Marcelo D'Salete e a representação do negro nos quadrinhos
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Cumbe Foto: Reprodução
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Marcelo D’Salete e a representação do negro nos quadrinhos

Kaluan Bernardo em 24 de dezembro de 2016

Vivemos em um dos tempos mais criativos e ricos dos quadrinhos brasileiro. Longe da época em que só se falava em gibis de crianças, charges de jornais ou inspirações em super-heróis estadunidenses, hoje o quadrinho nacional fala de temas mais sensíveis, carrega novas emoções, tem traços diversificados e resgata a história do brasileiro. Marcelo D’Salete, um dos principais nomes dos quadrinhos contemporâneos, é um desses artistas que, com trabalhos emocionantes, resgata a trajetória do Brasil e joga luz em questões urgentes, como a da desigualdade racial.

Marcelo D'Salete

Marcelo D’Salete Foto: Rafael Roncato

Além de quadrinista e ilustrador, Marcelo é professor de Artes na rede pública do Ensino Básico e mestre em História da Arte. Tem três livros que tratam sobre o tema da desigualdade racial e a vida na periferia. São eles: “Noite Luz” (Via Lettera, 2008), publicado no Brasil e Argentina; “Cumbe” (Veneta, 2014), publicado no Brasil, Portugal, França e Itália; e “Encruzilhada” (relançado em 2016 pela Veneta).

Em “Cumbe”, sua obra mais conhecida, ele remonta histórias da época do Brasil colonial e conta a história a partir do escravizado, não do escravocrata — algo raro nos livros de história, que tendem a trazer a narrativa do homem branco. Já em “Noite Luz” e “Encruzilhada”, Marcelo traz contos curtos sobre a vida na periferia de São Paulo, com muitos personagens jovens e negros.

Do rap aos quadrinhos

Desde pequeno, Marcelo desenhava com seu irmão. Em casa consumia principalmente HQs estadunidenses, além de Turma da Mônica. Mais tarde passou a conhecer novas e importantes referências, como Akira, Katsuhiro Otomo, Lourenço Mutarelli e Miguelanxo Prado.

Cumbe de Marcelo D'salete

Cumbe Foto: Reprodução

No Ensino Médio fez um curso técnico em Design Gráfico e decidiu que iria atuar como quadrinista. Não havia uma referência na família ou algo do tipo. Trabalhava com diversas coisas e os quadrinhos seguiam paralelamente, até o momento que decidiu que iria se dedicar mais a isso.

Mais do que quadrinistas, Marcelo teve como importante influência músicos. “Na década de 1990 me deparei com muitas músicas, principalmente de rap, que tinham uma crítica social sobre a desigualdade étnica e racial muito forte. E eu não via isso nas historias em quadrinhos”, comenta. “Muito [da inspiração em relação ao tema] veio a partir da música, e depois a partir de mais estudos sobre o tema na universidade e contato com colegas também militantes”, diz.

Entre os rappers que o influenciaram e ainda ouve, cita nomes como RZO, Racionais, Sabotage e James Bantu. Hoje, mais do que rap, também se inspira por outros gêneros, como jazz, afro beat, MPB e rock.

“Mas não sou o único e nem fui o primeiro quadrinista a chamar a atenção para a questão da desigualdade racial no Brasil. Outros, como Mauricio Pestana, um dos primeiros a publicar charges com temas étnicos e raciais, fazia críticas fortes, contundentes e eficazes ao racismo”, comenta. “E há outros autores mais recentes”, diz.

Marcelo D'Salete

Foto: Reprodução

Apesar disso, ele acredita que é necessário ampliar a discussão sobre a representatividade negra nos quadrinhos. “Ainda são poucos os quadrinhos que falam sobre essa temática. Há quadrinistas negros, mas muitos estão falando sobre outros temas. Acho importante termos esse tipo de discussão e fomentá-la para que outros quadrinistas negros saibam que há histórias interessantes a serem contadas dentro do tema“, declara.

Além de ter mais quadrinistas levantando o debate, é importante que existam mais políticas de distribuição, até para que tais obras cheguem a jovens da periferia, que podem se inspirar com os quadrinhos. “Faltam políticas para que obras como essa [o Cumbe] e de outros autores cheguem às escolas, às bibliotecas públicas de bairros mais afastados. Existem alguns incentivos desse tipo, mas nos últimos anos temos visto retração”, comenta.

Apesar disso, Marcelo destaca que algumas obras suas conseguiram chegar a pessoas negras e não negras que não necessariamente consomem quadrinhos e que o feedback foi positivo. Muitos professores também ajudam na divulgação do trabalho.

“Estamos em um momento em que, assim como as discussões sobre gêneros, a questão racial, de identidade  e diferenças é importante. Falar sobre as várias identidades que temos no Brasil é algo que vai fazer a diferença daqui a alguns anos e transformará esse veículo de HQs em algo mais complexo, podendo falar de mais perspectivas sobre nossa história e sociedade atual”, diz.

Resgatando a história de Palmares

“Cumbe” envolveu muita pesquisa histórica para tentar remontar como eram as relações dos negros no Brasil colonial. As narrativas do trabalho de Marcelo D’ Salete sempre vem de alguma realidade — esteja ela em um texto de jornal, em uma história ouvida na rua ou em um documento histórico.

Desde 2006, Marcelo está se debruçando em pesquisas sobre o Quilombo dos Palmares para fazer sua obra mais ambiciosa até então, um livro de quase 400 páginas com histórias desse quilombos, símbolo da resistência negra no Brasil.

“A história de Palmares é muito rica. Fizeram algumas HQs sobre, mas ainda acredito que são curtas em relação a tudo o que se pode falar sobre o tema. Foram mais de 100 anos e dezenas de personagens importantes”, comenta.

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A obra, que é a sua mais ambiciosa até então, deverá se chamar “Angola Janga” (“Pequena Angola” em Banto) e irá muito além de Zumbi e tratará também de outras personalidades que ali viveram.

“A proposta desse livro é falar sobre a estratégia de conseguir a liberdade e garantir a sobrevivência naquele período. Quero mostrar como eram os conflitos entre o poder colonial e Palmares. A estimativa é que existiam 20 mil pessoas no Quilombo dos Palmares, era muita gente. Foi o maior conflito depois da invasão dos holandeses e é um episódio tão importante quanto”, explica. “Minha ideia é falar sobre outros personagens e reimaginar Palmares. Muitas informações que tivemos vieram a partir dos soldados que iam lá para destruir. São histórias que temos que ver com desconfiança”, afirma.

Obras como a de Marcelo são importante não só para jogar novas luzes em pontos importantes da história do Brasil, como também para promover empatia em tempos que a palavra se faz mais necessária, segundo ele próprio:

Acredito que a arte é um campo privilegiado e importante para você se colocar no lugar do outro.

“Quando não conseguimos nos colocar no lugar dos outros, temos mais dificuldade para compreender a situação e os problemas de muitas pessoas — seja na posição de um garoto ou mulher negra na periferia, seja no indígena, seja no imigrante. Fazer esse tipo de obra é tentar criar pontes para que possamos dialogar com outras pessoas”, conclui.

Assim, a esperança de Marcelo é que jovens negros se tornem conscientes de sua história e identidade e possam questionar a sociedade em que vivem. “É importante para que essas crianças se tornem adultos que possam dialogar de igual para igual com outros jovens e adultos. Vemos no Brasil uma população negra com a imagem muito desvalorizada pela mídia, que produz uma imagem dos negros como marginais dentro de sua própria história e os deixam sem uma representação digna”, comenta.

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