Entenda porque o MDMA está sendo testado para estresse pós-traumático
MDMA
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Por que o MDMA está sendo testado para tratar estresse pós-traumático

Camila Luz em 26 de setembro de 2016

O MDMA, também conhecido como ecstasy, está sendo testado para aliviar estresse pós-traumático em pacientes nos Estados Unidos. A pesquisa é conduzida pelo laboratório do cientista Rick Doblin, que dedica sua carreira a estudar o potencial uso medicinal de drogas como maconha e cogumelos psicodélicos.

Doblin é fundador do Maps (Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies), localizado em Santa Cruz, na Califórnia.  Hoje, o principal foco do laboratório é fazer do MDMA um medicamento que possa ser prescrito por médicos. A droga é uma anfetamina “psicodélica” usada em raves e festas para dar energia e causar euforia, a tal “droga do amor”.

Nos Estados Unidos, a droga é considera “Schedule 1” pelo DEA (Drug Enforcement Administration), o que significa que não é legalizada para nenhum fim. Mas para Doblin, essa realidade pode estar prestes a mudar. “Levou 30 anos para chegarmos a este ponto”, disse, em entrevista ao jornal The Guardian. “Eu sempre soube que o MDMA iria funcionar, mas tem sido muito gratificante ver esses resultados tremendos”, completou.

Doblin acredita que a droga será eficiente para tratar o estresse pós-traumático, condição mental debilitante causada por experimentar ou testemunhar um evento que traga risco de vida. Ela pode causar ataques de pânico, pesadelos, insônia, medo em estar sozinho, aversão a contato físico e outras consequências relacionadas ao tipo de trauma sofrido.

Uma das pacientes do Instituto, por exemplo, sentia pavor de bonés de baseball vermelhos que lembrassem o que seu pai usava. Ele a havia ameaçado de morte e abusado dela sexualmente inúmeras vezes durante a infância.

As pesquisas com MDMA

Resultados das pesquisas com MDMA têm sido positivos. Os testes já realizados foram pequenos, mas encorajadores. Na Carolina do Sul, por exemplo, um estudo envolveu 20 vítimas de abuso sexual que sofriam de estresse pós-traumático há mais de 19 anos: 83% dos pacientes que tomaram a droga deixaram de apresentar a condição, contra apenas 25% dos que não a tomaram. E o melhor: os resultados se mantiveram por muitos anos.

Mas o principal ainda está por vir. No ano que vem, a pesquisa deverá passar pela sua última fase, na qual a maioria dos medicamentos costuma falhar. Essa terceira etapa requer testes aplicados ao redor do mundo em grupos maiores, com pelo menos 230 pessoas.

Assim que duas rodadas de testes forem finalizadas com resultados positivos, os dados poderão ser analisados pela FDA (US Food and Drug Administration), no caso dos Estados Unidos, e pela European Medicines Agency, no caso da Europa. Segundo o The Guardian, se tudo der certo, o MDMA poderá ser legalizado para uso terapêutico até 2021.

MDMA é assistência, e não tratamento

Para tratar o estresse pós-traumático, o MDMA só funciona se for acompanhado por muitas sessões de terapia. São necessárias três sessões mensais durante o uso da droga, com duração de oito horas cada, e mais nove sessões semanais de 90 minutos sem ingerir o comprimido.

cápsula de MDMA aberta

Foto: Istock/Getty Images

Doblin explica que a droga é diferente da maconha, que é um tratamento por si só. O MDMA funciona como “assistência para a psicoterapia”. Uma das pacientes do Maps, nomeada pelo The Guardian apenas como Alice, explica como funciona a sessão de uso da droga: “Sentei em um sofá confortável e meu terapeuta me deu uma pílula em uma pequena xícara de cerâmica. Tinha um sentimento ritualístico. Foi aterrorizante na primeira vez”.

Assim que tomou a pílula, recebeu uma máscara para cobrir os olhos e fones de ouvido. Ela se deitou e passou a ouvir música instrumental até fazer efeito. “O MDMA simplesmente tira coisas de você. Ele te ajuda. Você começa a conseguir olhar para suas experiências e como elas te afetaram”, explica. “Teve vezes em que me sentei e comecei a falar. Ou chorar. Fisicamente, senti como se meu corpo estivesse vibrando por um momento”, completa.

Durante a sessão, o terapeuta guia a conversa por caminhos que foram definidos com o paciente antes. Dessa forma, é possível falar sobre sentimentos que não seriam colocados para fora caso a droga não fosse ministrada. A maioria das vítimas de estresse pós-traumático enfrenta dificuldades para conversar sobre o que estão sentindo ou sobre o que sofreram.

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O MDMA enquanto droga recreativa

O MDMA foi sintetizado em 1912 pela companhia farmacêutica alemã Merk, que buscava uma substância que interrompesse sangramentos. Seu potencial passou a ser mais explorado na década de 70, quando o químico da Califórnia Alexander Shulgin a testou como droga psicoativa.

Em 1976, após tomar dose de 120mg, escreveu: “Me sinto absolutamente limpo por dentro e não há nada a não ser pura euforia. Nunca me senti tão bem ou acreditei que isso seria possível… estou espantado pela profundidade da experiência”.

Em 1985, seu uso foi proibido. “MDMA é altamente volátil em uma pessoa, mas pode não ser para outra”, disse o representante da DEA Melvin Patterson ao The Guardian. “Você e eu podemos tomar, e eu não teria reação alguma enquanto seus órgãos iriam começar a parar de funcionar”, completou. Utilizar a droga, diz Melvin, tem riscos. Seu uso pode fazer a temperatura do corpo subir muito, causando overdoses e até morte.

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