O que é a Economia Afetiva e como repensar o consumo
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Foto: Istock/Getty Images
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O que é a Economia Afetiva e como ela pode nos ajudar a repensar o consumo

Kaluan Bernardo em 22 de dezembro de 2016

O mundo mudou e está mudando. No lugar do individual, o coletivo ganha força. O “faça você mesmo” cedeu espaço para o “faça com os outros” e o “faça para os outros”. Nesse cenário, deixamos de focar apenas no consumo e no acúmulo e passamos a pensar na lógica do ganha-ganha, uma estratégia de resolução de conflitos em que todos os participantes podem se beneficiar de alguma forma. É nisso que o consultor e pesquisador Jackson Araújo acredita quando fala em Economia Afetiva.

“Ela [a Economia Afetiva] foca na importância da cooperação e compartilhamento a fim do sucesso do grupo, em contraste com a dominação, o egoísmo e o ganho pessoal. Nossa Economia Afetiva é isso: a valorização de uma mensagem ética de fraternidade com o ambiente e uma visão holística da vida e da sociedade”, resume.

Jackson trabalha com moda e há muitos anos atua como critico e jornalista. Em 2013, um problema de saúde o fez repensar todo seu consumo pessoal. Perdeu dez quilos e passou a caber em todas suas roupas, mas passou por um novo processo de tratamento alimentar que o acompanharia a vida toda. Aproveitou a oportunidade para repensar seu modo de vida.

“Parei de comprar roupas por três anos e o pouco que comprei depois disso sempre está ligado de alguma forma com minhas preocupações com os métodos de produção”, comenta. Foi nesse momento que começou a se ligar em práticas e comportamentos éticos na moda. “Me pareceu inevitável repensar atitudes e buscar ser um propagador de práticas comportamentais éticas, observando e analisando ações criativas de impacto socioambiental no Brasil e no mundo, que valorizam o desenvolvimento do coletivo”, conclui.

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Passou um ano estudando e investigando sobre esse tipo de relação na indústria têxtil, quando, em 2014, encontrou textos do sociólogo Michel Mafessoli, que falava sobre “Era do Afeto“. No entendimento de Jackson, o filósofo fala sobre o fim do individualismo para o início da “pessoa plural”, no qual o racionalismo dá espaço ao sentimento. E isso faz com que as pessoas possam se ligar emocionalmente também ao que consomem.

Logo viu que isso poderia se conectar com a moda, “fútil por excelência e por sua condição de negação e descartabilidade a cada seis meses”, mas que poderia sim ter uma perspectiva útil e diferente. Foi quando nasceu seu conceito de Economia do Afeto. “Aos poucos fui encontrando ações cada vez mais criativas no sentido de valorização da atemporalidade das coleções, foco na qualidade das peças, transparência nos processos e horizontalidade nas metodologias de criação e remuneração”, comenta.

A Economia Afetiva na prática

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Cesto Prisma de Eglair Quicolli e costurado por Herculânia Reis.
Foram ressignificados 1,8m de resíduos têxteis da Cia. Hering nessa peça. Foto: Divulgação

Jackson resolveu usar seus conceitos em projetos. Um deles foi o Trama Afetiva, criado como metodologia de transformação de produtos de moda em algo que fuja da lógica do descarte têxtil e use o design como ferramenta de ressignificação.

O projeto, que tem direção criativa de Jackson e direção de conteúdo de Luca Predabon,  é pensado para ser aplicado com patrocínio de alguma empresa, marca ou grupo — não necessariamente de moda. Em 2016 aconteceu. A Fundação Hermann Hering se propôs a realizar o Trama Afetiva para reforçar o empreendedorismo e a cultura criativa.

Entre outubro e novembro, um grupo multidisciplinar de 11 participantes dispostos a criar coletivamente construíram uma linha de nove produtos, todos com a ideia de ressignificar o descarte da indústria têxtil. Participaram estudantes de moda, designers de mobiliário, arquitetos, alfaiates, artistas visuais e têxtils entre outros. O grupo ainda contou com a participação de nomes como Alexandre Herchcovitch, Patricia Centurion, Marcelo Rosenbau, além do grupo produtivo Cardume de Mães, formado por mães da comunidade do Campo Limpo, em São Paulo.

Os produtos foram criados durante as oficinas, palestras, imersões criativas e culminou em uma exposição final. Todo o conteúdo e os processos para chegar até os produtos estão disponíveis na página do projeto no Facebook. Agora, Jackson e seus colegas estudam um modelo de negócio para comercializar os produtos criados.

Economia Afetiva

Time criativo na Oficina Trama, dirigida por Jackson Araujo e Luca Predabon com orientação de Alexandre Herchcovitch, Marcelo Rosenbaum e Patricia Centurion. Foto: Arquivo Pessoal

Deverá haver uma segunda fase do Trama Afetiva ainda em 2017, novamente com a ideia de praticar a Economia Afetiva e ajudar as pessoas e empresas a repensarem o consumo e o descarte dentro da moda e a procurar modelos de ganha-ganha.

Mas o Trama Afetiva não está sozinho. Há diversos outros projetos de sustentabilidade, dentro e fora da moda, que também se aplicam a esse conceito. Jackson cita outro: a Fia (Oficina de Artesãs), projeto do qual ele foi embaixador. A Fia é um programa para conectar artesãs do Ceará a consumidores de todo o Brasil.

O projeto, que levantou mais de R$ 40 mil no Catarse, propôs uma coleção de artesanato feitos por mulheres cearenses. Os colaboradores do crowdfunding já garantiam a remuneração e a matéria-prima para elas desenvolverem os produtos. Hoje, eles continuam a venda no site da Catarina Mina, que encabeçou a campanha. E as artesãs continuam sendo remuneradas.

A ideia deu tão certo que não só o crowdfunding foi alcançado a meta em um mês, como o projeto venceu a categoria de moda do Prêmio Brasil Criativo. “Em pouco menos de dois anos de trabalho já alcançou sucesso na sua missão de empoderamento feminino em prol do desenvolvimento dessas comunidades produtivas, propondo o repensar do consumo, colocando o ser humano no centro do processo e tornando toda a cadeia mais próxima e transparente”, comenta Jackson.

Conheça FIA {oficina de artesãs} from Catarina Mina on Vimeo.

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