de sífilis

Camila Luz em 3 de novembro de 2016

Apesar do desenvolvimento de novos métodos contraceptivos, a camisinha é o único que evita a contaminação por doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Ainda que soe repetitivo afirmar a importância de se proteger, muita gente não o faz e acaba sendo parte da epidemia de sífilis, reconhecida pelo Ministério da Saúde em outubro deste ano.

Quem não usa camisinha provavelmente acha o método pouco prazeroso. Mas hoje há opções no mercado que são mais confortáveis. Este ano, a empresa United Rubber Product Limited entrou para o Guinness, o livro dos recordes, ao criar a camisinha mais fina do mundo. Ela tem espessura média de apenas 0,036 milímetros – mais fina do que um fio de cabelo.

Outras marcas, como a Blowtex, disponibilizam para brasileiros camisinhas finíssimas e que prometem trazer sensação próxima a do sexo desprotegido. A ginecologista Mariane Nunes de Nadai, especialista em anticoncepção e reprodução humana,  também destaca as que são feitas para quem é alérgico a látex.

“As camisinhas que não são de látex são feitas de poliuretano ou poliisopropileno. Elas têm apelo diferente, são ultrafinas e mais sensíveis, além de não gerarem alergia”, explica.

A evolução da camisinha

Segundo Mariane, o surgimento da primeira camisinha é controverso. “Há relatos até dos egípcios, que datam de cerca de dois mil anos antes de Cristo. Eles já utilizavam algo que supostamente é parecido com o método de barreira que temos hoje”, conta.

A teoria mais aceita é que a camisinha foi criada no século 17 pelo médico inglês Dr. Condom. Seu sobrenome deu origem ao nome do preservativo em inglês, “condom”. Ele teria criado um método feito de tripa de intestino de carneiro. “Era igual a fazer linguiça, você pegava a tripa, lavava e aquilo servia como barreira mecânica”, diz a médica.

A partir de 1880, começaram a surgir as camisinhas de látex. No entanto, eram muito mais grossas do que as de hoje — parecidas com o diafragma — e causavam incômodo na hora do sexo. A versão mais próxima da atual surgiu por volta de 1900 e já continha o reservatório para espermatozoides na ponta.

Outras funcionalidades permitem que preservativos de hoje sejam mais confortáveis, como a própria textura e o lubrificante. Mariane acrescenta que há diversas opções para quem sente coceira ou não se adapta, portanto vale a pena testar diferentes marcas antes de se convencer de que a camisinha não funciona.

Além disso, muitas pessoas que pensam ser alérgicas a látex na verdade têm algum tipo de intolerância ao corante ou ao lubrificante usado. “Se a pessoa nunca teve alergia ao látex usando outros produtos, como luvas feitas desse material, o problema não é o látex. Se sentir coceira ou irritação usando a camisinha, vale a pena tentar outra marca ou usar outro lubrificante”, aconselha.

Camisinha combinada com outro método

Prepare-se para o dado chocante: a camisinha tem 15% de chance de falhar no uso típico. No uso efetivo, quando o casal utiliza o método do começo ao fim e toma todos os cuidados, verificando se não está danificada, a chance de falhar é reduzida.

No entanto, quem utiliza o preservativo geralmente o faz da forma típica: só o coloca no final, perto da ejaculação, o que traz riscos de transmissão de doenças e também de engravidar. Para Mariane, há outros métodos contraceptivos mais eficazes para evitar gravidez indesejada:“15% de chance de falha é  muito grande comparado com a chance de falha em implantes, que é de 0,05%, ou com a do Diu Mirena, que é de 0,1%”, explica.

O preservativo só se popularizou na década de 1930, com as epidemias de DSTs. No entanto, em 1960, com o advento do anticoncepcional, caiu em desuso. “A possibilidade de não depender do homem em uma sociedade machista levou muitas mulheres a tomarem a pílula e a camisinha ficou de lado”, conta Mariane. Já nos anos 80, a importância do preservativo como forma de prevenção de DSTs voltou à tona, principalmente por causa do aparecimento da Aids.

Hoje, no entanto, pessoas estão mais preocupadas em evitar gravidez do que em pegar doenças, principalmente as adolescentes. A gravidez nesse estágio da vida é uma realidade muito presente, principalmente para a população carente. “O adolescente sempre acha que o problema não está assim tão perto dele. Ele enxerga que a gravidez está, mas não a DST”, conta.

“Um estudo chamado Choice mostra que a preferência das adolescentes é por métodos de longa duração, como Diu e implante”, explica. “O Diu dura cinco anos e o implante dura três, por isso são muito mais eficazes para prevenir gravidez”, conta.

Há postos de saúde que oferecem os métodos de forma gratuita. No Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, onde Mariane atua, tanto o Diu Mirena quanto o implante estão disponíveis. Sem a barreira do custo, jovens tendem a optar por esses métodos.

Usar camisinha é sempre indispensável, mas poucas adolescentes se previnem contra doenças. “A prevenção com camisinha contra DSTs tem que ser enfatizada. Elas acham que estão imunes e que nunca irá acontecer com elas. Por isso as adolescentes de hoje não usam tanta camisinha”, opina.

A epidemia de sífilis

Em outubro deste ano, o Ministério da Saúde reconheceu que há uma epidemia de sífilis no Brasil. Mariane explica que hoje mais casos estão sendo notificados do que no passado, quando muita gente não era diagnosticada com a doença pois não tinha acesso a planos de saúde ou mesmo à saúde pública. Além disso, há o problema grave de deixar a camisinha de lado.

A sífilis é uma doença que tem várias fases de evolução. “O primeiro sintoma seria uma úlcera, uma lesão vulvar, na região genital. Esse seria o primeiro estágio, a sífilis primária”, explica a especialista. “Depois ela some e fica imperceptível por muito tempo. Só é possível identificá-la com o exame de sorologia”.

Em sua fase secundária, pode causar dor muscular, febre e até dor de garganta, além de lesões cutâneas. Em seu estágio avançado, pode gerar complicações neurológicas, como paralisias e demência.

Além de ser transmitida durante o sexo desprotegido, a sífilis pode ser passada ao feto durante a gravidez. E quem pega sífilis tem o risco de estar contaminado por outras doenças. “As DSTs sempre caminham juntas. Se vem uma, vem outras”, afirma Mariane. “As mais comuns são clamídia, hepatites, doença inflamatória pélvica (DIP) e o próprio HIV”, completa.

Já se convenceu a parar de dar bobeira e a usar camisinha?

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