Será que a economia colaborativa não deu certo? Entenda o debate
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Será que a economia colaborativa não deu certo?

Pedro Katchborian em 22 de maio de 2017

Em março de 2011, a revista TIME colocou a economia colaborativa em uma lista com as dez ideias que iriam mudar o mundo. O modelo chegou como um salvador da pátria, um sistema que prometia descentralizar negócios e tirar o poder das mãos das grandes corporações. Pouco mais de seis anos depois, vemos a economia colaborativa  no nosso dia a dia, com suas transformações chegando inclusive aos noticiários. No entanto, o modelo que vemos por aí se consolidando diverge um pouco daquele que iria mudar o mundo.

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A matéria da revista TIME dizia: “e são os jovens que estão liderando o caminho para uma forma diferente de consumo, um consumo colaborativo: alugar, emprestar e até mesmo compartilhar bens em vez de comprá-los”. O ano de 2016 foi repleto de polêmicas envolvendo serviços recorrentemente apontados como exemplos da economia colaborativa, como o Uber e Airbnb, que sofreram com regulamentações e, no caso do app de corridas, com protestos.

Camila Haddad, pesquisadora sobre o tema e fundadora do Cinese, tem como definição de economia colaborativa uma “economia construída sobre redes de pessoas e comunidades, em oposição a instituições centralizadas”. Para ela, existe uma confusão em relação a tantos termos. “No meu entendimento, só é colaborativo aquilo que é distribuído, construído e gerido por uma comunidade de pessoas“, completa. Ou seja, olhando de maneira crua para a definição de Camila até para o que dizia a TIME, o Uber não é parte desse movimento — afinal, o único compartilhamento que existe no Uber é o Uberpool, quando pessoas dividem um mesmo carro.

Camila defende que a ideia de descentralizar serviços tem a ver com criar cadeias produtivas mais curtas. “Pular os grandes intermediários corporativos que geram pouco valor”, diz. “O problema é que as plataformas que surgiram para conectar pessoas que tem algo com aquelas que precisam desse mesmo algo se tornaram os novos grandes intermediários”, completa. O modelo, então, foi copiado pelo mercado. “Transformou-se em mais um nicho ou uma possibilidade de empreendimento”, diz Camila.

Como salvar a economia colaborativa?

A economia colaborativa, antes de tudo, precisa ser separada de outros termos. Economia criativa, movimento maker, economia compartilhada…Rachel Botsman, em 2013, já discutia a importância de destrinchar termos que envolvem a Nova Economia na Fast Company.

Na definição de Rachel, aplicativos como Uber ou Cabify entrariam no conceito de economia compartilhada e não colaborativa. “É um modelo econômico baseado em assets que não são utilizados (de habilidades a espaços) com fins monetários ou não”, diz. O maior exemplo é o Uber, que permite que estudantes, desempregados ou outras pessoas possam utilizar os seus carros para ganhar um dinheiro extra — mas sabemos que, na verdade, há milhares de motoristas que encaram o trabalho no app como uma profissão.

Para Camila, a confusão entre esses termos pode dar uma impressão errada do que é a economia colaborativa. “O problema é que esses empreendimentos geram pouco valor, mas se apropriam de muito valor. Eles não oferecem nenhum produto ou serviço propriamente, apenas intermediam transações. Eles cortam fluxo, enquanto a função de um agente na economia colaborativa é aumentar e/ou facilitar o fluxo de ativos. Ademais, eles distribuem os riscos (diferentemente dos serviços tradicionais, que são regulamentados) e centralizam os ganhos”, afirma.

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Ou seja: gigantes como Uber e Airbnb não devem durar, na opinião da pesquisadora. No entanto, ela acredita que o futuro é promissor. “Uma vez que a gente percebe que pode pular o intermediário e tem mecanismos para se conectar diretamente, isso não tem volta”, diz. “Já estão surgindo alternativas distribuídas, como o Lazooz no caso do transporte. E com o blockchain mais coisas como essa tem potencial de surgir”, completa.

No Brasil, há plataformas como o Cinese, de própria Camila, que se financia e é mantido pela própria comunidade. O Cinese é uma plataforma de crowdlearning, em que pessoas podem propor e participar de diferentes encontros — de uma aula de finanças até um workshop de culinária. O negócio é proposto com código aberto, sem taxas e gerado pelos usuários.

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  • Luciene Antunes

    Eles não oferecem nenhum produto ou serviço propriamente, apenas INTERMEDEIAM transações.

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