Para Camila Achutti, "ou você programa ou será programado"
Camila Achutti
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Para Camila Achutti, “ou você programa ou será programado”

Rafael Nardini em 30 de agosto de 2017

Aos 25 anos, Camila Achutti é sócia de duas startups milionárias — Ponte 21 e Mastertech — e se deu ao luxo de deixar o Google para focar em suas próprias ideias. A decisão, claro, não veio sem ouvir do pai: “Você tem 21 anos e está abrindo mão de uma carreira na Ferrari da tecnologia”, comenta.

Formada em Ciência da Computação e mestranda pela pela Universidade de São Paulo (USP), a empreendedora Camila bem que gostaria de aplicar uma bela rasteira no glamour que vem colado à palavra “empreendedorismo”, como se automaticamente significasse muito dinheiro e total liberdade de escolha. “Cara, se você pensar assim, você se f****”, resume.

Somado ao glamour contraproducente surgem as eternas barreiras para fazer da tecnologia uma bandeira brasileira. “A tecnologia é vista no Brasil como algo altamente técnico. É aquela coisa do ‘cala a boca e fuça’, sabe?”, explica. E isso implica justamente em um dos grandes sonhos de Camila: fazer da programação e da tecnologia a força principal da educação.

[Tecnologia] é o novo inglês. Na minha visão, é quase como aprender a ler e escrever.

O machismo e as enormes barreiras para as meninas no mercado de trabalho da tecnologia acabam diminuindo as chances de frearmos a violência contra as mulheres. “Não incluir as mulheres na tecnologia é não resolver o feminicídio”, diz.

O papo sobre tecnologia, educação, feminismo e empreendedorismo de ponta se desenrola com mais clareza nas próximas linhas.

Free The Essence – Antes de tudo, seria legal você apresentar o Mastertech e a Ponte 21, o que acha?

Camila Achutti – A Ponte 21 cria e implementa projetos de tecnologia dentro das empresas. A gente está com um case, por exemplo, de evangelização, de formação de comunidades. A Ponte é uma espécie de Plug and Play [aceleradora do Vale do Silício] da inovação de grandes empresas e também de startups. O nosso principal mote é entregar um novo produto em oito semanas, que é o nosso ciclo de inovação.

O Mastertech é nosso braço educacional de habilidades para o século 21. A gente trabalha em três pilares: tecnologia, negócios e digital. Nós invertemos a lógica da educação tradicional superior, que é basicamente profissionalizante. Normalmente, montam um curso e jogam para o mercado dizendo: “É isso, aceitem”. Na Mastertech vamos na direção oposta, que é ouvir: “Mercado, do que vocês precisam aí?”. Nossa grande inspiração é a General Assembly, que não é uma universidade. Nós amamos eles. Viajamos, fazemos os cursos, voltamos. Os projetos são feitos com o meu sócio, o Felipe Barreiros.

FTE – Quais as principais dificuldades para manter dois megaprojetos de tecnologia no Brasil?

Camila – Maturidade de mercado. Entendemos que tecnologia é vista no Brasil como algo altamente técnico. É aquela coisa do “cala a boca e fuça”, sabe? Então falta essa maturidade de mercado. Enquanto isso, mercados como Europa e EUA enxergam a tecnologia como estratégia. Aqui ainda apanhamos muito. Precisamos muito evangelizar, mesmo, falar o porque de usar a tecnologia. A maior dificuldade é essa, tanto para o Mastertech quanto para a Ponte 21. Nos dois projetos nós ainda precisamos dar murro em ponta de faca.

FTE – Por que é importante ensinar tecnologia para as pessoas?

Camila – É o novo inglês, sabe? Hoje, na minha visão, é quase como aprender a ler e escrever. No século 21, uma habilidade essencial é alguém que vai conceber um produto digital e entender o que ele está usando, entender a oportunidade. E aí, se você não entender nem um pouquinho de tecnologia, você não consegue entender uma porção de coisas que acontecem no mundo. A importância é: ou você programa ou você será programado. Vivemos uma época onde existe uma casta de pessoas que sabem programar e elas são supervalorizadas e tudo acontece. Enquanto os outros só podem aceitar e engolir essa realidade o que está sendo feito.

FTE – Você tem essa visão apocalíptica, digamos, de que metade dos empregos vão sumir?

Camila – Vamos perder, mas vamos criar outros tantos. Só olhar o YouTube, por exemplo. Não existia essa profissão de youtuber. Então, perdem-se uns e criam-se outros. Do ponto de vista de mercado de trabalho, não tenho uma visão tão apocalíptica. Do ponto de vista de educação, aí sim. Vejo muitos problemas! Se um médico do século 19 entra numa sala de cirurgia de hoje, ele não consegue fazer nada. Ele não sabe ler os números, ele não sabe nem por onde começar. Ele não é nada. Se um professor do século 19 entra numa sala do nosso tempo, ele vai trabalhar da mesma maneira ainda. Está tudo bem, está tudo normal. Na minha cabeça, isso é muito preocupante.

FTE – Como foi passar pelo Google, olhar para si mesma e dizer: “Acho que prefiro criar meus próprios negócios”? Rolou muito julgamento?

Camila – Rola um julgamento, com certeza. Sou extremamente grata de ter tido essa oportunidade, de poder ir morar no Vale [do Silício]. Cara, morar lá é uma coisa que vira sua cabeça. Você, de fato, começa a perceber o impacto que a tecnologia, o empreendedorismo e a inovação podem gerar numa cidade. Lembro claramente de ouvir assim: “Putz, hoje vamos visitar uma escola muito ruim”. E eu chegava na escola e pensava: “Você está falando que isso é ruim? Vocês têm problemas!”. Foi muito impactante. Senti que precisava fazer a minha parte para tudo isso.

A partir disso, a decisão de sair do Google não foi tão impactante assim. Mas ouvi do meu pai: “Você tem 21 anos e está abrindo mão de uma carreira na Ferrari da tecnologia”. Lembro ele falando exatamente isso. O julgamento existe e é natural. Mas não nasci para ser uma em 6 mil engenheiros. Não conseguia lidar com isso. Sentia que precisava gerar impacto e preciso fazer as coisas do meu jeito.

FTE – Há um grande silenciamento no Brasil sobre o empreendedorismo feminino. Quando se imagina um empreendedor, a imagem que se vê é de um homem branco de meia idade e engravatado. Mas, na realidade, uma imensa massa de mulheres negras são empreendedoras. Como você consegue ajudar a mudar esse imaginário?

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Camila – Totalmente. A visão é como se fossem todos o Roberto Justus, né? Quando você fala de empreendedor, já nem vejo mais esse empreendedor assim. Para mim, é um jovem branco do Vale do Silício. Mas a gente está num passo anterior a isso. Vai levar um tempo para repensar essa imagem [do senhor de meia idade]. Isso pode ser classificado como unconscious bias [algo como “preconceito inconsciente”]. Lá no Google, por exemplo, a gente discutia muito sobre isso. A preocupação deve ser encontrar esses preconceitos brasileiros. Não vejo empreendedores brasileiros. Vejo uma fase anterior a essa. E a gente precisa escancarar isso. Falar mal dessa versão glamourizada do empreendedorismo, de que vai ganhar muito dinheiro, que não vai ter chefe… Cara, se você pensar assim, você se f****. Você errou muito feio se acha que empreender é lindo. Mas não tenho uma receita. Se tivesse, seria ‘mara’. Mas estamos tentando, sabe?

FTE – Uma imagem da Casa TPM deste ano ficou na minha cabeça. Uma menina de uns 10, 12 anos com uma camiseta “O Futuro é feminino”. O que a Camila diria para ela?

Camila – Diria assim: “Estou com você, mas vamos precisar avançar um pouco em o que é feminismo”. Ainda percebo uma visão distorcida, que eu mesma nutro, de um feminismo que é o feminismo clássico europeu. E são vários recortes. Precisamos muito pensar no recorte das mulheres negras. De qual feminino que estamos falando? Da menina branca e de classe média? Me vejo mega privilegiada e já me dei mal para caramba. Imagina uma menina negra da periferia? Imagina só tudo que ela precisa fazer para chegar um pouco acima. Então, menina da Casa TPM, conte comigo, mas vamos expandir esse conceito de feminismo que a gente tem hoje.

FTE – Como está sendo aliar o trabalho em inovação e tecnologia com as pautas feministas?

Camila – onfio plenamente na ideia de colocar as mulheres para inovar. Consigo perceber que colocando o talento das meninas conseguimos catalizar muito a inovação. Minha tentativa é sempre colocar essas mulheres para se ajudarem. Mesmo em pautas não feministas, faço questão de contar sempre com as mulheres.

Tem um projeto está sendo desenvolvido com a Vivi [Viviane Duarte], do Plano de Menina, que fala de carreira, de autoestima, que é incrível. Chama #Juntasarrasamos. Elas falam de imagem, de autoimagem, de cabelo cacheado, de cabelo crespo. É lindo! É um ótimo exemplo do que está rolando de coisa legal.

FTE – Num país extremamente violento com as mulheres como o Brasil, a tecnologia pode ser o ponto de partida para a mudança?

Camila – O fato de as mulheres não estarem integradas à área de tecnologia faz com que muita coisa não seja resolvida. Para mim, não incluir as mulheres na tecnologia é não resolver o feminicídio. Tem, por exemplo, o Innovation Challange, que participei algumas vezes e que coloca as meninas para criar.  Já surgiu bons exemplos de aplicativos criados para atuar justamente nesse recorte de violência contra a mulher.

Tem um chamado Mete a Colher, feito por meninas de Pernambuco, justamente para conseguir fazer denúncias de violência doméstica. O app inverte esse ditado de não meter a colher, né? Passa a ser: “Imagina! Não, você não vai bater em ninguém”.

FTE – O que nós homens fazemos de mais perverso no ambiente de trabalho?

Essa coisa de tentar dificultar o que está fazendo. É uma coisa que não dá para generalizar, óbvio. Mas é bem masculina. O menino que programa, se alguém chega ao lado dele, ele vai fazer questão de parecer que é muito difícil. Como se dissesse: “Você não consegue entender isso” ou “isso não é para você, querida”. Independente da área, as meninas têm um comportamento de maior colaboração: “Vem cá, você vai entender”.

FTE – Qual é o seu maior troféu, aquilo que te faz feliz, para além do trabalho?

Camila – Todos os e-mails que recebo de meninas que terminaram a faculdade. Cada agradecimento que eu recebo dizendo “obrigada, você me segurou na faculdade”. Esses e-mails são meus maiores troféus. Ninguém lê esses e-mails, só eu.

FTE – Para encerrar, você tem um conselho que demorou a entender, mas gostaria de passar adiante?

Camila – Uma coisa que me ajudou muito foi usar exemplo de mulheres que vieram antes de mim. Sempre tive uma mulher que me inspirava em cada uma das áreas da minha vida. E queria chegar ao momento em que teria postura para ser essa voz, de usar minha própria voz. Quando alguém fazia piada idiota dizendo que “ou você é bonita ou faz tecnologia”, tinha sempre um exemplo legal, uma grande mulher que havia quebrado isso antes. Se usasse a minha voz em alguns momentos, talvez não tivesse essa coragem. Até o momento em que consegui me impor.

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