Casa de Lua, a ONG feminista que encerra seu ciclo em paz
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foto: divulgação, Marianna Portela.
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Casa de Lua, a ONG feminista que encerra seu ciclo em paz

Camila Luz em 16 de maio de 2016

A ONG feminista Casa de Lua funciona em São Paulo desde 2013. O espaço deu origem a inúmeros projetos voltados ao empoderamento feminino e encerra suas atividades este ano. Mas seu propósito foi cumprido: criar condições para que mulheres sejam protagonistas no trabalho, artes e política, descobrindo seus próprios ritmos e ciclos.

retrato da mulher bianca santa

Bianca Santana, foto: reprodução da quandomedescobrinegra.net

Bianca Santana, uma das primeiras participantes da Casa de Lua, conta que o projeto surgiu movido por três desejos comuns às fundadoras. O primeiro era ter um lugar para trabalhar fora de casa, onde pudessem levar seus filhos. O segundo, criar um espaço para discutir questões de gênero e promover atuação política. “Por fim, desejávamos compreender o feminino de forma mais internalizada, terapêutica e espiritualizada”, revela.

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A Casa de Lua, a princípio, funcionava como espaço de coworking e coletivo para mulheres desenvolverem as atividades que desejassem, como cursos, rodas de discussão e palestras.

Posteriormente, o grupo de fundadoras decidiu transformá-la em uma ONG feminista, também por questões financeiras. Associados contribuiriam com R$20 por mês.

Dessa forma, a Casa de Lua cumpriu suas atividades e gerou projetos como o #KDMulheres, Kayá Editora, Círculo de Mulheres Negras e Grupo Panapaná de Atendimento à Saúde.

Um ciclo feminista que se encerra em paz

Em 2016, o grupo de 20 gestoras decidiu encerrar as atividades da Casa de Lua por dificuldades financeiras. A residência que abriga a ONG fica entre os bairros Pompéia e Vila Madalena. A entrada para o financiamento da casa foi presente da mãe da fundadora Marta Delelis. Na época, enfrentava um câncer grave e queria deixar algo significativo para a filha. A solução foi pegar um dinheiro que estava guardado no banco e dar o empurrão inicial.

Com o aluguel pago pelo coletivo, Marta poderia quitar o financiamento feito pelo banco. A princípio, a Casa de Lua se mantinha com contribuições feitas por quem desejava usá-la como coworking. Além disso, atividades monetizadas promovidas dentro do espaço deixavam 20% do valor arrecadado para o coletivo.

Porém, mesmo com a transformação em ONG, a Casa de Lua encontrava dificuldades para se manter. Bianca Santana conta que cada uma das gestoras desejava realizar as atividades que as encantassem. “Mas pagar as contas era sempre um perrengue”, revela. “Além disso, todas nós nos envolvemos em tarefas fora da Casa. Era difícil encontrar tempo para geri-la”, explica.

No final de 2014, Bianca era a diretora geral da ONG. No entanto, já atuava como professora da Faculdade Cásper Líbero. Decidiu, então, deixar sua posição na Casa de Lua. “Não fazia sentido ocupar o cargo, já que não estava mais tão próxima do que rolava”, conta. “Pensamos em outras pessoas para tomar o meu lugar mas, no final das contas, concluímos que o dinheiro não daria para pagar o aluguel. Ninguém estava disponível para cuidar da gestão macro”, diz.

Decidiram devolver a casa para Marta, que poderia encontrar outros meios de quitar o financiamento. A Casa de Lua, ainda assim, possui uma dívida a ser paga. É preciso fechar o CNPJ da empresa e cuidar de outras contas, como reparo do telhado, água e luz.

Para ajudar a ONG a encerrar suas atividades, as gestoras começaram um crowdfunding no Catarse que cumpriu 61% de sua meta. No total, a Casa de Lua pedia R$ 6.748 para quitar parte da dívida. Foram arrecadados R$ 4.161. No entanto, como se tratava de uma campanha flexível, a ONG recebeu o valor completo.

A Lua e suas fases

A Casa de Lua se encerra em paz. Bianca conta que próprio o nome foi escolhido para que as fundadores se apropriassem da afirmação de que “mulheres são de lua”. Ou seja, são cíclicas. “Tudo na vida tem começo e fim. Para nós, foi muito natural entender que o ciclo da ONG estava acabando”, diz. “Foi um movimento orgânico. Chegou o momento em que nossas energias não estavam mais ali”, explica.

Bianca revela que ela e as outras gestoras encaram o fim da Casa como algo positivo. Um ciclo se encerrou, mas seus frutos vão continuar atuando pelo feminismo em outros locais. “A sociedade tem medo de falar de morte, de envelhecer. Quando uma coisa acaba, é a oportunidade de surgir outra. No nosso caso, muitas sementes se espalharam. Cultivamos uma terra fértil para novos projetos e ideias”, opina. “É o fim da Casa de Lua, mas é o começo de outras coisas lindas”, conclui.

As sementes plantadas pela ONG são os projetos aos quais deu origem. Mas não só isso. A vida de cada mulher que participou das diferentes atividades foi transformada de alguma maneira.

Bianca Santana conta que muitas das mulheres que participavam das atividades lamentaram o fechamento e procuraram forma de ajudar. A Casa de Lua também teve impactos positivos na vida da própria fundadora. “Me sinto imensamente transformada em muitos aspectos. Ganhei tranquilidade para lidar com tudo. Deixei de ser ansiosa e de me sentir obrigada a cumprir tudo o que a sociedade exige”, diz.

A professora ainda traz uma reflexão sobre a importância da coletividade. “Sozinhas, não podemos dar conta do mundo inteiro. Mas juntas, cada uma fazendo sua parte, podemos dar conta de muitas coisas. Precisamos entender nosso papel e o quanto podemos doar de nós mesmas. Sem exageros e nos respeitando”, declara.

Bianca diz que, por fim, a principal mudança vem de dentro. Antes de mudar o exterior, é preciso cuidar de quem somos e do que pensamos. “Na Casa de Lua, conseguimos integrar tudo o que somos. Mães, professores, cientistas, politizadas, tarólogas… tudo importa”, conclui.

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