Para Marcelo Costa, do Scream & Yell, a cultura é revolucionária
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Foto: Lili Callegari Fotografia
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Para Marcelo Costa, criador do Scream & Yell, “a cultura é revolucionária”

Kaluan Bernardo em 20 de janeiro de 2017

Marcelo Costa é jornalista e curador musical, além de sommelier de cervejas. Em seus 47 anos de sonho, sangue e América do Sul, dedicou 17 a um fanzine que virou site, o Scream & Yell. Nele, fala sobre cultura pop em geral, mas principalmente sobre música. A página é responsável por grandes entrevistas com artistas importantes na cena nacional, longas críticas de discos também internacionais e divulgação de novas bandas que estarão despontando amanhã.

Nascido na Mooca, bairro da cidade de São Paulo, cresceu em Taubaté, no interior do estado. “Uma ótima cidade para se viver entre os cinco e 12 anos”, como ele conta. Era lá que seu pai tinha uma enorme coleção de vinis, a maioria de MPB.

Marcelo Costa

Foto: Reprodução/Facebook

Hoje, seguindo os passos familiares, Marcelo Costa também tem uma respeitável estante. Mas de CDs. Sim, ele ainda ouve CDs. “Não gosto de fones de ouvido, de nada que me aperte”, conta o jornalista musical, que perdeu 27% de sua audição. “A culpa foi dos Pixies”, diz sem brincar.

Nascido em 1970, Marcelo viu uma década de ditadura militar e seus pais ouvindo músicas de protesto. Sua adolescência, nos anos 1980, foi marcada pela abertura brasileira e o rock dos Titãs, RPM e Legião Urbana, que se inspiravam muito nas bandas gringas. Nessa época, Taubaté era roteiro para as bandas de rock. “Vi todas turnês dos Titãs do ‘Televisão’ ao ‘Domingo'”, lembra. Foi quando amigos da cidade começaram a frequentar sua casa para ouvir os vinis.

Apesar da adolescência musical, Marcelo nunca tentou tocar um instrumento. “Sempre me faltou coordenação motora”, conta. Por outro lado, sempre deu um jeito de se envolver com a música. Na década de 1990 organizava caravanas para os shows em São Paulo com o objetivo de conseguir uma grana a mais para pagar seus ingressos. O envolvimento com música foi rolando até a faculdade, quando a paixão virou algo a mais.

O Scream & Yell e Marcelo Costa viram um

Incentivado por uma namorada, aos 24 anos, entrou na faculdade de Publicidade e Propaganda, na Unitau. Sua primeira opção foi Jornalismo, mas na mesma época começou a trabalhar na biblioteca universitária e, por conflito de horários, acabou seguindo para a segunda opção.

“Fazer Publicidade e Propaganda foi maravilhoso. Eu não estaria aqui conversando com você se não tivesse feito esse curso. Várias coisas que faço naturalmente, na verdade foram coisas que aprendi durante a faculdade e que me abriram portas”, argumenta.

Essa mesma namorada o incentivou a escrever. Na época só escrevia poesia. “Hoje não escrevo mais. A falta de silêncio em São Paulo não permitiu. Acho que música clássica e poesia são coisas do séculos passados, quando havia silêncio, o pessoal não tinha luz etc”, reflete. Embora fizesse Publicidade, teve uma grande escola de jornalismo: a revista “Bizz”, publicada pela Editora Abril, um dos maiores veículos musicais do Brasil no passado.

Foi durante a faculdade que conheceu um fanzine, chamado “Gambiarra”, e que lhe inspirou. “Era bem tosco, mas eu achei muito legal”, lembra. Comentou com João Marcelo, um amigo do curso de Direito, sobre a possibilidade de criar um também. “No Natal ele apareceu na minha casa falando ‘vamos fazer'”, diz.

Em uma tradução livre Scream & Yell seria algo como “grito e berro.” O nome foi sugerido por João e seguia a estética metaleira da primeira edição. Infelizmente, pouco tempo depois o companheiro faleceu em um acidente.

Marcelo Costa

Foto: Lili Callegari Fotografia

“Com isso eu desisti. Falei vou me formar, virar professor e ficar por aqui mesmo e tal”, lembra Marcelo. No entanto, as 30 impressões da primeira edição, que circulou apenas entre amigos, deixou sua marca.

Três anos depois, Alexandre Petillo, outro aluno de Direito, veio falar com Marcelo para reviverem o Scream & Yell. Agora namorando com a garota que fez a diagramação da primeira edição, Marcelo topou e resolveu reviver o fanzine, que sairia de três em três meses.

A brincadeira durou um tempo e, já na terceira edição, estavam imprimindo centenas de cópias e distribuindo pela faculdade. “Enviava para um monte de gente que escrevia fanzines, além de nomes que eu admirava, como o Lúcio Ribeiro, a Ana Maria Bahiana, o Álvaro Pereira Júnior, o pessoal da MTV etc”, conta Marcelo.

Nessa troca, em 1999, Lúcio Ribeiro, então jornalista da Folha Ilustrada, incentivou Marcelo Costa a vir a São Paulo e arriscar a vida como jornalista. “O Lúcio tem um enorme coração, abriu a porta para um monte de gente”, defende. Na época, a namorada de Lúcio estava envolvida na criação de um portal que viria a ser o iG. Relutante, mas incentivado por Lúcio, ele veio para São Paulo e começou a trabalhar no site.

Por 12 anos, Marcelo trabalhou na redação dos principais portais do Brasil, como o iG, UOL e Terra. Em alguns momentos chegou até a fazer jornada dupla, trabalhando no iG e no finado Notícias Populares, por exemplo.

Foi também nos primeiros anos do terceiro milênio que um amigo e fã do fanzine Scream & Yell criou uma versão online para a publicação. “Ele criou tudo para mim, me ensinou a mexer e me entregou as chaves”, conta.

Marcelo Costa

Scream&Yell Foto: Reprodução/Site

Desde então, o Scream & Yell tem publicado grandes textos sobre música, cinema, quadrinhos e séries. Embora o site pertença a Marcelo, ele sempre esteve de portas abertas a colaboradores. “Já passaram mais de 100”, calcula com orgulho, lembrando que já “perdeu” vários para grandes empresas jornalísticas.

Nesses anos todos, Marcelo sempre se recusou a publicar notícias factuais e efêmeras. “Do começo para cá nossa audiência não aumento muito, até porque vamos muito contra a maré. Nos recusamos a fazer o que é raso. Quero fazer uma matéria que eu tuíte daqui a quatro anos e as pessoas retuítem pra caralho”, diz.

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O projeto nunca lhe deu muita grana, mas abriu várias portas. Seus trabalhos de curadoria, crítica e tantos outros que pintaram ao longo da vida vieram pelo Scream & Yell. Acostumado a conversar com alunos ou jornalistas iniciantes, Marcelo diz que não são necessários muitos conselhos a quem quer se aventurar pelo jornalismo musical. “Se o cara já quer escrever sobre música ele já é todo torto, não precisa de alguém que diga ‘vai'”, brinca.

A cultura é revolucionária

O site tem uma função: estimular as pessoas a chegarem a algum novo artista ou produto cultural. A conhecerem mais. “O Scream & Yell sempre foi isso de motivar as pessoas a terem curiosidade. Sempre acreditei que a cultura é uma coisa revolucionária. A cultura me deu tudo o que tenho. Devo muito a Shakespeare por isso”, diz.

Isso porque ela sempre permitirá você conhecer novas maneiras de pensamentos segundo Marcelo:

Um dos grandes problemas é que as pessoas não prestam atenção. Isso vai ao encontro de uma professora de Filosofia que, no colegial, me disse que precisamos parar de ouvir e começar a escutar, de ver e começar a enxergar, de falar e começar a dizer. A gente faz tudo no raso. E a cultura é o caminho para sair do raso.

“Lendo, vendo e ouvindo as pessoas certas, você consegue refletir e não vai ser dominado por um monte de coisas que são lugar comum. Você conseguirá ter três ou quatro argumentos antes de alguém tentar te enganar — seja um político ou um vendedor na esquina”, conclui Marcelo.

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