O que é o Vale da Estranheza e por que ele é tão debatido na robótica
vale da estranheza
Foto: Istock/Getty Images
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O que é o Vale da Estranheza e por que ele é tão debatido na robótica

Pedro Katchborian em 14 de setembro de 2016

Há tempos o campo da robótica lida com um dilema de nome bem peculiar: o Vale da Estranheza. O que parece um termo vindo de algum mapa de jogo ou filme é, na verdade, um desafio para a robótica e para a animação.

A cada nova geração de consoles de videogames, nos deparamos com gráficos incríveis, principalmente nos jogos que representam humanos. O mesmo se pode dizer com robôs. Mas isso tudo tem um limite: quando um robô consegue representar com fidelidade um humano, mas não de forma perfeita, acontece um verdadeiro estranhamento em relação ao que estamos vendo. Essa sensação é descrita como Uncanny Valley, em inglês, que foi traduzido para Vale da Estranheza em português.

A expressão foi cunhada pelo professor de robótica Masahiro Mori, em 1970. A hipótese original do professor diz que à medida que a aparência de um robô vai ficando mais humana, a resposta emocional do observador  em relação ao robô se torna mais empática, até um ponto em que se transforma em uma forte repulsa.

Qualquer elemento que tente se parecer com humano pode se encaixar no Vale da Estranheza, mas normalmente o debate se dá com robôs, bonecas e personagens de videogame ou de animações. Esse vale é representado pelo gráfico abaixo:

gráfico mostrando dados sobre o vale da estranheza

Foto: Reprodução

Há alguns exemplos que podem mostrar tal estranheza. Um deles é este robô-criança do vídeo abaixo. É quase inegável que, mesmo com movimentos idênticos aos de humanos, a máquina é pra lá de estranha:

Outro exemplo é virtual: a Creepy Girl, que você pode acessar clicando aqui. Trata-se de uma mulher virtual que pode interagir com o seu mouse.

Vale da Estranheza na animação

Em relação a animação, o Vale da Estranheza é apontado como responsável por alguns filmes não terem sucesso. Uma das primeiras discussões acerca do tema em Hollywood foi após o lançamento do curta “Tin Toy”, em 1998, pela Pixar. A tentativa de um bebê mais realista não agradou ao público. Assista abaixo:

Aliás, a Disney tem se afastado de produções mais realistas em animação. Você já ouviu falar no filme da Disney chamado “Mars Needs Moms” (Marte Precisa de Mães, em tradução livre)? Você não está sozinho: o longa foi lançado em 2010, mas não foi bem de bilheteria e um dos motivos apontado foi o Vale da Estranheza: os personagens eram muito reais, mas não perfeitos. Assista ao trailer e tire suas próprias conclusões:

Esse fracasso significou tanto para a Disney que a empresa de efeitos especiais por trás da produção, a ImageMovers Digital, foi fechada em 2011, no ano seguinte ao longa. Era a mesma empresa que produziu filmes como “O Expresso Polar”. Além disso, o Vale da Estranheza é apontado como um dos motivos pelos quais a Pixar busca personagens mais caricatos em seus filmes: a ideia é criar mais empatia e menos repulsa.

Vale da estranheza: será que existe mesmo?

Essa sensação quase poética de estranhamento com elementos que parecem humanos tem sido debatida há anos entre cientistas e até hoje não há um consenso sobre a existência do tal vale. “Não é uma teoria, não é um fato, é uma conjuntura”, diz Cynthia Breazeal, diretora da área de robótica no MIT. “Não há uma evidência científica, é algo intuitivo”, explica ao Popular Mechanics.

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Um dos debates é que o vale da estranheza não seria tão simples assim quanto parece. Karl MacDorman, diretor da Universidade de Indiana, fez estudos e escreveu:

“Acontece que pode existir mais de um vale da estranheza. Não é o nível de semelhança que torna um robô estranho. É mais uma questão de coerência: se você tem uma textura da pele extremamente perfeita, mas ao mesmo tempo olhos que parecem de desenho ou olhos realistas e textura de pele que parece falsa, isso é estranho”, explicou.

Outra teoria diz que há, na verdade, uma Parede da Estranheza, que sugere que sempre será possível identificar que um robô é, de fato, algo não humano. Mesmo que seja o mais realista possível. A ideia é que, da mesma maneira que os robôs vão se tornando mais parecido com os humanos, nós vamos ficando mais sensíveis em relação a isso e sempre poderemos dizer que não há algo certo naquele robô e, portanto, ele não é humano. Como afirma o Stephanie Lay, no The Guardian, não há nenhuma teoria definitiva, mas ainda é um campo que merece estudo. Afinal, os robôs estão cada vez mais entre nós.

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