Crítica e técnicas de cinema é democratizada por youtubers
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Foto: Istock/Getty Images
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Youtubers democratizam e dão tom informal à crítica de cinema

Kaluan Bernardo em 27 de janeiro de 2017

Já se foi o tempo em que o crítico de cinema era o cara privilegiado que tinha um espaço no caderno de cultura do jornal diário ou da revista semanal. Hoje, pessoas formadas em cinema, em jornalismo, ou meros amantes da sétima arte, podem tranquilamente sentar em frente a uma câmera e começar a fazer suas críticas cinematográficas no YouTube.

As críticas podem vir nos formatos mais variados. Uns focam mais em questões técnicas, outros em emocionais, enquanto alguns apenas jogam uma luz nas virtudes de um filme. O tom, geralmente, é muito mais informal. Não é alguém trazendo conceitos herméticos para problematizar uma obra, é algo mais perto de uma conversa com um amigo falando sobre algo que ele gosta.

Foi nessa pegada que Gabriel Gaspar resolveu criar o “Acabou de Acabar“, seu canal no YouTube, em 2013. Como o nome sugere, as críticas são feitas logo após o final do filme. “Comecei a perceber que existia uma distância muito grande entre a opinião da crítica e a do público em geral. Esse afastamento é ruim. A crítica analisa o filme muito tecnicamente, enquanto o público médio está mais preocupado com as emoções que desperta. Então resolvi fazer a crítica assim que saísse do cinema, porque consigo falar da parte técnica, mas ainda estou muito impactado pelo estado emocional”, conta o vlogger, que tem mais de 100 mil inscritos.

Luisa Clasen, do “Lully de Verdade” (2011), pensa parecido. “Nunca gostei de crítica de cinema. Sempre achei que eram pessoas que não sabiam fazer e aí falavam mal de quem sabe. Roberto Sadovski me ajudou a desmistificar isso. Há críticos muito bons em apontar determinados elementos e valorizá-los”, comenta.

Lully, como é mais conhecida, é formada em Cinema e Vídeo pela Faculdade de Artes do Paraná, fez curso de Continuidade na Academia Internacional de Cinema e TV e de Filmmaking na New York Film Academy. Apesar da formação, é ferrenha defensora de apresentar o conhecimento de forma simples e democrática.

“Acho que hoje existe público para crítica justamente porque o crítico ficou mais informal. Antes ele falava de cima para baixo com o público e hoje o pessoal do YouTube sabe que não existe essa de ‘sei mais do que você’. Cada um tem sua vivência, estudou algo diferente”, comenta. “Toda opinião é válida. Por isso tanta gente tem canal no YouTube. Ter um espaço para mostrar o que pensa não é mais algo super privilegiado como antigamente”, afirma Lully.

Gaspar, que é investigador criminal do governo federal, nunca fez faculdade de cinema — apenas alguns cursos de crítica audiovisual. No entanto, sempre foi cinéfilo de carteirinha. “Desde criança, eu via todos os filmes que estavam em cartaz no cinema. Não foram poucas as vezes que voltei para casa porque não havia nada de novo para ver. Aí passava na locadora e pegava mais um filme por dia”, lembra.

O canal nasceu com o objetivo de promover seu nome e, com isso, conseguir garantir o público para o livro que estava escrevendo. Como as pessoas sempre pediam suas recomendações para cinema, o caminho natural foi criar um canal sobre o assunto no YouTube. Três anos depois, o canal cresceu o suficiente para ocupar quase todo o seu tempo livre e só agora ele pensa em procurar uma editora para publicar o livro.

O caminho para a profissionalização da crítica de cinema no YouTube

Hoje Gaspar recorre ao crowdfunding recorrente para seu canal. Ele ganha aproximadamente US$ 125 por mês (aproximadamente R$ 400 na cotação atual), suficiente para pagar os ingressos dos vários filmes que vê. Sua principal profissão, no entanto, continua sendo a de detetive. Por isso, não consegue frequentar as cabines de imprensa, que normalmente acontecem pela manhã.

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Lully, por sua vez, começou com um blog. Criou um canal para complementá-lo. Embora o cinema sempre fosse um assunto de seu interesse, inicialmente ela abordava muitos outros temas. Com o tempo, foi focando mais em cinema, sua especialidade. Mas não se fecha no assunto e também fala sobre feminismo, viagens e temas diversos.

Com mais de 300 mil inscritos no YouTube, hoje ela se sente a vontade para experimentar com diversos conteúdos. Inicialmente focava mais em curadoria e em montar listas de indicações de filmes. Aos poucos passou a fazer mais críticas e, principalmente, a explicar linguagem cinematográfica para público leigo. “Quero dar conceitos de cinema e disponibilizar, gratuitamente no YouTube, coisas que as pessoas aprenderiam na faculdade”, diz.

Por isso, em 2017 está reformulando seu canal e focando mais em trazer conteúdo avançado sobre audiovisual, explicando conceitos como Deus Ex-Machina, Efeito Kuleshov, Jornada do Herói etc.

Falar e fazer cinema

Mas além de falar sobre cinema, Lully curte fazer cinema. Por isso, algumas vezes, já produziu curtas experimentais em seu canal. “Comecei a perceber que havia um movimento de pessoas produzindo um conteúdo mais sensorial no YouTube, como é no caso do canal do André Pilli, Vitor Liberato e do meu namorado, o Lucas Zomer, com o Zomerismo”, conta.

“Convivendo com o Lucas fui vendo esses canais e deu vontade de ir tirando ideias do papel. Antes eu me sentia em uma ilha, porque as pessoas em volta de mim eram vlogueiras, e eu sentia falta de criar o que aprendi”, comenta. Lully produziu alguns vídeos sensoriais em viagens. “Não adianta ver o que tem no Louvre, o bacana é sentir”, diz. Nem todos foram bem recebidos, mas ela gostou do resultado.

Gaspar continua trabalhando como detetive, mas vê o canal indo até a sua aposentadoria. Se um dia ele começar a ganhar mais dinheiro com a produção no YouTube, poderá, eventualmente, transformar o projeto no seu ganha pão.

Para além da crítica de cinema, ele também comenta sobre contextos e histórias do universo audiovisual, além de produzir, em parceria com o diretor o Bruno Esposti, a “Imaginário”, série de curtas metragens de terror inspirados no folclore brasileiro.

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