Ocupar o Brasil: a economia criativa fora dos grandes centros
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Foto: Divulgação
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Ocupar o Brasil: a economia criativa fora dos grandes centros

Camila Luz em 2 de outubro de 2016

Boas ideias e projetos inovadores não nascem só em grandes capitais como São Paulo. Em cidades menores, há profissionais interessados em fazer da economia criativa uma possibilidade de vida para seus moradores.

“Tem gente querendo fazer um monte de coisa legal em todos os lugares. Por que você tem que sair da sua cidade e ir para São Pauo para ter informações que vão alimentar sua cabeça?”, questiona Anna Penteado. Ela é idealizadora do VENTO Festival, que acontece desde 2015 em Ilhabela, litoral norte do estado.

Assim como Anna, que deixou São Paulo em 2014, mais profissionais estão saindo de capitais para montar projetos em cidades menores. Outros, que já vivem fora de grandes centros, preferem ficar onde estão e lutar para que a economia criativa aconteça ali mesmo.

É o caso da Vereda Criativa, dos sócios Gabriela Oliveira e Calebe Borges. Em Caxias do Sul (RS), oferece cursos, palestras, mentorias e atividades imersivas para ajudar participantes a alavancar projetos independentes ou atingir objetivos de carreira.

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Vereda: economia criativa e realização no sul do Brasil

Gabriela Oliveira e Calebe Borges

Gabriela Oliveira e Calebe Borges Foto: Reprodução/Facebook

Gabriela estudou design em Caxias do Sul e chegou a morar em Porto Alegre durante algum tempo, trabalhando em agências. Ela percebeu que para estudar qualquer coisa fora da curva, dentro da economia criativa, é preciso sair da Serra Gaúcha e ir para cidades como São Paulo. O investimento financeiro é alto e, portanto, acessível para poucos.

Decidiu criar a Vereda Criativa justamente para suprir essa necessidade e permitir que profissionais da Serra Gaúcha possam desenvolver suas ideias. Na região, há boas universidades, mas são focadas na teoria. Gabriela quis criar um centro voltado para a prática. “Temos foco na criatividade, que é estratégia, e não ferramenta. Falamos sobre inovação, arquitetura, design…”, explica. “Fazemos muitas atividades focadas na prática, na aplicação e em metodologias novas. Queremos trazer um novo olhar, botar a galera para fazer”, completa.

Por meio dos cursos e atividades oferecidas pela Vereda, é possível desenvolver projetos que estejam de acordo com a realidade do interior do Rio Grande do Sul. Para isso, trazem tanto professores de fora, que podem falar sobre novas metodologias, quanto locais. “A primeira aula que oferecemos foi de marketing político. Depois design de superfícies, marketing de moda e assim por diante”, conta.

A Vereda está comprometida em fomentar atividades em outras cidades do sul do país, como Bento Gonçalves, Gramado e Criciúma. “Queremos criar o intercâmbio de fazer as coisas pulsarem fora das capitais”, afirma.

VENTO: sopro de criatividade em uma ilha

Quando Anna Penteado se mudou para Ilhabela com Tatiana Sobral, seu principal objetivo era ser feliz. As duas viviam em São Paulo, em uma casinha de vila, moravam perto de seus empregos e tinham suas próprias produtoras. Mas queriam ter um filho e acreditavam que criar uma criança em São Paulo seria caro e difícil.

As duas queriam experimentar outro estilo de vida, que trouxesse contato com a natureza e poucas preocupações como trânsito e criminalidade. Desde 2008, Anna e Tati trabalhavam com produtos naturais feitos de madeira. “Pensamos no que estávamos fazendo em São Paulo. A gente vende algo no que acredita, que é a natureza, novas formas de produzir e de pensar. A gente não precisa estar na Vila Madalena para fazer isso”, relembra.

Tati se mudou para Ilhabela em 2014 e Anna foi em seguida. Levaram para a ilha o ateliê de design Casco, que faz produtos como capinhas de bambu para celular e armações de óculos. A marca se preocupa com a sustentabilidade em todo o processo — mesmo princípio aplicado no outro projeto criado pelas duas.

placa do festival Vento

Foto: Reprodução/Facebook

O VENTO Festival teve sua primeira edição em 2015 e a segunda em 2016. Esta última rolou na praia mesmo, em plena areia. Além de um lineup diversificado cuidadosamente pensado por Anna, o evento traz palestras sobre discussões atuais e serviços como food truck. E o melhor de tudo: é gratuito para o público. “Enquanto eu tiver patrocínio e puder lutar para ser gratuito, vou lutar. Quero que seja dessa forma para o público final, trazendo maior impacto e uma relação sustentável, de troca”, diz.

O objetivo de Anna também é trabalhar o novo fora de grandes centros, assim como trazer novas discussões. Por isso, a entrada gratuita é importante. Este ano, por exemplo, muitos habitantes ficaram horrorizados com a apresentação do Bonde do Rolê. “Mas o empoderamento acontece de forma tão legal que a própria cidade responde para a própria cidade. Muita gente falou: ‘era de graça, se você não quisesse ver o show poderia ter ficado só na fogueira na praia’”, conta.

Cada ano, o VENTO traz um tema. “Na verdade, o festival trabalha com provocações. Ano passado foi a diversidade, explorar como é construir a economia criativa. O que é a economia criativa? O que dá para fazer com ela?”, diz a curadora. “O festival acaba girando em torno dessas relações e provocações. Abrange desde diversidade de gênero até estilos diferentes de comer — é bem sensitivo”, completa.

Ocupar Brasil afora

O próprio VENTO nasceu de provocações internas. Em São Paulo, Anna e Tati já experimentavam movimentos de ocupação do espaço público. Quando começaram a sentir que a cidade já estava mudando e se organizando melhor, perceberam que era hora de ocupar outros lugares. E esse movimento poderia ser até mais fácil.

“Por que não ocupar o Brasil? A gente se acostuma com o grande, com nossa luta diária. Mas quando você vem para uma cidade que tem 15 mil, 20 mil habitantes, onde um prefeito se elege com 6 mil votos, você pode conversar com ele na rua. Você pode mudar a sociedade de  forma muito mais palpável, mais possível“, afirma.

Anna acredita que brasileiros devem se aproximar até dos “hermanos” da América Latina.  Para a curadora, eles são menos influenciados por grandes centros culturais da Europa e Estados Unidos e valorizam o que é local. Além disso, estão investindo há tempos na ideia de se deslocar de grandes centros. “Lá, eles conseguiram se organizar para explorar e ocupar lugares que não sejam Buenos Aires, Bogotá. E tem muito mais gente morando em ecovilas, por exemplo”, conta.

Gabriela Oliveira também acredita que há muito espaço para a economia criativa fora de grandes centros. “Nós sempre quisemos criar aqui, pois no interior há grandes pólos de indústrias e grandes empresas que precisam da economia criativa como suporte. Empresas da área de publicidade, marketing e design, por exemplo, precisam de profissionais extremamente ativos e criativos”, diz.

No passado, estudantes que desejavam trabalhar nessas áreas precisavam ir para a capital. Hoje, cidades como Caxias do Sul já oferecem formação. “Antes, a saída do profissional para outros lugares era grande. Hoje, queremos ver a criatividade pulsar aqui. Estamos presenciando a criação de muitos negócios”, afirma Gabriela, que completa:

Precisamos olhar para dentro, não para fora. Temos um pólo muito criativo aqui dentro, no interior, no nordeste, na favela. Temos que olhar para a diversidade, para aspectos geográficos, históricos, de gênero e de raça.

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  • juny kp

    estou aqui em sj do rio preto na batalha de empreender criativamente longe dos grandes centros…árduo!

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