Ludismo e neoludismo: por que alguns odeiam a tecnologia?
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Ludismo e neoludismo: por que alguns odeiam a tecnologia?

Kaluan Bernardo em 19 de fevereiro de 2017

No dia a dia ouvimos e fazemos várias críticas à tecnologia. Em geral, podemos dizer que a civilização a aceita em sua vida – até porque sua presença cresce cada vez mais. Mas há grupos específicos de pessoas que se opõe radicalmente ao progresso tecnológico: são os neoludistas, que atualizaram um movimento do século 19, o ludismo.

Do dicionário de Oxford, um ludista é “um membro de qualquer grupo de trabalhadores ingleses que destruíam máquinas, principalmente em fábricas de algodão e lã, que eles acreditavam que estavam ameaçando seus trabalhos (1811-16)”. Outra definição, mais geral, que o dicionário dá: “uma pessoa que se opõe à crescente industrialização ou a uma nova tecnologia”.

No contexto da Revolução Industrial, as pessoas destruíam máquinas porque temiam ficar desempregadas. O tempo passou e o mercado se adaptou. No entanto, dois séculos depois, muitos ainda temem serem substituídos por tecnologias – muito mais sofisticadas, como robôs com inteligência artificial – além de apontarem novos problemas que não eram vistos antes.

Por que o ludismo ainda vive?

O ludismo recebeu seu nome de Ned Ludd,  personagem fictício que se tornou símbolo da destruição de máquinas. A etimologia demonstra o radicalismo dos seguidores do movimento: eles acreditam que a tecnologia precisa ser destruída.

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Essas ideias não ficaram no passado tão remoto. Em 2012, um coletivo que se denominava anarquista e ecológico, o Il Silvestre, na Itália, escreveu uma carta aberta alegando autoria do ataque a Roberto Adinolfi, executivo do ramo nuclear. Em 2011, coletivos que se denominavam anarco-primitivistas atacaram Carlos Alberto Camacho Olguin, chefe de pesquisa em nanotecnologia na Universidade Politécnica do México. Um outro coletivo, chamado ITS, clamou a autoria de uma bomba caseira que explodiu no Instituto Monterey de Tecnologia.

Mas esses casos são relativamente incomuns. Normalmente o termo ludista ou neoludista é utilizado para descrever pessoas avessas à tecnologia, mesmo que não tenham atitudes radicais.

Como é o novo ludismo

Em 1990 a autora Chellis Glendinning escreveu um manifesto neoludista dizendo que não é justo representar os antigos ludistas como meros vândalos que destruíam máquinas. É necessário compreender o contexto em que eles estavam inseridos, assim como também é necessário hoje.

Chellis defende que o neoludista não deve ser contra qualquer tecnologia. Mas que deve questioná-la sempre. Os neoludistas, segundo ela, são ativistas, trabalhadores, críticos sociais ou acadêmicos que questionam o culto indiscriminado e acrítico em relação à tecnologia.

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Isso tudo, no entanto, como ela ressalta, não significa que os neoludistas sejam anti-tecnológicos. Pelo contrário, ela defende que pessoas conscientes devem desenvolver tecnologias para as pessoas, e que não atendam interesses escusos de empresas.

Ela ressalta ainda que é perigoso olhar para a tecnologia de uma perspectiva individual, algo do tipo “eu não conseguiria viver sem meu celular”, uma vez que é necessário questionar o impacto das tecnologias no coletivo e na sociedade.

Já em 1990 a autora alertava para os riscos das tecnologias nucleares e químicas, da engenharia genética, dos controles da televisão e da possibilidade de os computadores impedirem que as pessoas vivessem a vida de forma direta.

Kirkpatrick Sale é um acadêmico que há mais de 20 anos fez uma aposta com Kevin Kelly, fundador da revista Wired, uma das mais importantes sobre tecnologia, dizendo que em 2020 o mundo enfrentaria colapso econômico, com guerras entre ricos e pobres além de desastres ambientais.

Em entrevista à revista Forbes, Sale diz: “não sei se temos um movimento realmente ludista nos dias de hoje”. Segundo ele, nos anos 1990, quando os computadores ainda estavam ganhando espaço na sociedade, fazia mais sentido lutar contra eles. Hoje, que eles já se tornaram universais, não há mais como entrar nessa luta.

O neoludismo e o risco da automação dos empregos

Os novos ludistas podem criticar a tecnologia de diversas formas pelos mais variados motivos. Há uma gama de discussões e questionamentos em relação à tecnologia atual, dos vícios em games à superficialidade das relações em redes sociais digitais, passando pela ética da inteligência artificial e os impactos cognitivos da realidade virtual, que seria impossível abrange-las em um único texto. Mas há algo intenso que une os ludistas antigos aos novos: o temor de que as máquinas possam substituir o trabalho humano.

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Se em 1811 os ludistas destruíam máquinas mecânicas com o medo de ficar sem emprego, eles mal podiam imaginar que quase 300 anos depois robôs seriam capazes de criar obras artísticas, vencer em jogos de xadrez ou mesmo realizar tarefas complexas dentro de fábricas.

Os novos ludistas, por sua vez, vivem em um mundo que está apenas no começo da sua automatização. Estamos presenciando a ascensão e evolução em velocidade exponencial da inteligência artificial, mas ainda há muito para acontecer.

Até 2020, 5 milhões de empregos serão substituídos por robôs em 15 nações desenvolvidas, segundo o Fórum Econômico Mundial; em países como Indonésia, Filipina, Tailândia e Vietnã quase 56% da força de trabalho será automatizada, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho; nos EUA, 47% dos empregos que existem hoje serão substituídos por máquinas, segundo pesquisadores da Universidade de Oxford.

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É claro que a automação começa pelos trabalhos mais simples, repetitivos, braçais, conhecidos como de colarinho branco. A consultoria McKinsey acredita que “Acomodações e Serviços de Comida”, Manufatura”, “Transporte e Armazenamento”, “Agricultura”, “Varejo” e “Mineração” são alguns dos setores que serão mais impactados. Ao todo, ela acredita que os robôs “roubarão” US$ 15 trilhões em salários.

O pesquisador Jaron Lanier, autor de “Who Owns the Future” e “You Are Not a Gadget”, conhecido crítico da tecnologia, diz que ela primeiro apaga limites entre trabalho e tempo livre (como acontece no home office ou com empregos liberais, sem horários certos), para depois dominar nosso trabalho e nos transformar em consumidores passivos e dependentes de processos automatizados.

O futuro não parece tão diferente do passado. Os novos ludistas parecem ter tantos motivos quanto os antigos para se preocuparem com a ascensão das máquinas. Os antigos, no entanto, lidavam com uma escala muito menor de tecnologia.

Há várias nuances no meio do caminho. Mas entre apocalípticos e integrados é necessário discutir cada vez mais a tecnologia, que, como avisava o cineasta Godfrey Reggio, nunca é neutra.

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