Gabriela Agustini, do Olabi, e o empoderamento da cultura maker
gabriela agustiI_OLABI
Gabriela Agustini Foto: Arquivo Pessoal
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Gabriela Agustini, do Olabi, e o empoderamento da cultura maker

Kaluan Bernardo em 30 de maio de 2016

O conceito de maker existe desde 2005, mas a prática tem muito mais tempo. “É uma forma de pensar o mundo que otimiza o uso de materiais e habilidades disponíveis para interferir na sociedade de uma maneira que você acredita”. Essa é a definição de Gabriela Agustini, criadora do Olabi, um dos principais espaços makers do Rio de Janeiro.

Gabriela está envolvida com o movimento maker desde 2011.  É co-organizadora do livro “De Baixo Para Cima“, no qual fala sobre inovações. No Olabi trabalha com todo tipo de gente para discutir e fazer projetos de impressão 3D, biotecnologia, marcenaria, artesanato, eletrônica e robótica.

Em entrevista ao Free the Essence, concedida no Festival Path após uma palestra sobre Makers, Gabriela fala sobre o que percebe do movimento no Brasil. Confira trechos da conversa:

Free the Essence – Conte um pouco mais sobre como surgiu o Olabi.

Gabriela Agustini – Foi uma confluência de muitas ideias e experiências. Em 2011 eu estava no Rio de Janeiro por conta do Festival Internacional de Cultura Digital. O evento tinha uma área voltada a makers e aquilo tudo ficou na minha cabeça.

Fiquei pensando como o movimento era rico e gerava um espaço de diálogo à partir da prática. Tentei viabilizar algo que fosse mais amplo do que o universo da tecnologia e se tornasse amigável para qualquer um.

Então me apresentaram ao Hermann Bessler, que é fundador do Templo, um espaço de coworking no Rio de Janeiro. A gente conversou, propus para ele de ter um espaço maker. Ele gostou e fizemos.

O espaço maker surgiu como algo meio separado, mas, depois me tornei sócia do Templo e o Olabi se firmou como um braço lá dentro. O Olabi foi crescendo e acabou se tornando uma iniciativa muito diferente do Templo. Então nos separamos em duas empresas, que continuam no mesmo espaço físico. Ainda colaboramos um com o outro, mas são dois negócios independentes. Em abril completamos dois anos de desenvolvimento.

foto do logo do projeto olabi com lupa na frente

Projeto Olabi Foto: Reprodução/Flickr

FTE – Como funciona o modelo de negócios do Olabi?

Gabriela – Trabalhamos como dois planos de mensalidade. Um dá acesso a todo o espaço e a pessoa pode frequentar em qualquer período. O outro dá acesso a clubes temáticos, que acontecem às terças-feiras (impressão 3D e artesanato), às quarta (eletrônica e robótica), às quintas (marcenaria) e aos sábados (biotecnologia).

Há ainda um plano para aulas especiais para crianças e workshops isolados — muitos gratuitos e abertos que fazemos ocasionalmente para democratizar o acesso e a diversidade, uma grande bandeira nossa.

Além do espaço físico, temos uma camada de projetos especiais, curadoria e assessoria que fazemos para instituições terceiras interessadas nos temas que abordamos.

FTE – Vocês tem uma comunidade muito forte — tanto no virtual quanto fisicamente. Como vocês a mantém?

Gabriela – Esse é um super desafio. O Olabi se dá em duas camadas que se retroalimentam. Não gosto de olhar para o Olabi como um espaço físico mesmo porque começamos com um grupo no Facebook. Há várias pessoas que estão longe do Rio de Janeiro e são super participativas em nossas comunidade virtual.

As comunidades virtuais e físicas não são separadas. Por vezes uma discussão que rola em nosso grupo na internet acaba pautando uma um evento físico.

Além disso, participamos de redes globais, como o Global Innovation Gathering, um encontro de makers principalmente do eixo-sul. Compartilhamos muito na rede virtual. O mundo maker tem a ver com essa materialização das trocas que acontecem no virtual.

O movimento que se transforma em cultura maker

FTE – Dois anos depois, como você vê o maker?

Gabriela – Você vai ver várias definições para makers. Eu acredito que tem muito mais a ver com o modo de pensar do que com as ferramentas. É uma forma de pensar o mundo que otimiza o uso de materiais e habilidades disponíveis para interferir na sociedade de uma maneira que você acredita. Isso pode se dar na criação de um produto de tecnologia, na criação de uma performance, de criatividade etc.

Gosto de pensar a tecnologia como algo amplo. Há um cara que mora em uma comunidade de baixo poder aquisitivo. Ele pegou uma garrafa PET, fez uma solução química e colocou no teto de forma que reflete a luz do sol e economiza energia elétrica. Isso é maker.

A cultura de gambiarra é maker. Via de regra tem a ver com intervir e trazer uma solução. Também pode ser algo artístico, uma nova apropriação de linguagem. Tem muito de juntar fio, com LED e barulhos só para ver no que vai dar. Dessa experimentação saem coisas empoderadoras. O maker tem esse pensamento educacional de simplesmente abrir e ver o que dá para fazer com aquilo.

maquina no projeto de hightech olabi

Cultura HighTech Foto: Reprodução/Flickr

FTE – O maker tem que trabalhar necessariamente com um componente físico?

Gabriela – É difícil restringir. O que é um hardware e o que é um software no mundo de hoje? É difícil separar o que é digital e o que é físico. Quanto de realidade virtual está no mundo físico e quanto está no mundo do software?

Via de regra, em lugares onde o acesso à tecnologia é mais avançado, o software não entra no mundo maker. Em países em desenvolvimento, onde não há tanto acesso a ferramentas e  a componentes sofisticados e, onde criar um site ainda é para meia dúzia, aí sim o software pode entrar no pacote de coisas makers. Tem a ver com a tecnologia que está acessível e o que você consegue fazer com ela.

No Brasil, se você for restringir maker ao cara que usa Raspberry Pi, Arduíno e cortadora a laser, você restringe a poucos e deixa de fora os caras da indústria de carnaval que criam um monte de coisas, ignora a aparelhagem do tecnobrega e vários outros que estão inovando há um bom tempo.

impressora 3d e pessoas em olabi aberto

Olabi Aberto Foto: Reprodução/Flickr

FTE – Quais os caminhos para promover o movimento maker?

Gabriela – O caminho da educação é forte e tem muito respaldo nas escolas. A vocação maker das crianças é natural pelo interesse genuíno delas e por conta das necessidades das escolas se reinventarem.

Há outro caminho pelo empreendedorismo que é quando as pessoas passam a ter noção de que é necessário empoderar os outros para criarem seus negócios. E há um terceiro caminho: o da arte e da cultura, que vai mais pelo lado simbólico e das apropriações voltadas a experimentação.

FTE – Quais os benefícios que o movimento maker pode trazer para o mundo?

Gabriela – Quando você trabalha com criança, gera novas habilidades e interesses ajudando ela a aprender melhor as matérias mais tradicionais. No futuro isso significará mão de obra qualificada. Pelo empreendedorismo, você acaba gerando emprego e renda. E, pelo simbólico, o empoderamento vai na mão da criação de empreendimentos e artes.

Os resultados tangíveis são emprego e renda além de exploração de novas possibilidades para a sociedade — o que é difícil de medir, mas não ignore que os avanços do mundo vem muitas vezes de ideias não tão estruturadas.

 

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