Afinal de contas, como é realmente ser um nômade digital?
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Como é, afinal, ser um nômade digital?

Kaluan Bernardo em 4 de dezembro de 2016

Por que morar em uma cidade se você pode morar em um planeta? Essa é a pergunta que fazem Patricia Figueira e Vinícius Teles, também conhecidos como “Casal Partiu“. Há seis anos eles têm vivido em mais de 302 cidades de 63 países diferentes. São nômades digitais.

OK, você já deve ter ouvido falar em nômades digitais — aquelas pessoas que, por trabalharem remotamente, se dão a liberdade de viver em diferentes lugares, estando onde e quando quiserem. Não estão viajando o mundo, estão vivendo pelo mundo. É diferente. Muitos têm uma rotina normal de trabalho, com oito ou mais horas por dia.

A experiência, diz Vinícius, é tão legal quanto parece. Viver conhecendo o mundo é realmente incrível. E muitas vezes custa menos do que ficar sempre no mesmo lugar. No entanto, não é para todos. Há uma série de cuidados e ponderações que devem ser feitos para quem quer adotar tal estilo de vida. Feita a escolha consciente, aí é questão de ir e aproveitar. Por isso, conversamos com Vinícius para compartilhar um pouco de sua experiência como nômade.

Nômades digitais? Partiu!

Quando começaram sua jornada pelo mundo, Vinícius e Patricia sequer sabiam o que era nomadismo digital. Na verdade, tudo começou com uma viagem de feriadão, em 2009. O casal foi para Buenos Aires e se apaixonou pela cidade — não como um ponto turístico, mas como lugar para se viver.

“Vivíamos bem em Niterói (RJ). Trabalhávamos em casa há alguns anos, mas sentíamos falta de algo e tivemos essa ideia de nos mudar para Buenos Aires”, conta. Ele é empreendedor e desenvolvedor de software; ela é fotógrafa e na época registrava casamentos. Como ela tinha muitas cerimônias agendadas, passou um ano cumprindo os compromissos profissionais até que resolvessem voltar para Argentina, já no final de 2010.

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Interessados em fugir do calor no verão, nem foram para Buenos Aires. Resolveram passar primeiro em Bariloche. Chegando lá, lendo livros de viagem, Vinícius conheceu o conceito de nômade digital e viu que, por trabalharem autônomos e remotamente, eles também poderiam adotar tal estilo de vida. E por mais que gostassem da Argentina, conhecer o mundo deveria ser bem mais legal.

A partir daí começaram a vida de nômades. Foram para a Europa e voltaram para a América do Sul por um tempo. Patrícia continuava fotografando casamentos no Rio de Janeiro. Agendava todos os seus trabalhos para um período de três meses, nos quais ficava na cidade fotografando, e depois passava o resto do ano editando e entregando as imagens. Enquanto isso, Vinícius tirava a maior parte da renda fixa das assinaturas pagas por um software que desenvolveu em 2008. Batizado de “Be on the net”, o sistema ajuda a construir sites.

Hoje, ambos estão mudando os rumos profissionais de suas vidas. O que era apenas um apelido entre amigos, o “Casal Partiu” tornou-se um projeto do qual ambos pretendem extrair suas futuras receitas. A ideia é compartilhar experiências e aprendizados com outras pessoas que queiram viver o nomadismo digital.

Por isso, em 2014 Patricia passou a editar os vídeos do canal e Vinícius a escrever um livro que deverá ser lançado em março do próximo ano. “Estamos criando alguns produtos. O primeiro é o livro, um grande guia sobre como é viver dessa forma, mas com coisas práticas e detalhadas do dia a dia e os cuidados que você precisa ter. É um livro grande pra caramba e a partir dele vão sair vários produtos menores, seja na forma de curso, de livros pequenos e assim por diante”, explica.

Como é a vida de um nômade digital?

Pergunto a Vinícius se teve algum momento específico no qual ele sentiu que estava valendo a pena. “Pra ser sincero temos essa sensação o tempo todo”, responde. “Agora estamos aqui na Polônia e o Leste Europeu é a parte do mundo que a gente mais gosta porque tem o melhor equilíbrio de cidades que sintonizam muito bem com a gente. Temos capacidade para trabalhar bem porque conseguimos ficar em apartamentos muito bons e com ótimo custo-benefício. há infraestrutura necessária para trabalhar na boa”, comenta.

O trabalho aparece muitas vezes na resposta e não é por acaso. Para Vinícius, nomadismo digital não é só sobre viajar, é sobre trabalhar em diferentes lugares também. “O trabalho é tão ou mais importante do que a viagem em si. Porque se você só viaja, por mais legal que seja, se você não estiver fazendo um trabalho, sendo útil, chega uma hora em que enche o saco. Precisamos desse aspecto da vida de ser útil, fazer alguma coisa produtiva”, comenta.

A rotina varia de lugar em lugar. Na Cracóvia, por exemplo, acordam as 10h e trabalham durante o dia todo. Almoçam em casa, fazem exercícios físicos e passam o resto do dia trabalhando intensamente. “Se estamos acordados, estamos trabalhando. E não é que somos workaholic, é que curtimos muito o que fazemos. Nosso passatempo é isso”, comenta. A diferença é que, quando dá na telha, podem simplesmente sair para viajar, conhecer novas cidades e explorar a nova região onde estão morando. Isso acontece principalmente nos finais de semana. Eles também vão muito a encontros de couchsurfing para fazerem novos amigos.

Vinícius Teles e Patricia Figueira

Vinícius Teles e Patricia Figueira

A jornada começou quando Patricia e Vinícius estavam na metade da casa dos 30. Tinham uma grana guardada para qualquer emergência. Por isso, nunca precisaram trabalhar por falta de dinheiro ou algo semelhante. “Apesar disso, o que ganhamos sempre se equilibra mais ou menos com o que gastamos. E nossa reserva não mudou muito de tamanho”, conta.

Mas, como conseguem? “Eis um aspecto muito curioso desse modo de vida: é muito mais mais barato do que viver parado no Brasil. Parece contraintuitivo, mas nossos gastos são de um terço a metade do que eram quando vivíamos em Niterói“, comenta. “A diferença é brutal, mesmo com dólar subindo. Até porque apesar de a moeda ter encarecido, o custo de vida no Brasil também subiu ao longo desse tempo”, diz.

E aí vai uma boa dica: quando for se mudar para uma nova cidade ou país, tente ficar alguns meses. Quando for procurar acomodação no Airbnb, explique que pretende ficar bastante tempo e conseguirá negociar preços até 40% menores, garante Vinícius.

O casal normalmente fica entre dois e três meses em uma cidade. E antes de escolherem para onde vão se mudar, primeiro viajam para a região e vão conhecendo vários locais, com o objetivo de mapear quais são os pontos interessantes para se viver. “Assim, ficamos em lugares que sabemos que serão fáceis ou seguros porque a gente consegue se comunicar, trabalhar, ser produtivo”, comenta.

Mas e para quem não tem uma fonte de renda fixa, como fazer? “Depende demais da percepção de risco de cada um”, diz Vinícius. Ele considera imprudente se jogar no mundo sem ter uma fonte de renda ou uma reserva. “É um problema por si só porque muito rapidamente pode ser que você fique sem dinheiro e precise ser sustentado por outras pessoas. Isso também é um problema sério. Porque você vai fazer uma parada que é ‘maneiríssima’, mas às custas dos outros”, comenta.

Por outro lado, ele diz que não é uma regra. Conhece vários viajantes que saíram com pouquíssimo dinheiro e foram encontrando trabalhos durante a viagem, trocando hospedagem por colaborações etc. E há ainda um outro lado a se considerar:

“Se você me perguntar qual a coisa mais valiosa que existe na nossa vida, te responderei que é o nosso tempo aqui. Ele vai passando e você naturalmente não tem como colocar de volta. O que passou passou e já era. Isso significa que se no início da sua vida você só trabalha e não viaja, não realiza seus sonhos e assim por diante, você está envelhecendo. E isso é irreversível. Eventualmente você vai envelhecer e com 50 anos terá dinheiro suficiente pra fazer o que estamos fazendo aqui. O problema é que com 50 anos viajar pelo mundo é diferente do como você faria aos 20, aos 25, aos 30. Porque você é uma pessoa diferente, com outro nível de energia e saúde.

Além disso, há o aspecto de como uma viagem pode nos mudar. “Eu fiz um ‘mochilão’ pela Europa com 22 anos que mudou completamente minha maneira de pensar e influenciou todas as minhas decisões dali por diante. Então o cara que demora muito tempo para realizar um sonho de viajar, eventualmente perdeu também um monte de coisas que mudaria se tivesse saído mais cedo”, comenta.

Há, por fim, algo muito importante a se considerar. A sua relação com a família. “Para muitos, isso pega muito mais do que qualquer aspecto de dinheiro e emprego”, comenta. Para quem sai para viajar, não pega tanto porque você compensará as saudades com várias experiências legais. Mas para quem fica, você simplesmente não está mais lá. E quando começa a faltar em Natal, Páscoa, festas de família, alguns podem se ressentir”, explica.

“Infelizmente, acho que pra fazer um movimento desses de virar nômade e tudo mais você precisa aceitar o fato de que não vai conseguir agradar todo mundo. Ou você agrada a si mesmo e faz isso que acha que é bom pra você ou agrada essas pessoas e fica. Não dá pra conciliar essas duas coisas. É um problema bastante sério”, resume.

Apesar disso, Vinícius e Patrícia não se vêm voltando para o Brasil. Acostumaram-se ao novo estilo de vida, gostaram dele e pretendem viver mais tempo conhecendo o mundo e compartilhando suas experiências no site, no YouTube, em livros ou onde for.

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  • Ola, Kaluan.

    Muito obrigado pela matéria. Ficou excelente.

    Como expliquei para você, ser nômade digital realmente é tão legal quanto parece. Mas foi um longo caminho até chegarmos aqui. 🙂

    Se alguém aí tem interesse de partir também e trilhar esse caminho, sinta-se à vontade para entrar em contato. Será uma satisfação ajudar no que a gente puder.

    Abração,

    Vinícius Teles
    Casal Partiu

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