Como diferentes modelos de drones podem mudar o mundo
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Foto: Istock/Getty Images
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Drones: por que são polêmicos e por que podem mudar o futuro

Kaluan Bernardo em 16 de fevereiro de 2017

Nos prometeram drones nos entregando pizzas na porta de casa e tudo que vemos são drones matando pessoas no Oriente Médio. No meio da caminho, porém, ganhamos uma evolução do aeromodelismo, uma nova forma de fazer imagens aéreas e até mesmo um suporte diferente para pirotecnia em shows. Eis o mundo dos drones. Mas, afinal de contas, o que são drones e para onde eles vão?

Para facilitar a discussão e o entendimento, podemos dividir os drones em duas categorias: veículo aéreo não tripulado (UAV, na sigla em inglês) e veículo de combate aéreo não tripulado (UCAV), na sigla em inglês. Como o nome sugere, o que muda em ambas as situações é justamente o propósito militar.

No Brasil, os drones utilizados para fins recreativos são chamados de VANTs (Veículos Aéreos Não Tripulados), enquanto os outros, como aqueles voltados para a agricultura, são chamados de RPAs (Aeronaves Pilotadas Remotamente, na sigla em inglês). Oficialmente, o Brasil não tem drones militares.

O que são drones militares e como eles tem sido usados

Um dos drones mais conhecidos nos Estados Unidos é o MQ-1 Predator. Ele foi apresentado em 1995 como ferramenta de vigilância. Com o passar do tempo foi transformado em um veículo para lançar mísseis.

Antes dele existiram alguns outros, como Queen Bee, utilizado pela Marinha Real Britânica na década de 1930 e que chegava a 160 km/h (o Predator chega a 210 km/h). Na verdade, para o exército estadunidense, drones incluem também veículos terrestres e aquáticos. Basta não ser tripulado e controlado à distância. Mas normalmente a discussão gira mais em torno dos aéreos.

Desde 11 de setembro de 2001 o número de drones tem se intensificado, principalmente nos Estados Unidos, que já conta com mais de 700. segundo um relatório da International Security. A instituição estima que Israel, China, Nigéria, Irã, Paquistão, Somália, África do Sul, Emirados Árabes, Iraque, Reino Unido e Estados Unidos já estejam equipados com drones.

O uso militar de drones levanta uma série de debates éticos. Seus defensores argumentam que é uma arma de guerra com menos efeitos colaterais, que permite caçar apenas alvos de guerra e poupar os civis.

Mas pesquisas e especialistas discordam dessa retórica. No livro “A Teoria do Drone”, o filósofo francês Grégoire Chamayou, critica veemente a tecnologia. Na obra ele expõe os danos psicológicos causados em civis que convivem com os veículos que os vigiam, podendo assassiná-los a qualquer momento. Além disso, ele fala de como os drones tornam frio o ato de tirar uma vida apenas apertando um botão e assistindo as consequências por uma tela a quilômetros de distância. Ainda segundo Chamayou, diversos números revelam que civis também morrem nos ataques de drones.

O primeiro ataque de drones dos EUA no Oriente Médio aconteceu em 4 de novembro de 2002, no Iêmen, em uma operação contra a Al-Qaeda. Os números só cresceram desde então, principalmente durante a administração de Obama. Em seu primeiro mandato, Obama realizou cinco vezes mais ataques de drones no Paquistão do que Bush fez em oito anos.

A Bureau of Investigative Journalism, uma organização independente de jornalismo investigativo, compila dados de ataques de drones realizados pelos Estados Unidos. Eles dizem que, somando países como Iêmen, Afeganistão, Paquistão e Somália, os ataques de drones estadunidenses mataram entre 5.814 e 8.486 pessoas; sendo que entre 634 e 1.279 eram civis; e entre 204 e 267 eram crianças.

Há um longo debate sobre se as ações, em nome da guerra ao terror, desrespeitam legislações internacionais ou não. As polêmicas, no entanto, não fizeram com que os ataques parassem. Em julho de 2016, já no fim de seu mandato, Obama publicou um relatório reconhecendo que matou civis com drones e que, mesmo dentro da Casa Branca, não conseguiu mensurar os dados com precisão.

Mas e o resto dos drones, como são usados?

Nem só de guerras vive o mundo. Quando falamos de drones, comumente nos referimos aos não militares. E aí há vários e com diferentes possíveis usos.

Os civis normalmente são pequenos quadricóptero que podem ter os mais diferentes usos, principalmente na área de fotografia, de logística e de agricultura, mas também são usados por entusiastas do aeromodelismo.

Como os drones são usados na logística

Em 2013 a Amazon anunciou que utilizaria drones para fazer entregas em até 30 minutos. Ela batizou o serviço Prime Air. Quatro anos depois, muito pouco foi concretizado, mas a empresa segue tentando.

O anúncio foi feito por Jeff Bezos em uma entrevista ao programa 60 minutes, da CBS News. Na época ele já alertava que era um programa ambicioso, que demoraria entre quatro e cinco anos para se concretizar. Ou seja: o serviço estrearia entre 2017 e 2018. No final de 2016 a Amazon afirmou que fez sua primeira entrega com drones em Cambridge, no Reino Unido.

Os drones seriam completamente autônomos, dispensando pilotos humanos. Seguem apenas coordenadas de GPS e podem carregar entregas de até 2,6 kg.

Apesar de os governos dos EUA e do Reino Unido permitirem testes com entregas de drones, eles ainda impõem uma série de limites. Por enquanto só podem voar em subúrbios e áreas rurais e os drones têm que ter sensores para evitar colisões. Também é necessário ter alguém responsável pelos vôos.

A Amazon não está sozinha na ambição. O Google seguiu o mesmo caminho, com seu Project Wing, focado em consumidores rurais, enquanto o Walmart também já pediu autorização à Administração Federal de Aviação dos EUA para trabalhar com a tecnologia.

Há outros usos mais específicos e importantes, como os drones que entregam sangue a hospitais em Ruanda, de forma mais rápida e barata do que a convencional.

Os drones e as imagens

Os drones de uso civil normalmente são equipados com câmeras, que podem ser pré-integradas ao dispositivo ou não. Nesse segundo caso é comum usar GoPro. Com um pequeno quadricóptero e uma câmera é possível fazer imagens com perspectivas inéditas, além de belas fotos.

No Brasil é possível comprar drones com câmeras HD por R$ 500. Os drones chegaram, inclusive, a serem apontados como evolução do “pau de selfie” para registrar fotos de famílias e amigos.

Desde 2013 há uma conta no Instagram, chamada Dronestagram, que, como o nome sugere, é dedicada exclusivamente às imagens feitas com drones. Eles inclusive promovem concursos, no qual um brasileiro venceu.

Alguns entusiastas alertam para as possibilidades no jornalismo. Drones que fazem fotos e vídeos podem cobrir manifestações e conseguir imagens que antes eram captadas apenas por caras operações com helicópteros. Ou ainda levando o olhar do repórter a lugares perigosos, como zonas de guerra.

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No Brasil o jornal Folha de S.Paulo, por exemplo, utilizou drones para transmitir os protestos contra o aumento da tarifa em São Paulo, que acabou alavancando algumas das maiores manifestações populares recentes do Brasil.

Nos Estados Unidos a Administração de Aviação Federal apresentou uma série de regras para uso de drones em jornalismo no final de agosto de 2016. Agora devidamente regulamentada, a expectativa é que a produção jornalística com a tecnologia cresça no país.

O drone como hobby

Por fim há os drones que são usados apenas como forma de entretenimento, principalmente por fãs de aeromodelismo. Eles podem ser divididos entre RTF, (pronto para voar), BNF (precisam de um transmissor) e ARF (falta alguma peça específica para voar). Nem todos são vendidos prontos justamente para que alguns mais aficionados possam personalizá-los e montá-los como quiserem.

O drone na agricultura

Os drones ainda podem ser usados no campo, percorrendo longas distâncias para analisar o solo, espalhar sementes, regar, monitorar plantações e procurar por pragas.

Na chamada agricultura de precisão — campo na qual se faz uso da tecnologia da informação para aprimorar processos no campo — os drones são muito importantes. No Brasil, há algumas empresas que oferecem soluções desse tipo, como a SkyDrones, que faz mapeamento de área, identificação e reconhecimento, geração de informação geoespacial e pulverização. Do outro lado há empresas de agricultura que comercializam drones, como é o caso da Saci.

Não é por menos que a Qualcomm, fabricante de processadores móveis, fez parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Instituto de Socioeconomia Solidária (Ises) para incentivar o uso de drones no campo. O programa pretende desenvolver um sistema de bordo inteligente que informe o agricultor sobre a saúde da lavoura, transmitindo detalhes sobre possíveis focos de pragas, estresse hídrico, déficit de nutrientes, danos ambientais, aumento de produtividade etc.

Outros usos de drones

Os drones ainda podem ter uma série de usos específicos. Um deles é para a segurança. Uma startup nos EUA, por exemplo, desenvolveu um sistema que, se alguém entrar na sua casa, essa pessoa será perseguida por um drone, que a filmará.

A empresa levanta uma antiga polêmica que envolve drones: privacidade. Até que ponto é aceitável ter um equipamento voando e gravando imagens de pessoas sem autorização? É por esse tipo de preocupação que países como a Suécia, por exemplo, proibiram o uso de câmeras em drones, ainda que permita instalá-las em bicicletas e motocicletas.

Eles ainda podem ser usados de forma artística, como aconteceu recentemente no show da Lady Gaga, durante o Superbowl. Drones da Intel pintaram o céu com a bandeira dos EUA.

O que diz a legislação brasileira sobre drones

Aqui, a tecnologia para os drones de uso comum, os VANTs, é regulamentada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A legislação diz que qualquer um pode comprar drones, sem limites de potência ou tamanho – desde que para fins recreativos.

Há apenas uma portaria da Aeronáutica que diz que, tal como outros equipamentos de aeromodelismo, eles não podem ficar próximos a multidões, atingir altura superior a 400 pés (aproximadamente 122 metros) e não pilotar próximo a aeródromos

Para fazer filmagem em locais públicos é necessária uma autorização da Anac. Caso seja usado para pesquisas ou outros fins comerciais ou corporativos, será necessário obter autorização do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea). A Anac ainda prepara novas legislações para os drones usados para esses casos.

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