Noisinho da Silva aposta no design para a inclusão de crianças e jovens
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Foto: Divulgação
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Noisinho da Silva aposta no design para a inclusão de crianças e jovens

Aretha Yarak em 22 de agosto de 2017

Usar o design para desenvolver produtos que ajudem na inclusão social de crianças e jovens, com enfoque na educação. Essa é a proposta do Instituto Noisinho da Silva, criado em 2003 pela designer Erika Foureaux. Os produtos da organização já ganharam inúmeros prêmios nacionais e internacionais e ajudaram mais de mil crianças desde então.

Nascida em Belo Horizonte, Erika foi por nove anos franqueada da francesa Vibel – L’architecte de l’enfant, empresa que cria móveis e projetos de decoração infantis de luxo. “Eu dispendia muita energia nos projetos da loja, até que chegou um momento em que decidi que era hora de colocar essa energia toda em projetos que tivessem mais impacto, que fossem mais democráticos”, relembra.

A motivação para a mudança veio também do ambiente familiar. Erika é mãe de três mulheres: Julia, Sophia e Nina (à época, elas tinham 10, 7 e 4 anos de idade). Sophia nasceu com deficiência física e tem mobilidade reduzida. Continuar projetando móveis apenas para as crianças ditas normais passou, então, a incomodar Érika. “Por que a Julia podia ter aquela cadeira e a Sophia, não?”, conta. Essa insatisfação ganhou força com os conceitos de design universal e de sociedade inclusiva. Ambos foram bastante difundidos durante um seminário do qual Erika participou em 2000, no Canadá.

O Instituto Noisinho da Silva começava, então, a se estruturar com o objetivo de criar produtos com design que gerassem um impacto social positivo. A ideia era desenvolver peças bonitas e funcionais, que pudessem ser usadas por crianças com ou sem deficiências e que ajudassem a evitar o estigma causado pelo uso dos aparelhos hospitalares, com foco na educação. Em 2003, o instituto nasceu oficialmente com a ajuda de colegas do curso de design e da mãe, ex-Secretária Municipal de Educação de Belo Horizonte.

Noisinho da Silva e a inclusão escolar

O primeiro projeto do Instituto foi a Carteira Escolar Inclusiva (CEI). Ela é composta por uma cadeira e uma mesa, que ajudam crianças com ou sem deficiência, já que se adaptam às necessidades de cada uma. A criação dessa peças foi, em partes, motivada pela experiência escolar da filha Sophia. “No primeiro dia de aula, ela abriu a sala e disse: ‘mãe, cada minha carteira?’”, conta Erika. A escola não estava preparada para receber de forma adequada pessoas com algum tipo de deficiência. “E a Sophia tinha consciência, já tão nova, de como o produto poderia interferir na mobilidade dela”, conta.

CEI

Foto: Istock/Getty Images

 

Para viabilizar o desenvolvimento do protótipo da CEI, Erika arregaçou as mangas e saiu em busca de patrocínio. Contou ainda com a experiência da mãe para desenvolver um projeto que atendesse às exigências da legislação brasileira. Conseguiu seu primeiro incentivo em uma parceria com a Petrobras, que disponibilizou a verba inicial necessária para realizar a pesquisa e fazer o primeiro protótipo da carteira.

Com o lado financeiro garantido, ela foi em busca da última ajuda que faltava: alguém que tivesse o que ela chama de “experiência de chão de fábrica”. Quem embarcou no projeto foi Guto Índio da Costa, premiado designer brasileiro, com bastante experiência em design industrial brasileiro. “Sozinha, eu não teria feito nada. As coisas só acontecem porque ‘noisinho’ estamos juntos”, conta.

CEI

Foto: Divulgação

O desenvolvimento da carteira e do protótipo levou seis meses. Para isso, foram montadas equipes multidisciplinares para investigar no campo as necessidades das crianças e dos jovens. Quase 30 escolas do sistema público de Belo Horizonte foram visitas por grupos de profissionais — arquitetos, designers, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, pedagogos e sociólogos. Eles analisaram três pontos: acessibilidade arquitetônica dos prédios, acessibilidade dos produtos e como o deficiente físico agia em relação a ele mesmo no ambiente escolar e as pessoas do entorno, em relação a ele. Foram coletados dados de mais de 3.000 pessoas, crianças de 6 a 12 anos.

A carteira possui regulagens de altura, inclinação do tampo e espaço “entre pernas”, o que permite o uso de cadeira de rodas. Também é possível regular a profundidade do encosto e a altura do apoio para a lombar. Ela é equipada ainda com acessórios “extras”, que podem ser removidos se não forem usados: cinto de segurança, uma “sela”, que estabiliza a pélvis, e sapatilhas, que auxiliam na postura.

Atualmente, mais de 200 unidades da carteira universal estão nas salas de aula dos colégios de Belo Horizonte que participaram da pesquisa. A produção para a rede pública é feita com base em parcerias públicas, dentro das políticas de inclusão. A última peça, no entanto, foi entregue há cerca de dois anos. “Nos últimos tempos, estamos enfrentando algumas dificuldades para conseguir esses recursos e dar continuidade às doações para os colégios”, explica Erika.

Oficinas de marcenaria ensina a construir cadeira inclusiva

A extensa pesquisa feita nas escolas para o desenvolvimento da CEI foi fundamental ainda para o segundo projeto do Noisinho. Criada em 2007, a Ciranda é uma cadeirinha de chão indicada para crianças de 1 a 6 anos com deficiência física. Ela retifica a postura e permite que meninos e meninas se sentem sem ajuda, evitando problemas de saúde, e proporcionando autonomia para o aprendizado e o entretenimento.

“A Ciranda foi projetada em cima de uma demanda real, de uma necessidade que já existia e não estava sendo suprida”, comenta a designer.

Para tornar a Ciranda acessível a todas as classes sociais (ela custa R$ 950), o instituto passou a realizar a Oficina da Ciranda. No evento, familiares de crianças com deficiência participam de um curso de marcenaria, no qual aprendem a fabricar sua própria cadeirinha de madeira. Eles ganham a peça no final das aulas. A programação inclui também atividades de entretenimento e culturais para as crianças.

Em 2017, a Oficina está sendo patrocinada pelo Criança Esperança, um projeto da Rede Globo em parceria com a Unesco. Está prevista a realização de até sete eventos, com a participação de cerca de 30 famílias em cada um. “A Ciranda cria perspectivas melhores para a criança, que, algumas vezes, pode até voltar para a escola, mas também para sua família”, comenta Erika.

Entre os prêmios que a cadeirinha recebeu ou foi finalista estão: Prêmio Criança, da Fundação Abrinq, em 2006; da feira de design IF, em Hannover, em 2007; Menção Honrosa no Museu da Casa Brasileira, 2007; e do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, edição 2007.

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Investindo em impacto social

Empreendedora social com enfoque no impacto dos projetos, Erika foi finalista do prêmio Cartier de empreendedorismo feminino e, em 2015, foi premiada pela Câmera de Comércio Ítalo-brasileira de Minas Gerais.

Em breve, o Instituto pretende dar início ao Co:madre, um curso de formação voltado às mulheres e com foco no empreendedorismo feminino. Em paralelo, está em fase de finalização o projeto de um novo equipamento que promete melhorar a autonomia de jovens com deficiência física. “É muito gratificante que o Noisinho tenha se tornado uma referência, e apresente resultados de alto impacto social”, comenta Erika.

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