Da Netflix, 3% é thriller distópico que questiona a meritocracia
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Da Netflix, série “3%” é thriller distópico que questiona a meritocracia

Camila Luz em 28 de novembro de 2016

O Brasil já pode prestigiar a primeira série produzida em solo nacional pela Netflix: “3%”. Os oito episódios da primeira temporada foram disponibilizados para mais de 190 países no serviço de streaming no dia 25 de novembro.

“3%” coloca o Brasil em um futuro distópico, após crises e conflitos que levaram a população a instaurar uma nova ordem. Parte dos habitantes vive no Continente, devastado e pobre, enquanto o resto vive no Maralto, evoluído e abundante. Quando completam certa idade, jovens participam de um processo seletivo para conquistar um lugar no Maralto e nunca mais voltar ao Continente.

Nesse processo, que envolve entrevistas, jogos e testes psicológicos, apenas 3% dos candidatos são selecionados. A série poderá estar entre as produções sugeridas para quem gostou de “Jogos Vorazes”, “Divergente”, “Maze Runner” ou “Black Mirror”. No entanto, os personagens falam português, usam roupas coloridas e são bastante diversos — como no Brasil.

“3%”: projeto pioneiro

A ideia da série surgiu muito antes da popularização de histórias que abordam a relação entre distopias e tecnologia. Nasceu no curso de audiovisual da Universidade de São Paulo (USP) há sete anos, como conta o diretor e roteirista Jotagá Crema em entrevista ao Free The Essence. “Estávamos no quarto ano de faculdade quando criamos ‘3%’, nem tínhamos nos formado. Na época, fazíamos parte de um coletivo na Maria Bonita Filmes”, relembra. “O [Pedro] Aguilera teve a ideia e desenvolvemos o projeto juntos em 2009”, afirma.

Os estudantes de audiovisual inscreveram o projeto em um edital que apoiaria séries de ficção. Acabaram ganhando para fazer um piloto, que foi transformado na primeira versão: a websérie disponível no Youtube. O grupo se mobilizou para divulgar a produção, enviando-a para sites brasileiros e estrangeiros. Colocaram legendas em inglês e notícias sobre a produção começaram a pipocar até em sites como o estadunidense Wired.

A websérie criou um burburinho e começou a ganhar fãs em diversos países, que fizeram suas próprias legendas em línguas como alemão, francês e holandês. “Em 2009, quando a gente criou esse projeto, ainda não tinha começado essa moda das distopias”, diz. “Quando Aguilera falou da ideia, nossa referência era pensar em ‘1984’ e ‘Admirável Mundo Novo’. Pensamos em distopias para falar sobre a sociedade usando ficção cientifica, e no caso do ‘3%’, um thriller distópico. Ou seja, pensamos em criar um mundo inteiro ficcional para criticar nossa sociedade”, completa.

A série faz críticas à meritocracia, tão enraizada na cultura brasileira. Segundo o roteirista, a seleção pela qual os personagens passam para chegar ao Maralto remete ao processo enfrentado por jovens para se formar na faculdade e entrar no mercado de trabalho – fase em que estavam quando criaram o projeto.

Netflix e César Charlone entram na história

Ao migrar para a Netflix, a produção ganhou a direção-geral de César Charlone, responsável pela fotografia de filmes como “Cidade de Deus”, “O Jardineiro Fiel” e “Ensaio Sobre a Cegueira”. A nova série ganhou muitas cores, forte presença da tecnologia e ausência de narrador. Ela parte do mesmo universo da websérie, mas é um produto novo.

“Na série mesmo decidimos ir por um caminho diferente, porque mudou o público, o canal mudou e houve a entrada do César Charlone como diretor-geral”, diz. “Ela tem toda uma estética interessante. Juntos, pensamos em como seria a abordagem desse mundo”, conta.

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“3%” se passa daqui a 100 anos, aproximadamente. Mesmo após um apocalipse, as tecnologias evoluíram. Portanto, a equipe pensou em novas formas de abordar essas inovações. A seleção para realizar as provas e escolher os candidatos também é tecnológica. Há projeções, telas por todos os cantos, computadores que fazem análise de dados e câmeras que gravam o que acontece no Continente.

Diferente da websérie, que trazia cores frias e impessoais, a produção da Netflix traz muita cor e personagens com características típicas brasileiras. “A gente quis abordar a criatividade brasileira, tanto no Continente, quanto no Maralto. Quisemos abordar a pobreza e a miséria de formas brasileiras. A capacidade de improvisar com pouco, muitas cores e muita vida, para não ficar algo morto”, explica Jotagá.

Essa escolha também permitiu conectar conceitualmente os dois mundos, pois os jovens que participam do processo não deixam de ter sua origem no Continente. Para alguns, inclusive, isso se torna um problema.

Sociedade meritocrática e tecnológica

Segundo o roteirista, a história pretende abordar qual é o preço, do ponto de vista humano, da existência de uma sociedade tão meritocrática. “Existem pessoas que estão no Maralto e, de certa forma, não se sentem adequadas. Se sentem culpadas por terem abandonado suas vidas no Continente”, diz. “É interessante pensar que o Maralto realmente é um lugar incrível. Mas qual o preço de construir tudo isso?”, questiona.

É possível traçar um paralelo com nossa própria estrutura mundial, dividida em países desenvolvidos e subdesenvolvidos, economias falidas e nações que têm monopólios. “Você tem países que produzem só bens agrícolas, ou bens minerais, e outros que pegam essas matérias e as transformam em algo muito mais valioso”, argumenta. “O próprio país que produz a matéria-prima tem que comprar o produto de volta do outro país, pagando um preço muito maior, o que gera desequilíbrio entre eles”, afirma.

Outra discussão provocada pela série é o impacto futuro da tecnologia em nossas vidas. O Maralto é o detentor dos avanços – e os utiliza para avaliar os habitantes do Continente. No entanto, ela também existe na região pobre, ainda que seja pouco acessível. No primeiro episódio (atenção, spoilers!), por exemplo, o personagem Rafael falsifica seu documento para participar do processo. Esse documento é um chip e ele teve acesso a isso de alguma forma.

O Continente está em uma espécie de caos: não existe governo ou instituições e as trocas financeiras são tratadas de forma até medieval. Mas a tecnologia está lá: não há distribuição de energia, mas se você tiver um gerador, poderá utilizá-la. Já no Maralto, as inovações estão em outro patamar, são bastante sofisticadas e todos os habitantes têm acesso.

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Segundo o roteirista, a tecnologia tem papel importante na série, pois contextualiza o universo e constrói o mundo distópico. No entanto, o que é fundamental são as relações entre os personagens, nas quais a dramaturgia se baseia. “A tecnologia entra mais como um elemento para dar cara, consistência e realismo a esse universo”, afirma.

Jotagá acrescenta que existe até certa confusão para classificar a série, sempre chamada de “ficção científica”. Para ele, está mais para um thriller distópico, ou uma série de drama com elementos de ficção.

“3%” e o audiovisual no Brasil

“3%” poderá dar um pontapé na indústria audiovisual brasileira, que está em um momento importante. “Essa indústria está crescendo muito, cerca de 10% ao ano. Já até passou a indústria automobilística em faturamento”, conta. “É uma indústria criativa que está crescendo muito, mas ainda está meio desorganizada”, afirma Jotagá.

Ele explica que se investe pouco em roteiro no Brasil, e isso é um erro que freia a evolução da indústria. Em “3%”, por exemplo, o investimento na roteirização da série foi muito importante para torná-la um marco na história do nosso audiovisual.

Pedro Aguilera foi o chefe de roteiro de uma sala que incluía, a princípio, Jotagá, Ivan Nakamura e Denis Nielsen. “Foi um processo muito rico de escrita. Desenvolvemos o universo, nos aprofundamos e depois entrou o Cássio [Koshikumo]. Esse grupo de roteiristas, esse investimento no roteiro, é um dos segredos da profundidade que a série tem”, explica.

Investir no roteiro é importante para construir personagens complexos e tridimensionais. A escolha dos atores também foi fundamental para criar essa profundidade. “Queríamos atores profundos, inteligentes, que tivessem tesão pela série e entendessem muito bem o universo. Estamos muito felizes com o elenco”, diz.

“3%” traz os atores João Miguel, Bianca Comparato, Michel Gomes, Rodolfo Valente, Rafael Lozano, Vaneza Oliveira, Viviane Porto e Mel Fronckowiak.

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