Ketamina: como a droga pode mudar o tratamento de depressão
ketamina
Foto: Istock/Getty Images
Inovação > Saúde

Ketamina: a droga que pode mudar o tratamento de depressão

Kaluan Bernardo em 14 de setembro de 2016

A depressão afeta mais de 350 milhões de pessoas no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), essa é a doença mais incapacitante do mundo, muitas vezes levando a situações extremas, como o suicídio. Há diversos tratamentos psicológicos e psiquiátricos para a condição. Mas, nos últimos anos, a ketamina (ou cetamina) tem se destacado entre médicos e pesquisadores.

A ketamina é oficialmente liberada para o uso anestésico. No entanto, em certas doses, ela pode causar alucinações e, por isso, também é usada como droga recreativa (e ilícita) em festas.

No entanto, nos últimos anos, médicos e cientistas têm abordado a possibilidade de a droga ser usada como um poderoso antidepressivo. Estudos preliminares mostraram que ela pode ter efeitos poderosos e rápidos (agindo em horas), podendo salvar as vidas de pacientes que cogitam o suicídio. Segundo a revista Time, drogas convencionais para o tratamento depressivo costumam levar meses para surtir efeito e, em 30% dos casos, não dão resultado.

Os benefícios e as controvérsias do uso de ketamina para tratamento de depressão

Agências reguladoras, como a Anvisa no Brasil ou FDA nos Estados Unidos, liberam o uso de ketamina como anestésico, mas não para o tratamento depressivo. Isso porque, apesar de ter estudos que revelam os efeitos do medicamento, eles ainda foram feitos com poucas pessoas e mostraram efeitos colaterais.

pó em mesa preta

Foto: Istock/Getty Images

Ao passo em que a ketamina balanceia certos componentes químicos do cérebro, ela também ativa a dopamina, ligada à região do cérebro que reconhece recompensas. Por isso, pode se tornar facilmente viciante.

Estudo publicado na revista Nature, em 2016, analisou o efeito da ketamina no cérebro de animais. Os pesquisadores perceberam que, de fato, ela causava dependência e pensamentos dissociados ao bloquear um receptor chamado NMDA, que afeta o humor.

No entanto, eles descobriram também que a droga deixava um metabólito que continuava por dias no corpo. Esse metabólito parece também ter os efeitos antidepressivos, mas sem os efeitos colaterais e o potencial de viciar. Se os cientistas conseguirem, em algum momento, recriar esse metabólito, poderão criar um tratamento efetivo, que poderia ser usado até como preventivo.

Leia também:
Cientistas descobrem relação entre genética e depressão
Conheça 3 serviços de terapia online

Os resultados da ketamina não são positivos apenas para pessoas depressivas, mas qualquer um que esteja sob risco de pensamentos suicidas. Um estudo publicado no Journal of Clinical Psychiatry acompanhou 14 pessoas que tinham tendências suicidas e revelou que, apenas três semanas após o tratamento com a droga, elas reduziram a intensidade desses pensamentos.

O suicídio é a única causa de morte no top 10 que continua a crescer, não a diminuir”, comenta Charles Nemeroff, presidente do departamento de psiquiatria e ciências comportamentais da Universidade de Miami e conselheiro da Associação Americana de Psiquiatria, à revista Time.

Muito disso se deve às pessoas que não são tratadas, são mal tratadas ou têm resistência ao tratamento da depressão.

Ele ressalta que, como os estudos ainda foram conduzidos com poucas pessoas e não conhecemos os efeitos de longo prazo, não é possível recomendar a ketamina como tratamento para depressão ou tendências suicidas. Por isso, também critica profissionais que não sejam psiquiatras receitando o uso do medicamento.

O Conselho Federal de Farmácia do Brasil afirma que é necessário ter cuidado na interpretação dos estudos realizados até agora, pois os grupos de controle foram pouco randomizados e não foram realizados testes cegos. Eles ressaltam a importância e a necessidade de fazer mais pesquisas e ensaios clínicos controlados.

No entanto, como se trata apenas de um novo uso para um medicamento que existe há anos, não há muitos incentivos financeiros para laboratórios investirem nesse tipo de pesquisa. “Você pode ganhar alguns anos de exclusividade por um novo uso, mas normalmente você precisa de mais alguns anos para recompor os gastos de pesquisa e desenvolvimento de trazer uma droga para o mercado”, comenta Michael Thase, professor de Psiquiatria na Universidade de Pennsylvania, à Bloomberg.

A solução, segundo a publicação, pode ser investir na criação de medicamentos semelhantes, como a esketamina ou mesmo os metabólitos citados acima.

É necessário ressaltar ainda que desordens como a depressão não costumam ter um único tratamento e deve se levar em conta os aspectos biológicos, mas também os psicológicos e sociais. “Ketamina não é uma droga miraculosa. Pode tirar as pessoas momentaneamente do lugar catastrófico que estão com a depressão, mas você não vai cuidar do resto do paciente. É um assunto complexo tratar doenças psiquiátricas, e você precisa tratar o paciente todo”, comenta Alan Manevitz, psiquiatra no Lenox Hill Hospital, em Nova York, ao site WebMD, um dos principais sobre medicina.

Gostou deste post? Que tal compartilhar:
Últimos
Trend Tags
Array ( [0] => 76 [1] => 222 [2] => 237 [3] => 115 [4] => 17 [5] => 238 [6] => 92 [7] => 125 [8] => 173 [9] => 16 [10] => 276 [11] => 25 [12] => 157 [13] => 66 [14] => 67 [15] => 62 [16] => 153 [17] => 127 [18] => 12 [19] => 19 [20] => 187 [21] => 69 [22] => 154 [23] => 175 )
Vídeos
Copyright © 2016 Free the Essence