Por que cultuar o movimento maker pode ser perigoso
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Por que cultuar o movimento maker pode ser perigoso

Pedro Katchborian em 19 de janeiro de 2017

O dicionário Oxford é direto quando define o que é ser maker: “uma pessoa ou empresa que faz ou produz algo”. A descrição é vaga se comparada com o que é o movimento maker: uma extensão do faça-você-mesmo, uma cultura contemporânea que incentiva quem constrói, conserta e fabrica seus próprios objetos.

O movimento maker anda de mãos dadas com o empreendedorismo, já que muitos makers acabam transformando suas ideias em produtos, para então comercializá-los. Inspirando o empreendedorismo e valorizando a criatividade, o movimento maker ajuda a aquecer a economia e traz soluções para problemas em diferentes áreas de atuação.

Os perigos do movimento maker

Mas nem todos que criam gostam de ser chamados de makers. É o caso de Debbie Chachra, em artigo chamado “Por que eu não sou maker”, no The Atlantic.

Professora de engenharia do Olin College of Engineering, Debbie explica por que cultuar o movimento maker pode ser perigoso. “Às vezes, me perguntam o que eu faço”, diz. “Alguém em uma conferência me pergunta ‘o que eu faço’ para que vá junto com um adesivo com meu nome. Eu sempre fico desconfortável. Eu fico desconfortável com qualquer cultura que encoraja que você assuma uma identidade inteira, ao em vez de expressar uma faceta de sua própria identidade (“maker”, em vez de “alguém que faz as coisas”)”, destaca.

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Foto: Istock/Getty Images

Debbie continua e afirma que a identidade maker espalha a ideia de que “pessoas que fazem coisas são simplesmente diferentes — leia-se: melhores — do que pessoas que não fazem”. “Eu entendo de onde vem essa motivação. Creators, da maneira correta, tem orgulho de criar”, explica. “Em meus cursos de engenharia, ensino estudantes a fabricar e desenhar, muitos pela primeira vez. Mas há temas mais significativos, enraizados na história de quem faz coisas — ou quem não faz”, afirma.

Segundo Debbie, basta andar por um museu ou olhar pela cidade para perceber a importância das pessoas — elas façam parte ou não do movimento maker. “Quase todos os artefatos que valorizamos em uma sociedade foram feitos por ou a pedidos do homem. Mas por trás de cada um deles existe uma infra-estrutura invisível do trabalho – principalmente o cuidado em seus vários aspectos – que é realizado principalmente por mulheres”, finaliza.

Debbie cita o exemplo de como ela parou de fazer a sua cama todos os dias, quando adolescente. Para ela, o princípio cultural do maker — que é considerado superior a não-fazer, reparar, analisar e especialmente cuidar — é baseado na história de gênero de quem fez as coisas e, em particular, quem fez as coisas que foram compartilhadas com o mundo, não apenas para o lar.

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O movimento maker não é um movimento rebelde, não são indivíduos indo contra o sistema.

“O problema é a ideia de que a alternativa a fazer coisas é, normalmente, não fazer nada — é quase sempre fazer coisas para e com outras pessoas. Descrever-se como um maker — independente do que se faz — é uma maneira de acumular para si próprio os benefícios capitalistas, de gênero, de ser uma pessoa que produz produtos”, completa Debbie.

Essa diferença de tratamento de quem é considerado maker e de quem não é pode ser vista no Vale do Silício. Neste texto do Model View Culture, Kate Losse explica como os desenvolvedores tem maior salário e prestígio de pessoas que fazem gerenciamento de comunidade — trabalho muito importante para a maioria das empresas de tecnologia. Debbie conclui o texto dizendo o porquê de não se considerar uma maker:

Eu não sou uma maker. Em um cenário e em um sistema que se baseia em criar artefatos, especialmente os que você vende, eu sou um ser humano menos valioso.

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