Pokemon Go e as realidades aumentadas de cada um
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Pokemon Go e as realidades aumentadas de cada um

Kaluan Bernardo em 5 de agosto de 2016

No precioso vácuo entre a última série do momento (alô Stranger Things) e o início dos jogos no Rio de Janeiro, o Brasil foi surpreendido pelo lançamento mais esperado de todos os tempos da última semana: Pokemon Go. Caso você ainda esteja perdido e não tenha entendido muito bem sobre o que se trata, volte duas casas e dê uma lida no nosso texto com o beabá do game.

Quem nasceu antes da década de 1990 talvez simpatize com o fenômeno de Pokemon, mas não entenda exatamente por que o furor é tão grande. Já quem lembra como foi assistir os primeiros episódios de um mundo onde Ash Ketchum, da cidade de Pallet, viajava para se tornar o mestre Pokemon, compreende por que o bordão “Temos que pegar!” faz tanto sentido.

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Jogamos Pokemon no GameBoy Pocket, Color, Advanced, SP, Nintendo DS e Nintendo 3DS. Deliramos com os os monstros tridimensionais de Pokemon Stadium no Nintendo 64. Mas sair pela rua procurando pokemons em nosso mundo real com ajuda da realidade aumentada? Mal conseguíamos sonhar com isso.

Eis que o Google fez uma brincadeira de primeiro de abril em 2014 e percebeu-se que o fenômeno podia ir além. Foi a Niantic, uma empresa da Nintendo e do Google que já criava jogos em realidade aumentada que viu nesse experimento a sua galinha dos ovos. Sem dúvidas, Pokemon Go é  um dos maiores fenômenos tecnológicos dos últimos anos. No vácuo entre o próximo grande evento esportivo e a última série do momento, as redes sociais ganharam um bom tema para discutir.

Pokemon Go e a minha realidade aumentada

Preciso confessar que faço parte do grupo de pessoas que não esperou o lançamento e tentou driblar o sistema e instalar Pokemon Go antes de ele chegar ao Brasil. Funcionou por poucas horas, mas deu para capturar meu primeiro bulbassauro.

Se eu iria me “alienar” e me juntar à massa de “zumbis controlados por Pikachus”, como sugere a ilustração do polonês Pawel Kuczynski que tanto viralizou no Facebook? Mas é claro! Nosso desejo de fugir, pelo menos um pouco, da realidade e interagir com imagens artificiais não depende da tecnologia. Com o game pelo menos eu poderia alimentar um antigo desejo do meu imaginário: capturar pokemons.

ilustração de menino olhando para celular com pokemon no pescoço

Ilustração de Pawel Kuczynski. Foto: Reprodução

O holandês Johan Huizinga já nos dizia que somos todos homo ludens, argumentando que jogar é uma das atividades mais primordiais do ser humano e precede até a cultura. Freud diria que somos todos um pouco neuróticos que procuram dar escapadas da realidade. Então por que culpar o game? Melhor me divertir e experimentar o maior case da realidade aumentada — um fenômeno que deverá estreitar ainda mais os mundos virtuais e físicos. O importante é ver o uso que as pessoas farão desse sistema.

Meu grande teste de Pokemon Go foi no caminho ao trabalho. Enquanto meus amigos se tornavam donos de ginásios, eu nada encontrava em casa. Logo percebi que o caminho de 20 quilômetros que faço para atravessar São Paulo até o trabalho seria um tanto quanto produtivo.

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Foi assim que descobri o primeiro truque para ter sucesso no jogo: ande de ônibus. É o melhor hack honesto que você pode fazer para encontrar pokemons. No metrô já é mais complicado, uma vez que a rede de dados é inconstante. Apesar disso, fica a dica: a estação Sé está repleta de monstrengos.

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Foi lá, em um lugar onde já vi vários assaltos acontecerem, que pensei pela primeira vez se eu deveria continuar andando com o smartphone em mãos. A segurança tem sido uma preocupação e uma piada constantes entre os brasileiros acostumados à violência. Pokemon Go poderá facilitar muito a vida dos ladrões.

Provavelmente é verdade e já há relatos de pessoas que foram roubadas enquanto jogavam. Completar a pokedex ou correr risco é uma escolha sua. Mas não vale culpar o game. Violência é uma questão de segurança pública, não de tecnologia e entretenimento. No meu caso, o desejo de me tornar mestre pokemon foi maior e continuei com o smartphone empunhado.

Após o metrô e o ônibus, chegou o momento de fazer uma caminhada razoável pelo Sumaré para sentir a experiência de capturar pokemons a pé. Embora não seja tão produtivo quanto no ônibus, é muito mais divertido — já que o game foi pensado para ser jogado assim. Me senti um verdadeiro treinador andando com sua pokedex.

Agora, percebo também o problema de um jogo em realidade aumentada. Realmente não dá para observar o mundo ao seu redor olhando apenas para  a tela do smartphone. É como assistir TV e acompanhar o Twitter: você precisará alternar a atenção o tempo todo e não vai aproveitar nenhum dos dois direito. Estava vivendo duas vidas em conflito: a do meu avatar na tela e a do Kaluan que caminhava. Agora as mensagens de “não jogue enquanto atravessa a rua, dirige ou anda em lugares perigosos” que o game exibia faziam certo sentido.

Além de ganhar um torcicolo e tropeçar algumas vezes, capturei três monstrinhos. Mas o bacana mesmo é que me senti como um treinador do desenho ou dos games da Nintendo. Caçar pokemons é mais ou menos como pescar. Você passa um tempo entediado achando que nada vai acontecer quando, de repente, aparece um peixe e há um pico de emoções contidas, mas prestes a estourar.

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Tentando maximizar a brincadeira, na hora do almoço fui procurar mais pokestops e pokemons. Eis que percebo um lugar cheio deles: o cemitério. Entrar naquele espaço contemplativo para procurar entretenimento é algo correto? Não sei. Mas, pelo bem do texto, fui lá. Felizmente meu 3G não funcionou e eu voltei. Mas no caminho encontrei várias outras pessoas andando com o smartphone na mão procurando os monstrinhos. Trocamos um olhar de cumplicidade. Só espero que não tenha perdido pontos de karma.

Andando mais comecei a perceber que haviam muitas pessoas procurando pokemons nas ruas. Descobri que as histórias de Pokemon Go nas ruas iam muito além de assaltos e haviam diversos indivíduos fazendo amizade e conversando com desconhecidos. No jogo, passei a prestar atenção em vários grafites e estátuas que estavam no meu caminho todos os dias. Quem diria?

Aquele game que poderia me alienar do mundo estava me fazendo ver o que não via. Minha realidade realmente fora aumentada.

Já há pessoas marcando de caçar pokemons em parques como o Ibirapuera e Villa-Lobos. Há sedentários saindo de casa para dar uma caminhada. Há quem vá perder mais smartphones. Há quem vai se divertir e há quem vá reclamar. Precisamos esperar um pouco mais para saber se os efeitos negativos ou os positivos pesarão mais na balança.

O fato é que finalmente estamos experimentando, pela primeira vez, os efeitos da realidade aumentada em larga escala. Pokemon GO terá novos recursos, a moda passará, muitos deixarão o jogo e alguns continuarão fiéis. Apenas experimentamos a ponta de um iceberg que provavelmente será muito explorado no futuro. A realidade aumentada finalmente é real.

Em tempo: o Jornal da Cultura promoveu um interessante debate entre o psicanalista João Sérgio Telles e o professor de Comunicação Luis Mauro de Sá Martino para discutir o assunto. As reflexões deles são riquíssimas. Vale reservar meia hora de seu dia.

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