Saneamento: Por que Bill Gates está investindo em perfumes de fezes
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Foto: Reprodução/Facebook
Inovação > Saúde

Por um saneamento melhor, Bill Gates investe em “perfumes de fezes”

Kaluan Bernardo em 27 de novembro de 2016

“Recentemente viajei até a Suíça para dar uma bela cheirada em odor de privada”, comentou Bill Gates em seu blog. O criador da Microsoft não enlouqueceu nem desenvolveu gostos peculiares. Ele está apenas tentando criar tecnologias que resolvam grandes problemas sanitários no mundo. Para isso, está investindo em um “perfume de fezes” e em sistemas que inibam o cheiro ruim.

Para isso, ele investiu US$ 6,3 milhões na Firmenich, uma das maiores fabricantes de fragrâncias do mundo. A empresa tem mais de 120 anos e produz para marcas como Ralph Lauren. A ideia é que a companhia consiga identificar exatamente quais são os elementos químicos que fazem o cocô cheirar mal e desenvolva alguma forma de fazer com que o cérebro não os perceba.

Mas por que toda essa preocupação com o cheiro das fezes? Porque é justamente graças ao mau cheiro que pessoas em países com más condições sanitárias evitam banheiros rudimentares, muitas vezes feitos em fossos. Para fugir do odor, elas preferem defecar ao ar livre — o que pode trazer grandes problemas de saúde para elas e para a comunidade onde vivem. “Essa é uma tendência preocupante que ameaça o progresso alcançado com o saneamento global”, diz Gates.

As dimensões do desafio são enormes: ao menos 1 bilhão de pessoas não tem acesso a banheiros; outras 3 milhões têm, mas seus dejetos não são tratados corretamente e vão parar na água e na comida; ao menos 800 mil crianças com menos de cinco anos morrem todos os anos por diarreia, pneumonia e outras infecções derivadas da falta de saneamento básico.

O problema também é de ordem econômica. Na Índia, a falta de saneamento gera gastos de US$ 55 bilhões ao ano. E isso é mais de 6% do PIB do país.

Como Bill Gates e a Firmenich pretendem resolver o saneamento

Ao observar o problema, a Bill & Melinda Gates Foundation desenvolveram um “congresso do cheiro” para discutir como poderiam criar soluções. Foi quando acertaram o trabalho com a Firmenich.

A empresa suíça começou a estudar o odor das fezes. Descobriu que é complexo entendê-lo. São mais de 200 componentes químicos, incluindo os da urina, e que variam muito de acordo com a saúde do indivíduo.

Mas os pesquisadores conseguiram isolar alguns dos culpados pelo cheiro e, a partir deles, recriaram odores usando componentes artificiais. “Em outras palavras, criaram uma fragrâncias que cheirava como massa fecal e urina velha. Perfume de cocô”, brinca Gates.

Com o perfume especial em mãos, os pesquisadores passaram a pesquisar como inibir os odores. Em vez de jogar apenas um perfume por cima, criando cheiros como “cocô com rosas”, eles tentaram bloqueá-los de vez nos 350 receptores olfativos que temos em nossos narizes e que são responsáveis pela repulsa.

O método, explica Gates, é semelhante ao dos fones de ouvido com cancelamento de ruído. Para bloquear o barulho, eles emitem uma onda de som que funciona como “escudo” dos ruídos externos. Os pesquisadores fizeram o mesmo com os odores. Gates cheirou o mesmo perfume duas vezes: uma sem o inibidor e outra com. Na segunda, “em vez de esgoto fedorento, suor e queijo velho, senti um agradável cheiro de flores”, diz.

A questão agora é como implantar a tecnologia e ver se a sociedade de fato a aceita. É por isso que eles lançarão alguns projetos pilotos em comunidades como Índia e África para entender se as pessoas se sentirão mais encorajadas a usar os banheiros de fosso. Além disso, também deverão determinar a melhor forma de distribuir a tecnologia: se é em spray, em óleo ou qualquer outra coisa. “O objetivo final é tornar o produto acessível e fácil de se usar”, comenta Gates. Ele continua:

“Eu continuo maravilhado pelas inovações no campo do saneamento. Até recentemente, saneamento era um assunto tabu. Não atraía muitos recursos ou interesses de pesquisadores. Agora, há dezenas de pesquisadores, pessoas de tecnologia e tomadores de decisão dos setores públicos e privados trabalhando nisso. Juntos, estamos trabalhando para identificar e desenvolver soluções que as pessoas valorizem e que melhorarão a saúde e a dignidade de favelas urbanas e de outras comunidades densamente povoadas, onde a necessidade por saneamento é maior”.

Outras iniciativas de Bill Gates pelo saneamento

Quando Bill Gates fala que ele está interessado em criar soluções para o saneamento ao redor do mundo, ele está falando sério. Em seu site ele faz diversos comentários e cita diversas iniciativas com as quais está envolvido para melhorar as condições de vida das pessoas partindo dos banheiros. Já lançou até um desafio chamado “Reinvente o toilet“.

No entanto, uma outra inovação na qual ele investiu chamou bastante a atenção no último ano: a OmniProcessor, uma máquina capaz de transformar fezes em água potável, energia elétrica ou cinzas. Gates até gravou um vídeo bebendo a água que outrora foi cocô. Assista logo abaixo:

A tecnologia havia sido desenvolvida por uma pequena empresa familiar chamada Janicki Bioenergy. Em dois anos, com o investimento de Bill Gates, eles conseguiram transformar 14 toneladas de fezes em água todos os dias.

Em fevereiro desse ano, a empresa levou sua inovação para Dakar, em Senegal, e construíram uma unidade. Em maio já estava funcionando, mas com dificuldades que não haviam sido notadas até então. Apesar de a tecnologia funcionar como deveria, Bill Gates diz que “o mundo real traz uma série de variáveis”, entre elas encontrar as pessoas certas para operarem a máquina e se associar com governos locais e nacionais para engajar pessoas.

A empresa já está desenvolvendo uma nova versão da máquina capaz de transformar não só as fezes, mas outros tipos de lixo. Além disso, espera que ela seja mais fácil de se manter. Com isso, a Janicki deverá vender a primeira unidade por US$ 1,5 milhões em Senegal e outros países que se interessarem. O objetivo final, diz Gates, não é transformar o cocô em água, mas eliminar fezes e reduzir problemas de saneamento em locais pobres.

Hoje, cidades como Dakar transportam as fezes por caminhões em tubos a unidades de tratamento. Inovações como a OmniProcessor pretendem tornar esse processo mais rentável e interessante a empresas — incentivando-as a expandir o tratamento sanitário.

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