Em meio à crise, livrarias independentes resistem e firmam espaço
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Livraria Blooks. Foto: Divulgação.
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Em meio à crise, livrarias independentes resistem e firmam espaço

Kaluan Bernardo em 10 de maio de 2017

No mercado editorial, os olhos se voltam com atenção para os movimentos das grandes redes de livrarias. A Fnac chegou a divulgar em um balanço global recente que sairia do Brasil, mas no dia seguinte retificou o discurso e afirmou que procurava um parceiro para comprar parte da empresa. A Cultura, segundo o jornal Folha de S. Paulo, estaria estudando uma fusão com a Saraiva e dando sinais de preocupação, como recontagem de estoque.

Nesse cenário, comerciantes, editores e até leitores passaram a se questionar: há um esgotamento no modelo das grandes redes e um possível retorno às livrarias pequenas, independentes, de bairro Livrarias e editoras ouvidas pelo Free The Essence acreditam que sim. Aos poucos, as independentes retomam seu espaço, mas o movimento ainda é tímido no Brasil, diferente do que acontece com maior notabilidade em países estrangeiros.

O mercado está mudando radicalmente e, quem não entender, vai dançar rapidamente. Lá fora há grandes redes fechando por conta da Amazon e outros fatores, enquanto as independentes crescem. Nos EUA e Europa isso é tendência há um tempo. Aqui, obviamente, é diferente, mas eu vejo uma oportunidade enorme para acontecer. E, de certa forma, já está acontecendo”, comenta Elisa Ventura, que há dez anos abriu uma livraria independente. A Blooks já tem uma unidade no Rio de Janeiro, outra em Niterói (RJ) e mais uma em São Paulo, capital.

Blooks

Livraria Blooks Foto: Divulgação

“Há sim uma tendência mundial de se voltar às livrarias menores. Mas não é que as grandes vão acabar. As pessoas estão procurando por um atendimento mais personalizado, estão resgatando a figura do livreiro que conhece as pessoas, sabe o que acabou de chegar – como era antigamente”, comenta Manuel Dias Teixeira Neto, criador da Freebook, que nos últimos 40 anos atuou como distribuidora e livraria em São Paulo.

“A maior das mudanças nos últimos anos foi na forma de consumo dos leitores. Temos comprado mais online. A chegada da Amazon tem mudado um pouco isso. Quem sofre mais com essa mudança são as grandes redes, que vendem muito pelo site. E a Amazon chegou com um esquema de preço e serviço muito bom. As grandes redes sofreram com a concorrência e com a crise econômica, que vem aí desde 2015”, opina Fernando Quinteiro, coordenador comercial da Aleph, uma editora paulistana focada em ficção científica.

“Nesse cenário temos algumas livrarias independentes crescendo, mas não como lá fora. Mas talvez não tenha sido ainda como lá fora. O que acontece nos EUA é algo que ainda parece estar para acontecer por aqui”, diz.

A experiência nas livrarias independentes

Para Elisa, o retorno das livrarias independentes faz parte de um movimento maior, que abrange áreas como moda e gastronomia, que é a busca por um consumo mais lento e próximo. “As pessoas estão voltando para a experiência local, na qual priorizam atendimento, o contato com quem faz, quem está à frente do negócio. É uma tendência mundial e em todas as áreas”, opina.

Manuel concorda e aposta suas fichas nisso. Em sua livraria as pessoas costumam sentar no chão para ler, tomam café (por conta da casa) e passam um bom tempo lá, levam cachorros, conversam. “Está se perdendo a poesia que existia do livreiro. Antes o cliente sempre tinha que ser atendido. Se você não tivesse o livro, ligava para um livreiro amigo, comprava lá, e falava para a pessoa passar no dia seguinte. Não existia essa concorrência de hoje, virou uma coisa só por sobrevivência”, conta.

Entrada da Freebooks. Imagem: divulgação.

Manuel está há quatro décadas no mercado. A Freebook nasceu em plena ditadura militar (inclusive o nome, que traduzido seria livro livre, é uma provocação à censura da época). Por anos funcionou como distribuidora de importados, principalmente infantis. A livraria era fechada e era necessário tocar a campainha para entrar. Foi só há dois anos que por pressões do mercado, o livreiro parou de focar na distribuição e resolveu lidar diretamente com o público em uma loja no centro de São Paulo.

Já há Blooks, criada no Rio de Janeiro há dez anos, cresce com espírito independente embora tenha três unidades. Elisa cuida de cada detalhe de perto. As unidades promovem diversos debates e encontros, tem uma revista, e participação ativa nas redes sociais. Tudo isso é gerido diretamente pela dona. “É tudo muito orgânico. E é por isso que as pessoas se identificam, porque percebem que falamos de forma muito próxima deles. Sou eu mesma que respondo a comentários no Facebook, não tenho uma equipe pensando isso. É muito verdadeiro e acho que isso atrai”, comenta.

Para Fernando, da Aleph, essa proximidade com os leitores, proporcionada pelas livrarias independentes, oferece oportunidades únicas para que os editores possam ouvir seu público. “Somos super abertos onde vamos, ajudamos na divulgação dos eventos das livrarias em nossas redes sociais. É um jeito de trazer pessoas para os livros e sempre apoiamos. Nem sempre conseguimos pensar nisso tudo, mesmo porque o retorno financeiro nem sempre compensa. Mas é importante justamente para ver como o público reage, ter contato direto com as pessoas e ouvir seus feedbacks”, comenta.

A editora também tem contato direto com seus leitores independente das livrarias. Em 2016 ela realizou, na garagem da própria sede, a “Feira intergaláctica”, oferecendo todo o catálogo com descontos. Segundo Fernando, em um dia passaram mais de mil pessoas pelo evento. Ele diz:

Esse contato com o público é revigorante e nos ajuda a pensar em quais caminhos vamos seguir.

Fernando conta, no entanto, que não pretende fazer muitas edições da feira ou mesmo abrir uma loja própria porque estariam concorrendo com as livrarias, que são suas clientes.

A proximidade com o leitor, a experiência única, a formação de uma comunidade em torno do livro são algumas das estratégias que as livrarias veem para competir com a política agressiva de descontos proporcionada pela Amazon. “Ninguém entra na minha livraria procurando preço. O cara que entra procurando pelo mais vendido vai se frustrar em meio segundo, porque vai ver que não temos os mesmos grandes descontos”, comenta Elisa. Por isso, ela aposta principalmente em curadoria:

As pessoas querem curadoria. Batemos muito nessa tecla. Quem vem aqui quer algo fora do óbvio. Nosso público sabe que nada está ali aleatoriamente.

E é na curadoria também que as livrarias independentes conseguem apostar nos nichos. A Blooks, por exemplo, tem seções dedicadas a livros com discussões de gênero ou ficção científica. Promove diversos encontros e palestras para discutir esses temas, além de ter clubes de leitura voltados aos livros temáticos. Um dos clubes de leitura, inclusive, é feito em parceria com a Aleph e discute a ficção científica.

“Mais do que nichos, são tendências que precisam ser olhadas de formas separadas. Quando as pessoas começaram a falar de gênero, nós já promovíamos o debate há muito tempo. É preciso olhar para isso tudo de forma especial”, comenta.

Já a Freebook, que sempre se especializou em livros importados e ilustrados, dá atenção especial aos infantis. “Sou apaixonado por infantis. Quando só importávamos éramos, provavelmente, os principais fornecedores infantis estrangeiros”, comenta Manuel. O livreiro, no entanto, passou a ser cobrado para oferecer mais livros nacionais. E há quatro meses passou a dar mais espaço para o que é produzido no Brasil e a ter mais contato com editoras e autores independentes que não teriam o mesmo espaço em grandes redes.

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Elisa também. “Para essas editoras, a livraria independente é uma super possibilidade de vitrine para quem não tem seu trabalho divulgado nas grandes redes. Se você entrar na Blooks e olhar a vitrine verá diversas editoras que as pessoas não costumam ver. E são coisas maravilhosas. É por isso que quando as pessoas entram aqui têm a impressão de que temos coisas que os outros não têm. A diferença é que nós mostramos, enquanto as grandes escondem. Aqui você encontra o livro da Companhia das Letras ao lado de editoras como a Nós ou a Carambaia”, diz.

A dificuldade é justamente em estabelecer a comunicação entre várias livrarias e editoras. “Sou grande fã das editoras independentes. Me aproximo delas há muito tempo e é um movimento que tem ganhado muita força no Brasil. Há muita gente boa fazendo muita coisa legal, mas sem espaço para mostrar. É tanta coisa que, mesmo se eu quisesse, não conseguiria absorver tudo isso dentro da livraria. Mas muita gente não quer estar dentro da livraria porque já se movimenta de forma que nem precisa mais”, defende Elisa.

Do lado das editoras, Fernando diz que, por vezes, eles precisam contar com distribuidores para se comunicar com todas as livrarias. “É difícil ter braço para atender todo mundo. Somos cinco pessoas aqui no comercial. E aí vamos por distribuidores. Mas isso é bom, porque a distribuição se fortalece e não ficamos na mão de grandes grupos”, comenta.

O grande desafio, concordam Elisa e Manuel, é empreender no Brasil. “Não há espaço para errar”, diz ele. “Ter empresa aqui é loucura. Não há incentivo para empreender. Se eu tivesse juízo não teria feito metade do que fiz”, diz ela. O que move os dois, no entanto, também é a mesma coisa: paixão.  Manuel declara:

O importante é que nós gostamos do que fazemos. Você tem que gostar do que faz para dar certo. Você precisa se sentir orgulhoso de trabalhar em uma livraria, afinal vende cultura. Tem coisa mais gostosa na vida? Não vendemos armas, bebidas, roupas, apenas conhecimento.

Mas, ei, cuidado. Se você está pensando em abrir uma livraria por paixão, ainda vale o lembrete de Fernando: “Muita gente abre por ser apaixonado por livros. Mas esquece que é um negócio como qualquer outro, que precisa ser feito com atenção, planejamento. É complicado e não é fácil”, lembra .

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