Games e autismo: uma história de interação e libertação
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Games e autismo: uma história de interação e libertação

Pedro Katchborian em 11 de abril de 2017

Eles vivem e se fecham em seus próprios mundos”: a definição é comum para falar de crianças e adultos que têm Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). O distúrbio, que compromete a interação social e a comunicação verbal, ganhou um aliado que, para alguns, é a chave e já os libertou desse mundo recluso: a tecnologia e os jogos.

“Através dos jogos, crianças do espectro autista podem ter um subsídio diferencial para a interação com os demais”, diz Ana Lúcia Hennemann, especialista em alfabetização e neuropsicopedagogia. Ana exemplifica: “imagine a cena de uma criança autista jogando num ambiente onde há outras crianças. Provavelmente elas acompanharão o jogo, poderão dar dicas de como melhorar o seu desempenho, parabenizar quando a criança avança de fase… no caso de adolescentes ou adultos com TEA, os recursos tecnológicos são formas eficazes de ampliar a interação social”, completa.

Melhor ainda do que imaginar, são os exemplos vivos. Keith Stuart, editor de tecnologia do The Guardian conta a história do próprio filho no livro “O Menino Feito de Blocos”. A história de Keith é usada como um dos maiores exemplos de como os games podem dar voz para os autistas. E como a criação de mundos online com personagens e funções atua nesse processo.

Ele diz: “nosso filho, Zac, de 6 anos,  sempre teve um problema com desenvolvimento de linguagem; sempre teve um problema com ambientes muito cheios. O barulho o aterrorizava e ele era socialmente estranho e recluso. Às vezes eu precisava carregá-lo até a escola enquanto ele lutava. Eu estava cansado, bravo e chateado ao mesmo tempo. Eu não sabia o que fazer por ele. Eu não sabia como fazê-lo feliz”, diz, em relato emocionado no próprio The Guardian.

Keith explica que o filho já conhecia alguns jogos, mas que a ligação de Zac com o game Minecraft foi instantânea. “Quando eu vi ele jogando, foi como ligar um botão. Ele simplesmente entendeu. Ele entendeu que ele tinha que buscar materiais e cortar árvores para fazer uma casa. Ele sabia que quando a noite caía ele precisava ficar em casa para evitar zumbis. Minecraft deu uma estrutura criativa que o libertou“, afirma.

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Minecraft Foto: Reprodução

O mais importante, no entanto, não foi a interação de Zac com o game. E sim a interação dele com o seu irmão e com os pais. “Zac nunca conta para gente o que ele faz na escola. A sua memória de curto-prazo não é ótima e muito ele não guarda. Ou talvez ele não queira que a gente se preocupe. Nós sabemos que ele não fica com outras crianças no recreio, ele senta sozinho. Mas ele fala conosco sobre Minecraft. Ele fala e fala. Nós estávamos ficando entediados, para ser bem honesto, mas tudo mudou quando minha mulher leu um artigo falando que quanto mais você ouvir sua criança quando pequena, mais ela irá falar quando for mais velha. É meio que um investimento de cuidado. Então nós sempre ouvimos, mesmo que não entendamos o que ele fez e porque aquilo importa”, completa. Zac continua e define o que o jogo fez pelo seu filho e por ele: “Minecraft lhe dava vocabulário e confiança para usá-lo”, afirma.

Ana comenta o benefício que os jogos online e a própria interação social das redes sociais pode trazer. “Para as crianças que estão em processo de alfabetização, pode ser uma ferramenta que substitui o lápis, o caderno, pois vamos pensar que muitas crianças não conseguem fazer a escrita dentro de um espaço delimitado que é a linha do caderno”, diz. Ela também lembra que alguns consoles como o Xbox podem ajudar na coordenação motora dessas crianças.

Há também a vantagem em relação ao acompanhamento do desempenho acadêmico de crianças autistas: “há crianças do espectro autista que tem facilidade na comunicação e dominam determinados assuntos, mas há também aquelas que não são tão comunicativas, que talvez não respondam de forma esperada as propostas da escola, mas que no entanto, ao observar elas através de situações do jogo, será possível ter um feedback de quais habilidades e competências já tem desenvolvidas”, afirma a psicóloga.

Outros games que podem ajudar no tratamento do TEA

Tiago Eugênio, consultor em tecnologias educacionais, está desenvolvendo um jogo indicado para crianças com Transtorno do Espectro Autista, profissionais de psicologia e pais. Chamado de Emoji Game, o título é um jogo de letramento emocional focado no reconhecimento das emoções primárias (raiva, medo, tristeza, nojo e alegria).

“As pessoas com TEA têm dificuldade em estabelecer e manter relacionamentos. Eles têm dificuldades para entender algumas formas de comportamentos não-verbais típicos como expressões faciais, gestos físicos e contato visual. Eles são muitas vezes incapazes de compreender e expressar as suas necessidades por meio das expressões faciais”, afirma Tiago, que também é coordenador do curso de pós-graduação em games e tecnologias da inteligência aplicadas à educação.

Tiago detalha o game: “nesta primeira versão, 12 fases estão liberadas. No primeiro bloco de fases, o usuário tem a oportunidade de conhecer as expressões faciais típicas. Num segundo bloco (fases mais avançadas) cada emoção ganha uma semântica. Por exemplo, o nojo cospe, a raiva tem um movimento mais brusco, a tristeza se expande (mas pode ser “comprimida”) quando o jogador aciona uma espécie de catavento que espalha ‘corações’ pelo cenário do jogo”, detalha.

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A ideia do game é aumentar gradativamente o nível de dificuldade, o que requer mais atenção por parte do jogador para discriminar corretamente cada emoção. “Nessa primeira versão, o usuário deve colidir apenas com as carinhas de alegria e se esquivar das demais expressões emocionais. A cada correta colisão, o avatar controlado pelo jogador fica mais “feliz” – é como se ele estivesse se contagiando com as emoções coletadas durante a fase. O jogo foi aplicado em duas escolas municipais de SP e foi muito bem aceito”, afirma.

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Ainda segundo Tiago, o jogo reproduziu algo inesperado e bastante significativo para o desenvolvimento sócio-emocional de uma criança, especialmente uma com TEA: a empatia. Em breve, o Emoji Game entrará em uma segunda fase de desenvolvimento. A versão final do projeto prevê uma plataforma de uso do jogo e um curso de formação para professores, pais e terapeutas que desejam utilizar o game tanto na área de educação — formal e informal — quanto clínica.

Apesar de tantos benefícios, Tiago lembra que os jogos devem ser um mecanismo, um “agente facilitador” e não a solução. “Não é adequado ter uma visão romântica sobre as soluções de problemas obtidas por meio da tecnologia. Dito de outro modo, a tecnologia ajuda, mas não resolve substancialmente o problema”, completa. “Ana concorda: tudo que é exagerado não é salutar. O importante é ter horários de uso destes recursos tecnológicos, mas acima de tudo investir na relação física com as demais pessoas”, afirma.

Jogos que podem ajudar crianças e adultos com TEA

Minecraft

A história de Keith tornou Minecraft o game mais lembrado quando o assunto é jogos para crianças com TEA. O formato de mundo aberto e com muito a ser explorado torna o game um título atraente para quem tem dificuldade de interação. Com mais de 3 a 4 milhões de usuários ativos e 25 mil pessoas comprando o jogo todos os dias, Minecraft é um dos maiores sucessos entre as crianças.

Portal 2

O game traz uma trama em que um protagonista precisa escapar de uma instalação subterrânea controlada por um maligno computador de inteligência artificial. O jogo traz uma série de quebra-cabeças que o usuário deve decifrar utilizando uma arma capaz de criar portais. “Com apenas uma ferramenta para usar, sem regras e poucas instruções, a jogabilidade de Portal 2 encoraja o pensamento flexível e uma abordagem experimental para a resolução de problemas. Uma vez que as crianças com autismo às vezes convivem em ambientes menos estruturados e fechados, esse tipo de jogabilidade aberta pode ajudá-los a aprender como ser criativo e flexível”, explica Tiago.

Draw Something

O joguinho de desenhar que fez sucesso há alguns anos também pode ser uma ótima maneira de incentivar a linguagem visual. No game, os jogadores precisam fazer desenhos para outro usuário adivinhar, de acordo com três opções disponíveis. “O jogador precisa pensar em como irá se expressar visualmente como também interpretar o desenho criado pelo outro jogador”, lembra Tiago.

Pokémon Go

O famoso game que bombou em 2016 fez autistas saírem de suas casas e perderem o medo das ruas e de estranhos. Um caso explicado por Tiago é o de Ralph Koppelman, de 6 anos. Autista, o menino começou a socializar com outras crianças e compartilhar impressões por causa do jogo. Em determinada ocasião, o filho fez contato visual e agradeceu pessoas que davam dicas de quais eram os melhores lugares para caçar pokémons. “Ele estava participando de conversas pragmáticas com desconhecidos, olhando e sorrindo para estranhos, verbalizando e compartilhando algo em comum”, relata Tiago.

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