Café Chefs Especiais dá emprego a pessoas com Down
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Foto: Reprodução/Facebook
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Café Chefs Especiais emprega pessoas com síndrome de Down

Kaluan Bernardo em 26 de junho de 2017

A rua Augusta, em São Paulo, tem um novo café. Mas não é qualquer café. No número 2559, na altura dos Jardins, funciona o Café Chefs Especiais. Fica na frente da galeria Como Assim. O espaço, aberto, descolado, tem um visual bem rock and roll. Os funcionários, todos com coletes de motoclube, são reconhecidos por serem atenciosos e especiais. É que são portadores de síndrome de Down e trabalham como baristas e atendentes.

Para muitos, é a primeira oportunidade de emprego na vida. Para Rodrigo Marques Botoni, 39, por exemplo, o Café Chefs Especiais é seu segundo trabalho. Barista fixo do café, trabalhava antes em uma papelaria. “Amo trabalhar”, diz. “Eu gosto de trabalhar. É muito interessante fazer, organizar estoque. É bom para minha cabeça e é melhor do que ficar em casa, quero fazer outras coisas”, comenta.

Rodrigo aprendeu a ir de metrô sozinho até o café e, lá, trabalha todos os dias das 10h às 18h. Ele lida com clientes, é acompanhado por pessoas sem deficiência e por colegas nas mesmas condições. “Admiro muito eles e seu trabalho”, diz. Ele está sempre conversando com os clientes e, entre abraços e cumprimentos, pergunta como está. “Quero saber do gosto do café, como eles sentem no lábio”, conta.

O café Chefs Especiais é uma materialização do trabalho de 11 anos do Instituto Chefs Especiais, uma ONG paulistana que promove cursos de culinária para portadores de síndrome de Down. “É uma ideia antiga, estamos procurando há um tempo por um espaço. E acabamos aqui na Augusta, um espaço onde ficam todas as tribos. É a pura essência da inclusão”, comenta Simone Berti, fundadora do Instituto Chefs Especiais.

Chefs Especiais Café

Foto: Reprodução/Facebook

A caveira no colete, segundo Simone, é um símbolo de que somos todos iguais. “Tivemos a liberdade para montar como quiséssemos e fomos incluindo mais essa parte hardcore, bad boy. Ajuda a tirar o estigma de coitadinho, de impossibilidade, com tudo delicado. Não tem nada disso. Aqui eles estão empoderados, seguros de si”, comenta. “Eu falo que eles são minha gangue, mas apesar disso têm um atendimento fofo”, brinca Simone.

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O espaço foi cedido gratuitamente pela galeria. O café é todo financiado por uma série de patrocinadores e toda a renda obtida é revertida para o Instituto Chefs especiais capacitar ainda mais gente no mercado de trabalho.

Simone conta que o Café Chefs Especiais tem feito mais sucesso do que esperava. “Há pessoas vindo do Mato Grosso, do Recife, em caravanas só para conhecer”, diz. Em menos de duas semanas de funcionamento, já foi eleito pelo Bares SP um dos cafés que precisam ser conhecidos na cidade. Surgiu também o convite para participar do Coffe Week.

Além de Rodrigo, o café conta com dez estagiários rotativos (cada um vai um dia da semana) e deve ganhar outro funcionário fixo em breve. O trabalho é acompanhado por especialistas,  mas os atendentes e baristas são todos portadores de síndrome de Down remunerados. “Eles são funcionários e são cobrados como tal. Precisam chegar no horário, sair no horário, têm suas responsabilidades comuns. Mesmo os estagiários são remunerados”, comenta.

Em alguns casos, os colaboradores são acompanhados pelos pais. Em outros, os pais trazem e buscam. E em outros eles se deslocam sozinhos, como é o caso de Rodrigo. Simone pretende expandir o modelo em breve. Ela quer que outras redes de café apostem no modelo e contratem funcionários capacitados pelo instituto.

O trabalho e as oportunidades geradas pelo Instituto Chefs Especiais

O Instituto Chefs Especiais nasceu em 2006 e foi criado pelo casal Simone Berti e Márcio Berti. Não veio de nenhuma experiência particular além da percepção de que deveriam devolver algo ao mundo.

A gente quis criar o projeto justamente em agradecimento à vida bacana que a gente tinha, ao fato de termos filhos perfeitos, emprego, casa, carro – essa coisa comum que a gente costuma não dar valor e acha que é uma obrigação do mundo dar pra gente.

“E sempre agradecemos muito. Foi assim chegamos até aqui.  Não tínhamos nem um milésimo da pretensão de estar aqui hoje”, conta.

Ao longo dos 11 anos, o Instituto promoveu uma série de projetos, como cursos de violão, de massagem, de dança, de atendimento. Mas o carro-chefe é a oficina Down Cooking, que ensina culinária para pessoas portadoras da síndrome.

São aproximadamente 300 alunos por ano no instituto, que é financiado principalmente por patrocinadores e doações de pessoas físicas. Durante os cursos, alguns alunos podem ir para estágios mais avançados de capacitação. A possibilidade é discutida com os pais e avalia-se se eles querem e podem ir trabalhar. Envolve capacidade de autogestão, uma vez que o aluno irá lidar com materiais cortantes e com fogo, por exemplo.

Nas oficinas, Simone costuma contar uma metáfora: “Todos ali têm diversos ingredientes à disposição. Com eles, podem fazer pratos maravilhosos ou uma gororoba qualquer. E assim também é a vida. Temos muito à disposição. Cabe a nós fazer o melhor com ela”.

Com os ingredientes do Chefs Especiais já surgiram diversas histórias emocionantes. Uma delas é da Natália Evangelista, uma garota que desenvolveu leucemia. “Ela estava totalmente desenganada pelos médicos, nenhum tratamento fazia efeito”, conta Simone.

Conforme a garota começou a frequentar os cursos, a mãe de Natália foi chamada pelo médico, dizendo que com a autoestima elevada, o corpo agora começava a reagir. “Ela continuou a fazer o curso e venceu o câncer. Hoje faz artes marciais, fotografia, continua cozinhando, vai para a escola”, relata. “Se hoje eu tivesse que fechar o Instituto, eu diria que só pela Natália tudo valeu a pena”.

“A autoestima mexe com nossa vida inteira. Quando ela cresce você tem a possibilidade de ver novas soluções”, diz. Essa autoestima vem com oportunidade. “É a palavra-chave para absolutamente tudo. Com uma oportunidade sua autoestima aumenta, sua vida melhora. O que qualquer pessoa precisa é de oportunidade”, defende Simone. E é oportunidade que o Chefs Especiais está procurando oferecer a seus alunos, a seus baristas e a seus atendentes no café.

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