Canais de ciência: como é produzir conteúdo cabeçudo no YouTube
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Foto: Istock/Getty Images
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Canais de ciência: como é produzir conteúdo cabeçudo no Youtube

Camila Luz em 16 de dezembro de 2016

O YouTube é para todos os gostos, e quem curte canais de ciência não pode fica de fora. No Brasil, há youtubers acumulando público interessado em astronomia, evolução ou simplesmente em discutir os últimos fatos políticos e sociais ocorridos no país e no mundo.

O “Canal do Pirula”, por exemplo, tem mais de 500 mil assinantes. Formado em biologia, Pirula é doutor, pesquisador e está no YouTube há cinco anos. Em 2009, fez um teste e postou alguns vídeos, mas concluiu que não tinha talento. “Em 2011, estava com mais tempo na vida para fazer as coisas e resolvi que era hora de voltar”, conta. “A ideia era falar sobre pensamento crítico, desmistificando falhas de pensamento das pessoas. Depois de um tempo, virou ciência”, completa.

Assim como Pirula, Estêvão Slow, do “Canal do Slow”, Davi Simões, do “Primata Falante”, e Devanil Júnior, do “Alimente o Cérebro”, decidiram usar o Youtube como espaço fértil para discutir ideias e divulgar ciência.

Primeiro a ciência, depois o YouTube

Estêvão conta que pouco antes de entrar na faculdade de biologia, em 2011, teve contato com o “Canal do Pirula” e se surpreendeu com a possibilidade de discutir ciência na internet. “É raro ter contato ao vivo com quem saiba basear bem sua opinião. Se a pessoa tem algo a acrescentar e gosta de discutir, precisa fazer isso”, opina.

Na época, conhecia pouco sobre o YouTube. Deu início ao canal quando entrou no projeto universitário “Ciências sem Fronteiras”, para estudar biologia marinha no Reino Unido. Lá, começou a criar vídeos contando sobre a viagem. “Mas sempre quis trazer assuntos relevantes para a internet. Agora, o canal já tem dois anos”, conta. “Criei pelo tema, pelo debate, e não pela vontade de criar um canal”, completa.

Para Davi, o “Primata Falante” era apenas um hobby em 2012, quando o canal nasceu. “Eu gostava de trocar ideias na internet e vi que postar vídeos parecia uma forma legal e eficaz de fazer isso. Então resolvi aprender a gravar e editar vídeos falando sobre assuntos que me interessavam”, relembra.

Na época, o canal era voltado principalmente para ceticismo e ateísmo. Após postar cerca de 15 vídeos, resolveu abandonar o YouTube e retornou apenas em fevereiro de 2015, quando decidiu ocultar as produções antigas e se dedicar a divulgar ciência. Além de se focar em temas que considera importantes ou interessantes, passou a pesquisar sobre recursos de roteirização e edição para deixar os vídeos mais profissionais e com melhor qualidade técnica.

Método de pesquisa

Para falar sobre ciência, é preciso ter embasamento teórico. Além de gravar e editar, os youtubers que lidam com o assunto precisam fazer uma boa pesquisa antes de sentar na frente da câmera.

Estêvão, por exemplo, desenvolveu um método próprio que considera bastante eficiente. “Faço milhões de horas de pesquisa”, afirma. “Já aconteceu de não querer abordar um tema pelo trabalho que iria dar. Gosto de fazer roteiros gigantescos e elaborados, mas tem temas que sou humilde para reconhecer que será difícil falar sobre aquilo”, conta.

Muita gente pede que bole um vídeo sobre capitalismo e comunismo, apontando vantagens e desvantagens dos dois sistemas econômicos. “É um tema interessante, poderia fazer um bom vídeo, mas não ficaria satisfeito. Teria que ficar a vida toda estudando”, diz.

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Estêvão, Pirula e Davi buscam informações principalmente na internet. Também se consultam com amigos especialistas ou se baseiam no que aprenderam durante suas formações profissionais. Já Devanil dá preferência aos livros. “Não que eu não confie na internet, é que fazer uma pesquisa nela me faz me perder”, brinca. “Então o Slow, por exemplo, faz um vídeo sobre política e dá muitas dicas para aprender nas redes sociais, com aplicativos e etc. Já se eu faço um vídeo sobre política, acabo indicando livros e abordando de forma mais teórica. São duas abordagens que se complementam e têm seu valor”, opina.

Temas polêmicos

O YouTube permite criar vídeos didáticos e interessantes, com linguagem clara – e esse é um dos pontos positivos de discutir ciência, economia, política, filosofia e outros temas ditos “cabeçudos” na plataforma. “Não faz sentido escolher assuntos e falar sobre eles apenas para expor uma opinião, usando termos complicados de propósito só para confundir”, diz Estêvão.

Em tempos de redes sociais e internet, todo mundo tem opinião e muitos apontam o dedo para quem pensa diferente. Estêvão faz o oposto em seus vídeos. “Tento ao máximo fazer a pessoa entender, ser didático, menos agressivo, fixar a memória, criar sensibilidade. E acho que isso vem funcionando bastante”, diz.

Quando certos assuntos estão bombando, e Estêvão se sente confortável para abordá-los , cria vídeos para falar sobre a polêmica sem desrespeitar as diferentes opiniões. Os comentários, é claro, bombam. “Fiz um vídeo sobre maioridade penal – um dos melhores que já fiz – e recebi muitos comentários de pessoas falando que sempre foram totalmente a favor [da redução], mas que agora estavam pensando sobre o assunto, reconsiderando o outro lado”, conta.

Quem investe em discursos de ódio recebe ódio de volta e isso vale para todos os posicionamentos ideológicos. Por isso, discutir temas que estão em alta no momento é algo delicado. Davi e Devanil, por exemplo, preferem não abordá-los. “Já tentei e não gostei dos resultados”, conta Davi. “Como gosto de investigar e ponderar com calma e de forma mais aprofundada antes de transformar em vídeo, acompanhar o ritmo de interesse da internet é inviável, induz ao erro e leva a me precipitar as conclusões a respeito do assunto”, explica.

Davi, que é formado em física, costuma abordar assuntos que estão em alta, mas só quando a poeira já abaixou e se tornaram frios. “Prefiro me focar em assuntos atemporais, que sejam interessantes em qualquer época e possam fascinar ou ajudar quem assiste a qualquer momento”, diz.

Mulheres fora da ciência

Os quatros youtubers contam que é difícil definir com precisão quem é o público que os acompanha. “A certeza é que é um público que quer entender como o mundo funciona e descobrir novas ideias. Muita gente já disse que gosta quando abordo ciência, outros já disseram que gostam dos meus vídeos porque costumo falar sobre ciência, sociedade e filosofia sem muitos muros e restrições”, diz Davi.

O dono do “Primata Falante” conta que já recebeu mensagens de pessoas de todas as idades, escolaridade e profissões. A maioria do público dos canais de ciência, no entanto, é formada por jovens a partir dos 18 anos. Para Pirula, provavelmente são pessoas que estão prestando vestibular ou na faculdade, ainda que seja uma audiência bastante heterogênea.

Há, no entanto, uma curiosidade preocupante: o público dos quatro canais é formado majoritariamente pelo sexo masculino. Ao analisar os dados fornecidos pelo YouTube, Estêvão percebeu que a proporção de homens acessando seu conteúdo é de, em média, 85%. O mesmo ocorre no “Canal do Pirula”.

Devanil diz que o “Alimente o Cérebro” recebe cerca de 70% de visitantes masculinos. “Isso é algo que se repete em todos os canais de ciência. Creio ser um grande problema e obviamente há os motivos estruturais”, opina. “Mas também há comportamentos excludentes por parte de nós, criadores. No meu caso, tento deixar um espaço confortável para mulheres participarem, como excluir comentários machistas”, conta.

Davi também afirma que, infelizmente, boa parte de seu público é formado por homens. Veja o infográfico  fornecido por ele que mostra a proporção entre homens e mulheres visitantes do “Primata Falante”.

publico

Foto: Arquivo Pessoal

Para Davi, são números preocupantes e refletem a cultura brasileira, que ainda é bastante machista. “Basta ver que o público de canais de maquiagem, por exemplo, não apresenta essa mesma ‘anomalia’”, diz. “Não me parece ser apenas uma questão de nicho, até por que não existe nenhum indício científico de que ciência, filosofia, conhecimento em geral, interesse naturalmente mais a homens do que mulheres”, completa.

No Brasil, mais da metade da população é formada por mulheres. Davi acredita que há fatores educacionais e sociais que levam o sexo feminino a se envolver menos em certas áreas.  “Isso se reflete também no campo da ciência. Como o discurso igualitário ainda está caminhado a passos de formiga – e enfrentando uma onda reacionário fortíssima e alarmante – creio que ainda levará bastante tempo para que o número de mulheres envolvidas na ciência, política e outros campos ainda dominados por homens seja proporcional à população demográfica, como é esperado em uma sociedade saudável”, completa.

Para Pirula, há muitos fatores que influenciam esses dados. No YouTube em geral, os homens são responsáveis pela maioria dos acessos. Mesmo em canais com temas considerados “femininos”, há a presença do público masculino por diversos motivos. Ele ainda acredita que, no caso dos canais de ciência, não há uma identificação entre os youtubers e as mulheres. “Mulheres não se identificam com um cara cabeludo falando de ciência em um quarto”, brinca.

Pirula pensa que pode haver uma barreira que impeça as mulheres de se aproximarem de temas científicos, ainda que existam muitas biólogas. No geral, a ciência ainda é um campo no qual são minoria. Para o youtuber, elas também são menos incentivadas a jogar videogame e a usar o computador quando crianças, o que as afasta do universo “nerd” e, consequentemente, do YouTube e de canais de ciência. Na opinião de Davi, também cabe aos próprios youtubers trazer a discussão à tona.

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  • Alan De Oliveira Brum

    Muito boa a matéria, assisto todos os canais citados, são excelentes, parabéns pela escrita muito atrativa de se ler 😀

  • Ótima matéria. Além destes canais tem vários espalhados pelo Youtube e até pelo Vimeo. A internet é algo fantástico mesmo 🙂

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