Nem boneca Nem carrinho oferece experiências no lugar de brinquedos
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Nem boneca Nem carrinho oferece experiências no lugar de brinquedos

Kaluan Bernardo em 10 de fevereiro de 2017

Nem Boneca Nem Carrinho é uma empresa que, como o nome sugere, não vende brinquedos, mas experiências para crianças. Elas podem ser visitas ao teatro, uma ida ao cinema ou passeios em parques. As opções são variadas, mas vão na contra-mão do consumismo infantil.

“Eu ia em festas de aniversário de crianças e via o consumismo, as crianças ganhando milhões de coisas sem brincar com nada. Comecei a me questionar por que fazemos isso”, comenta Andrea Tavares de Lima, 36, cofundadora da empresa.

Foto: Istock/Getty Images

O funcionamento é simples. Basta entrar no site e escolher um filtro “por experiência”, “por idade” ou “para presentear” e configurar de acordo com sua vontade. A entrega acontece em até 16h e vem em uma caixa personalizada, com cartinha de quem comprou o presente e a opção do presenteado agendar sua experiência quando quiser.

Os valores variam principalmente entre R$ 50 e R$ 80. Uma aula de skate, por exemplo, sai por R$ 90; dois ingressos de cinema (para um adulto e uma criança) custam R$ 55; enquanto dois ingressos para uma peça de teatro infantil sai R$ 80. Basta escolher e presentar. Desses valores, uma percentagem é utilizada para manter a plataforma

No momento, a maioria das experiências são em São Paulo, mas as fundadoras dizem que pretendem expandir para outras capitais. Há um trabalho de curadoria, e todas as experiências ofertadas no site são escolhidas a dedo pelas fundadoras. Ela conhecem o lugar, os responsáveis e experimentam o passeio com seus filhos.

Amigas de infância e mães: como surgiu a Nem Boneca Nem Carrinho

A empresa foi fundada em 2016 por Anna Paula Durazzo, 35, e Andrea Tavares de Lima, 36. Amigas desde o Ensino Médio, seguiram carreiras diferentes, mas nunca perderam contato. Anna fez Publicidade e foi trabalhar com Comunicação Digital, passando por empresas como Americanas, Cyrella e Telefônica. Andrea fez Direito mas logo no começo da carreira percebeu que não era o que queria. Casou-se com um francês da Ilha da Córsega e começou a importar vinhos em um empório que manteve por sete anos.

Nem boneca nem carrinho

Andrea Tavares de Lima e Anna Paula Durazzo Foto: Arquivo Pessoal

“Empreender no Brasil nunca foi fácil. A burocracia, os impostos etc… sempre foram desafiadores”, conta Andrea. Em 2013, por dificuldades econômicas relacionadas à importação, ela fechou o empório. Com dois filhos pequenos, começou a fazer coaching para se reencontrar.

Paralelamente a isso, Anna também se tornava mãe e se reconhecia cada vez menos na carreira corporativa. “Achava que eu não era mais nem uma boa mãe nem uma boa profissional”, comenta. Foram várias as vezes que deixou de ir a reuniões para buscar filhos na escola e acompanhá-lo de perto. “A carga horária é uma questão complicada. Por mais que as empresas tenham discurso de receptividade, na prática elas não conseguem ajudar no dia a dia porque ainda medem eficiência por quantidade de horas trabalhadas“, comenta.

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A essa altura elas estavam se encontrando uma vez por semana e procurando ideias de projetos para desenvolver juntas. Foi quando perceberam a demanda de presentear crianças com algo que não fosse brinquedo. Assim chegaram na ideia da Nem Boneca Nem Carrinho.

“Sempre fui uma mãe que gostava de fazer programas com as crianças. Adoro esse contato com a natureza e de proporcionar coisas diferentes para eles. Via muitas famílias dizendo que também gostavam, mas não tinham tempo. Então desse hábito e reconhecendo que outras famílias tinham a necessidade, mas não tinham condições de organizar veio a ideia”, conta Andrea.

Ao longo de 2015 passaram a planejar o negócio. Fizeram várias pesquisas, entrevistas e eventos para entenderem se a ideia teria aceitação. Enquanto isso, Anna continuava na carreira corporativa, mas percebendo cada vez mais que não poderia continuar. Até que na virada para 2016 decidiram que era hora de ver se o projeto funcionava. O colocaram no ar e Anna deixou seu emprego para se dedicar ao empreendimento.

Nem Boneca, Nem Carrinho

Foto: Divulgação

“Nunca imaginei que teria a coragem de fazer o que eu fiz. Você é muito julgado. As pessoas se condicionam a pensar que só é possível ser feliz tendo um bom cargo em uma boa empresa. Mas eu via que, como eu acreditava no projeto e queria ficar mais próxima do meu filho, precisava entrar de vez. Não dá para tocar em paralelo. Percebi que seria muito mais realizada pessoalmente do que sentando em uma cadeira empresarial. Foi uma escolha envolvida com muita coragem”, comenta Anna.

Ela conta que levou um tempo para “desintoxicar” da mentalidade corporativa e se acostumar à nova rotina. Com o negócio, elas passam a manhã com os filhos e se dedicam à empresa à tarde. Uma ou duas vezes por semana se encontram para fazer reuniões. É claro que há algumas exceções e acabam cuidando de algumas coisas em outros horários também, mas agora conseguem conviver muito mais de perto com a família.

Nesse primeiro ano da Nem Boneca Nem Carrinho, as empresárias colheram muitos feedbacks e testaram o produto. A operação se pagou, mas não gerou lucro. Agora, em 2017, estão se estruturando para alavancarem o negócio e começarem a correr atrás de ganhos maiores.

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Além disso, participaram do Campus for Moms, um programa do Google para mães empreendedoras. Lá tiveram mentoria, palestras e acesso a um grande networking.

Anna e Andrea reconhecem que o caminho do empreendedorismo não é fácil. Embora garantam que em momento algum se arrependeram do processo, dizem que não é para todos. Andrea: “Eu acho que o empreendedorismo não é pra todo mundo. Muita gente não se encaixa. Primeiro você precisa ver se é seu perfil. Não é a vida maravilhosa que pintam por aí. No Brasil é especialmente complicado como qualquer profissão”, comenta.

Por isso mesmo, ela acha que o mercado precisa valorizar mais as famílias e que o empreendedorismo não deve ser o único caminho para quem quer equilíbrio na vida. “Acho que o mercado tem que ser mais amigável com pais e mães, já que as crianças são o futuro da humanidade. Se não nos permitirmos cuidar deles, como será nosso futuro? É preciso um olhar mais humano”, defende.

E Anna complementa dizendo que, nesse caminho, é essencial encontrar quem te apoie. “É um caminho muito solitário, você precisa de uma rede de apoio. Numa grande empresa você tem toda aquela rede pronta, na sua você precisa criar. É importante ouvir, se aproximar de grupos, mentores, lugares que são propícios para isso”, recomenda.

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