Brasil futurista: carros autônomos, realidade virtual e inteligência artificial
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Carros autônomos, AI e VR: o que o Brasil tem feito

Pedro Katchborian em 17 de março de 2017

Em breve, a sua empresa poderá contratar a Fhinck e a Nama, dois sistemas de inteligência artificial, para aumentar a produtividade e melhorar a comunicação entre cliente e empresa. Para ir ao trabalho, o meio de locomoção escolhido será um carro autônomo que foi desenvolvido com auxílio do projeto Carina. E hoje você já pode ter em casa o óculos de realidade virtual Beenoculus, ideal para projetos de educação. Esse cenário possível e bem próximo envolve iniciativas e empresas totalmente brasileiras.

Carros autônomos, inteligência artificial e realidade virtual são três inovações que devem ocupar cada vez mais os noticiários, no Brasil e no mundo. Enquanto a Tesla desponta como grande empresa dos veículos que andam sozinhos, Oculus Rift, HTC e outras companhias disputam o mercado da realidade virtual. Já na inteligência artificial, há centenas de empresas como a Deep Mind, do Google, que utilizam algoritmos e big data para resolver os mais variados problemas.

Apesar de países como Estados Unidos e outros da Europa estarem à frente nesses assuntos, o rico ecossistema brasileiro de startups tem, sim, apostado em algumas dessas áreas. Conheça algumas empresas que trabalham nesses campos e entenda as principais dificuldades em empreender em temas tão novos no Brasil.

Inteligência artificial

Mais subjetivo desses campos, a inteligência artificial pode ser utilizada em diferentes áreas e maneiras. No Brasil, já há startups ativas no mercado que dependem de complexos algoritmos e big data para funcionar. A Fhinck é uma delas. O objetivo da startup é aumentar a produtividade de empresas utilizando big data e algoritmos.

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Paulo Castello, CEO da Fhinck, detalha o funcionamento da companhia, que surgiu em 2014. “Pegue uma empresa com vários escritórios, por exemplo. Ao invés de ter uma pessoa que cuida da produtividade daquele escritório específico, você centraliza tudo em um só lugar”, diz. Paulo explica que atualmente as maneiras de medir isso são mais custosas. “Pessoas cronometram na mão o hábito dos funcionários e entendem de uma maneira geral onde estão os gaps de produtividade”, diz. O problema é quando uma empresa tem 500 ou 1.000 pessoas: “nenhuma empresa consegue fazer isso de maneira efetiva”, afirma.

A Fhinck tem como foco desenvolver ferramentas que auxiliem empresas na gestão de operações de Backoffice, isto é, de departamentos administrativos que não lidam diretamente com o cliente. O software da Fhinck é capaz de, por exemplo, analisar o comportamento de um funcionário no computador — sabendo quanto tempo ele gastou em um site, qual pasta ele abriu, se ele mexeu em uma planilha no Excel. Tudo isso para medir a produtividade do funcionário. Esses dados gerados são chamados de “data points” e se tornam parte do big data, que depois são analisados por algoritmos para entender os gaps de produtividade.

A Fhinck é uma das várias startups brasileiras que têm trabalhado com inteligência artificial. A Nama, por exemplo, foca em chatbots. “Trabalhamos com agentes virtuais, que tem habilidade de entender o que o usuário fala e pode responder da maneira adequada”, diz Rodrigo Scotti, CEO da NAMA. A empresa nasceu em 2014, mas o trabalho de estabelecer diálogos entre máquinas e pessoas vem desde 2011.

Rodrigo diz que a principal dificuldade da empresa não envolve o desenvolvimento da inteligência artificial — e sim o que está ao redor. Para o diretor, não temos um ecossistema preparado para esse tipo de empreendimento.

Empreender no Brasil com esse modelo de negócio, construir uma aplicação no Brasil, fazer isso acontecer…Foi muito trabalhoso.

Paulo reforça dizendo que o mercado ainda tenta entender o que é a inteligência artificial. “Já há muito tempo se fala sobre inteligência artificial, mas pouco se via na prática”, afirma. Logo, o papel das startups durante o processo de vendas também é educar o mercado, explicando como funciona. Outro problema, segundo Paulo, é que as empresas acham que “em um mês já vai existir uma rede neural funcionando”. “Eles não entendem que às vezes precisamos ter um ano de dados”, afirma.

Rodrigo Scotti

Rodrigo Scotti, CEO Nama Foto: Divulgação

Rodrigo cita que o Brasil ainda encontra muita resistência em relação ao funcionamento desse tipo de tecnologia. “Tivemos que gerar muitos cases e mostrar a validade de cada um deles”, afirma. “Nosso ecossistema de empreendedorismo está cada vez mais profissional, mas ainda estamos muito aquém dos Estados Unidos, Londres e Israel”, destaca.

Como o mercado é, muitas vezes, reflexo de quem vive nele, também é importante compreender como o consumidor final vê a inteligência artificial. “As mensagens têm sido mais negativas do que positivas”, diz Paulo, sobre a percepção das pessoas sobre a AI. “As pessoas começam a olhar como roubo de emprego, mas ao mesmo tempo ajuda muito ele no dia a dia sem que ele saiba”, completa.

Apesar da crise, tanto a Fhicnk como a Nama devem crescer no próximo ano. “Queremos crescer três vezes o que crescemos no ano passado”, diz Paulo, lembrando que a meta do ano passado foi a mesma — e alcançada. “Está todo mundo querendo automação para crescer”, completa.

A Nama também pretende “fazer barulho”, como Rodrigo diz. “Contratamos cinco pessoas essa semana. E hoje ainda é terça-feira”, brinca, lembrando que a empresa está crescendo em um ritmo muito rápido. Com mercados diferentes, as duas empresas têm um objetivo em comum: expandir o negócio e se tornarem globais.

Realidade virtual

O mercado de realidade virtual é mais fácil de mensurar do que o da inteligência artificial. Segundo um estudo da Digi-Capital, o mercado de VR deve bater US$ 120 bilhões em vendas até 2020. Só o ano de 2016 viu o lançamento de headsets como o Rift, HTC Vive e PlayStation VR, além da consolidação do Gear VR, da Samsung, e do óculos de baixo custo, o Google Cardboard. No Brasil, uma parcela muito pequena da população tem acesso a algum desses headsets em razão do preço exorbitante. A tendência é que 2017 ofereça opções mais em conta, além de novos conceitos como a realidade mesclada.

beenoculus

Foto: Divulgação

Uma dessas opções vem da Beenoculus, já consolidada empresa brasileira. A companhia tem o seu próprio headset de realidade virtual, que utiliza o smartphone para proporcionar a experiência. É possível comprar o produto por R$159,00.

Rawlinson Peter Terrabuio, co-fundador e diretor de marketing da Beenoculus, explica que o projeto da empresa começou em setembro de 2012. Depois de uma rodada de investimentos em 2014, em janeiro de 2015, a empresa foi apresentada para o mercado na feira CES.

“A gente já vinha em uma linha de pesquisa em 2009 e 2010 e estávamos procurando criar um wearable de qualidade”, afirma. Depois de ver opções que estavam surgindo fora do Brasil, como o Rift e o Glass, vimos um gap no mercado: a falta de um headset acessível. Foi decidido, então, que seria criado um produto com baixo custo. “Foram 9 protótipos até chegar no que é hoje”, diz Rawlinson.

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Sobre a CES 2015, Rawlinson conta que a estratégia de lançamento foi muito bem-sucedida e que a imprensa americana rasgou elogios para o projeto, elegendo o Beenoculus como uma das 10 melhores inovações da feira. No entanto, o Brasil recebeu com mais ceticismo a tecnologia. “Fizemos uma matéria com um portal e o repórter tirou uma foto dos bastidores com a legenda: “óculos de realidade virtual brasileiro vai chegar ao mercado por R$ 100”, diz. Rawlinson conta que os comentários foram negativos: “diziam que o repórter tinha esquecido de um zero”, afirma.

O co-fundador da empresa destaca como o produto foi recebido no mercado pelos brasileiros, à primeira vista:

Foi um ceticismo muito grande. Mas nós conseguimos sim desenvolver produtos inovadores a preços competitivos. Surpresa e ceticismo, foi assim que nos receberam.

Rawlinson usa o ditado de que “santo de casa não faz milagre” para falar do preconceito com as inovações brasileiras. “O que produzimos localmente é tratado com essa incredulidade. É o que acontece, mas precisamos mudar”, diz. Apesar disso, ele vê com otimismo o futuro próximo — tanto da Beenoculus quanto do mercado da realidade virtual no Brasil em geral. “Temos muito o que crescer em termos de conteúdo e criatividade“, afirma.

O foco do trabalho da Beenoculus é levar o headset para escolas, em um cenário em que é possível mostrar o potencial da tecnologia na educação. Ele afirma que estudantes e outras pessoas terem contato com o acessório é essencial para a disseminação da tecnologia. “A realidade virtual é diferente das outras mídias por que foca muito na experimentação, na experiência da pessoa ao utilizar”, diz.

Carros autônomos

Das três inovações consideradas, os carros autônomos são os que estão mais longe de virar realidade por aqui. Com Tesla, Uber e Google sendo os nomes mais lembrados no ramo, o mercado deve continuar em constante crescimento até 2030. Quem afirma é a consultoria McKinsey, que diz que a expectativa é de um aumento devagar, mas constante nas vendas.

Os estudos, iniciativas e empresas com carros autônomos são recentes, mas há quem trabalhe com isso no Brasil desde 2010. É o caso de Patrick Yuri Shinzato, doutor em computação e pesquisador do Laboratório de Robótica Móvel do Instituto de Computação da USP e um dos responsáveis pelo projeto Carina, realizado em São Carlos.

Lançada em 2010, a iniciativa começou com a automação de um carro de golf. Foram feitos testes com um carro elétrico dentro do Campus. Em 2011, a universidade adquiriu um Fiat Palio, apelidado de Carina 2. Por fora, a estética do carro é igual a de um carro convencional. Por dentro, no entanto, há controles baseados em visão computacional, inteligência artificial e navegação que permitem que o carro possa se dirigir.

Carina 2 Foto: Divulgação

Em 2013, foi feita uma demonstração pública, que chamou atenção da mídia local e nacional. Na oportunidade, o carro precisava se manter dentro da pista, fazer curvas e respeitar o semáforo. “Durante esse dia, o carro estava todo funcional. Ele mantinha uma distância segura das pessoas e tudo mais”, diz Patrick.

O sucesso do Carina rendeu um outro projeto, feito com a Scania, montadora de caminhões. A universidade fez as modificações necessárias em um caminhão adquirido em 2013 e fez uma demonstração com o veículo autônomo em 2015.

Patrick explica que o projeto todo foi desafiador, já que somente lá fora o tema era amplamente debatido. “A gente via grandes laboratórios de pesquisas trabalhando em protótipos”, afirma, lembrando que o Google também já investia em projetos de carros autônomos. Como o estudo era restrito, não tinha muito material para trabalhar. “Tivemos que aprender muito”, destaca.

Diferente do mercado da realidade virtual e inteligência artificial, os carros autônomos ainda buscam uma padronização. Até por isso, é difícil prever o que vai acontecer com as empresas que investem no ramo. “Cada empresa tem a sua solução. Até hoje ainda existe a dúvida de qual será a melhor tecnologia para o funcionamento dos veículos”, destaca.

A dificuldade de inovar no Brasil é ainda maior. “Não podemos contar com um link de satélite 24 horas por dia. Regiões como a nossa ainda tem grandes desafios. Além disso, qualquer empresa que queira entrar nessa área precisa ter um investimento inicial muito alto”, completa.

Patrick vê outras complicações no mercado brasileiro para quem pensa em investir nos carros autônomos: a regulamentação. “Aqui no Brasil existem apenas suposições, em que alguns professores e pesquisadores dão alguns palpites”, afirma. Ele acredita que o Brasil deve seguir normas que França, Alemanha e Estados Unidos decidirem, mas, para ele, nosso país teria que ser muito mais criterioso. “No Brasil temos muitas ruas sem sinalização e às vezes nem o motorista sabe que fez algo errado. E o carro autônomo terá que saber isso”, diz.

Sobre os carros autônomos em geral, Patrick afirma que a tecnologia para circular em determinadas condições já existe. Ele reforça que o que falta é uma solução padrão para os carros e acredita que a popularização desses veículos vai depender muito da economia. “As empresas criaram deadlines para elas mesmas, que variam entre 2020, 2022 ou 2025, mas isso vai depender das decisões que elas tomarem neste ano”, completa.

Atualmente, não há nenhum novo projeto em andamento na USP de São Carlos, mas o Carina 2 é uma plataforma que é constantemente utilizada pelos estudantes. “Estamos em constante atualização”, diz.

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