Como engenheiros e designers fabricam a sorte nos videogames
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Foto: Istock/Getty Images
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Como engenheiros criam a sorte nos games para que você continue jogando

Kaluan Bernardo em 30 de janeiro de 2017

A sorte está presente em muitos jogos. Por mais que eles tentem ser justos e equilibrados, em algum momento um elemento de sorte surgirá. E mais do que mero acaso, a sorte pode ser o gatilho para manter o jogador engajado, fazê-lo sentir raiva ou orgulho. Isso vale para os mais simples dos jogos, como os de dados, até aos videogames mais modernos.

Em civilizações antigas, os jogos eram vistos como uma forma de testar a intervenção divina. No Antigo Egito, a sorte era um elemento crucial em muitos jogos. Dados e jogos de tabuleiro foram encontrados em túmulos. Thoth, Deus da Sabedoria e do Tempo, era creditado como criador dos dados.

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Em 1958, o sociólogo francês Roger Caillois dividiu jogos em quatro categorias: Agon, Ilinx, Mimicry e Alea. Resumindo bastante, a primeira fala sobre os jogos onde a competição está no centro; a segunda se refere aos jogos de vertigem; a terceira aos de imitação; e a quarta sobre os jogos onde a sorte é central.

Todos os jogos podem ter elementos das quatro categorias, embora um seja mais protuberante que outro. Nos jogos de Alea, dizia Caillois, não queremos vencer um adversário, mas o destino. “Contrariamente ao Agon, a Alea nega o trabalho, a paciência, a habilidade e a qualificação; elimina o valor profissional, a regularidade, o treino (…) É uma desgraça total ou então uma graça absoluta (…) Surge como uma insolente e soberana zombaria do mérito”, escrevia em seu livro “Os Homens e os Jogos”.

No entanto, em tempos digitais, onde a sorte pode ser programada por algoritmos para perseguir objetivos que vão além do lúdico, como engajar jogadores para investirem dinheiro, a sorte assume um novo papel dentro dos games. “Os humanos pegaram o reino dos deuses e a sorte se tornou uma ferramenta de design capaz de mudar as experiências e expectativas dos jogadores”, comenta Simon Parkin, autor de ensaios e livros sobre videogames, em artigo na revista Nautilus.

Como a sorte age nos games atuais

Sid Meier, criador de “Civilization”, famosa franquia de games de estratégia, percebeu que os jogadores se sentiam injustiçados quando iam três vezes para uma batalha na qual tinham apenas 33% de chances de vitória e perdiam as três vezes seguidas. Para resolver, ele mudou o sistema de forma que garantisse a vitória. A sorte, a rigor, se torna artificial.

Mesmo em jogos nos quais tudo parece depender da sorte, ela não é “natural”. É o caso de muitos caça-níqueis, nos quais o sistema é programado para fazer o jogador continuar tentando. “O resultado de qualquer máquina caça-níquel é baseado em um misterioso gerador de números aleatórios no computador, não na sorte da conjunção de três rodas de madeira”, descreve Parkin na Nautilus.

Como perder nessas máquinas é desanimador, o sistema simula uma falsa “quase-sorte” para você fingir que perdeu por pouco. E vez ou outra terá uma pequena vitória garantida, só para você acreditar que poderá ganhar mais e investir mais dinheiro. “Em uma caça-níqueis, as quase vitórias fazem com que você continue porque faz você sentir que está melhorando no jogo”, diz Luke Clark, psicólogo e diretor do Centro de Pesquisa em Apostas na University of British Colombia, à Parkin.

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A ilusão de controle, nesse caso, é essencial. “A estrutura chave do cérebro é o striatum, um conjunto de núcleos no centro do cérebro, que normalmente regulam o movimento e a recompensa”, diz Clark. Essa área é particularmente importante para nos motivar. “É a mesma região que está implicada na formação de hábitos, o que obviamente é relevante para o vício”, conclui.

Há um truque aí: o jogador precisa ter a sensação de que ele está tendo sorte. Por isso, há uma balança equilibrada para não exagerar. “Assim que os jogadores percebem qualquer tipo de pseudoaleatoriedade, arrisca-se prejudicar o orgulho de ter sorte”, disse Paul Sottosanti, designer na Riot Games, responsável por “League of Legends”, o game mais popular do mundo. Por isso, muitas vezes os programadores determinam que o jogador terá sorte apenas depois de um determinado tempo em que ele teve bastante azar. O objetivo é apenas fazer tudo parecer justo.

Mesmo quando um designer deixa o jogo a critério de uma aleatoriedade real, há jogadores que desconfiam — tamanho é o costume com a falsa sorte. Por isso, desenvolvedores estão sempre em busca do equilíbrio ideal. A única coisa que segue constante é nosso interesse na sensação de sorte, seja ela falsa ou real. “A fonte da boa sorte — seja ela dos deuses ou de um sistema de distribuição com probabilidade aleatória — é questão de cultura. Mas a mensagem de encontrar com a sorte em um jogo é universalmente confortante: a de que encontramos a coisa pela qual procurávamos”, conclui Parkin.

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