Auroville: a cidade sem dinheiro, política e religião
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Centrod e Auroville. Foto: Divulgação
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Auroville: a cidade sem dinheiro, política e religião é uma utopia?

Kaluan Bernardo em 4 de dezembro de 2016

Em 1968, três anos antes de John Lennon pedir para imaginarmos um mundo sem países, sem religião e com todas as pessoas vivendo em paz, a francesa Mirra Alfassa planejava Auroville — uma cidade ao sul da Índia que se propõe justamente a não ter dinheiro, religião e nem política.

O projeto saiu do papel e continua a existir e a atrair curiosos do mundo todo. Com incentivo do governo indiano e da Unesco, a região está há mais de 40 anos trabalhando para construir o que seria uma cidade do futuro.

Mirra Alfassa é conhecida como “A Mãe” e muito de sua filosofia ainda inspira os moradores. Outro nome muito presente na região é do guru de yoga Sri Aurobindo, que inspirou até mesmo o título da cidade.

“A Mãe” deixou como princípios para a cidade elementos como sinceridade, humildade, gratidão, perseverança, aspiração, receptividade, progresso, coragem, Deus interior, generosidade, equidade e paz. Esse era o sonho da fundadora, como descrito no site do projeto:

“Deve haver algum lugar na Terra do qual nenhuma nação possa dizer que é sua, onde todos os seres humanos de boa vontade que têm uma aspiração sincera podem viver livres como cidadãos do mundo e obedecer a uma única autoridade, a da suprema Verdade; um lugar de paz, concordância e harmonia onde todos os instintos de luta do homem devem ser usados exclusivamente para conquistar as causas de seu sofrimento e misérias, para superar suas fraquezas e ignorância, para triunfar sobre suas limitações e incapacidades; um lugar onde as necessidades do espírito e a preocupação pelo progresso devem preceder à satisfação de desejos e paixões, a busca por prazer e deleite material.

Como funciona Auroville?

A cidade é relativamente pequena. Oficialmente, se diz que há 2.500 moradores de 49 nações diferentes. Mas informalmente se diz que possa ter até 10 mil e mais 5 mil visitantes. De qualquer forma, ela foi construída para abrigar até 50 mil indivíduos.

Duas jornalistas estiveram lá e descreveram, em 2016, experiências relativamente diferentes sobre a região. Uma delas é Maddy Crowell, do Slate, um site estadunidense. A outra é Vanessa Mathias, do brasileiro Chicken or Pasta. Mas ambas concordam que a realidade não é exatamente a de uma cidade sem dinheiro, política ou religião.

A maioria das refeições no local são vegetarianas. Os alimentos são plantados organicamente e a educação para as crianças é gratuita. As pessoas meditam, praticam yoga, trabalham pela comunidade. A cidade é descrita por ambas as jornalistas como muito silenciosa e pacífica.

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O coração da cidade é o Matrimandir, um globo dourado gigantesco onde as pessoas vão para meditar. Segundo Vanessa, do Chicken or Pasta, o edifício está em construção há 45 anos e hoje falta finalizar apenas os jardins. Entrar lá é um processo burocrático, que pode exigir ao menos dois dias. Mas a visita vale a pena, inclusive pela beleza.

A cidade é gerida pela Auroville Foundation, que cuida do dia a dia. Na tentativa de se eliminar a hierarquia política, as decisões são tomadas por grupos, como o Comitê de trabalho e o Conselho de Auroville — cujos participantes são eleitos a cada dois anos por voluntários.

Tudo que existe na cidade pertence à Auroville Foundation. É a organização que dá o direito a alguém de viver ou não lá. O processo costuma durar dois anos e requer que os participantes possam se provar autossustentáveis e dedicados à causa. Segundo o Slate, as pessoas não podem sair de lá por dois anos, e devem trabalhar gratuitamente para a comunidade. Depois desse processo, um grupo avalia quem está apto ou não a viver lá.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

O aluguel ou compra das casas, segundo o Slate, é controlado pelo Comitê de Moradia e a verba vai para a administração da cidade. No entanto, Maddy relata que em momento algum conseguiu descobrir quem gere o dinheiro. E também não encontrou qualquer sistema de transparência das contas públicas.

A utopia de Auroville se tornou realidade?

Há alguns problemas na cidade que não permitem dizer que a utopia se realizou. O texto de Maddy, no Slate, é um pouco mais cético e crítico. Além de questionar a administração do dinheiro, a jornalista também relativiza sua ausência.

Teoricamente todos os cidadãos utilizam Aurocard, uma espécie de cartão pré-pago para gerenciar as transações entre as pessoas. No entanto, ela diz que quase ninguém aceitava o cartão e quase sempre precisava pagar as coisas em dinheiro.

Vanessa, por sua vez, ressalta que embora exista trocas monetárias, tudo é um tanto barato. Além disso, se você não conseguir pagar por algo há formas de conversar para trocar por outros tipos de serviço. “É possível perceber que as pessoas vivem com muito menos, e que a austeridade é meio que vista com bons olhos”, comenta.

Ambas concordam que, apesar de o dinheiro existir, as pessoas não parecem muito preocupadas com ele. “Em Auroville, o trabalho não deve ser uma forma de sustentar a sua vida, mas sim de prestar um serviço à comunidade e exercer a divindade que existe dentro de si”, relata Vanessa.

No entanto, o dono de uma padaria em Auroville disse à Maddy que é comum a cidade ficar vazia no verão, uma vez que as pessoas saem para ver a família e, principalmente, ganhar dinheiro.

E apesar de não haver uma religião oficial, a “Mãe” é descrita pelas jornalistas como uma entidade quase messiânica e há todo um conjunto de crenças compartilhadas em relação à energias e espiritualidade.

A região também tem fornecimento limitado de água, segundo Maddy. E problemas graves de segurança. Como não há policiais, agentes de segurança pública e nem muros, há moradores de cidades próximas que vão a Auroville para roubar, estuprar e até matar.

Se a utopia está sendo alcançada? Não exatamente. Mas Vanessa diz que essa não é a pergunta certa. É melhor perguntar se ela está mais próxima a uma sociedade ideal. Nesse caso, diria que sim. “Com quase meio século de existência, Auroville não é um sonho que deu certo. É um processo, certamente em uma direção altamente desejável para uma sociedade inclusiva, colaborativa, e realizada”, conclui,

Já Maddy não se propõe a dar a uma resposta, mas fecha seu relato com a conversa que teve com um indiano, dono de um bar em Delhi, que já foi a Auroville. O homem diz a ela que as pessoas lá estão procurando por cura. Ao ser questionado sobre o que se busca curar, ele responde que essa é a grande questão.

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