Programaria empodera mulheres ao ensinar tecnologia
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Foto: Istock/Getty Images
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Programaria empodera mulheres ao ensinar tecnologia

Kaluan Bernardo em 3 de julho de 2016

A cada 100 alunos de um curso de computação, apenas 15 são mulheres. O número é do último Censo da Educação Superior (realizado em 2013), obtido pela Programaria — uma organização que trabalha para reverter esse quadro.

A Programaria foi criada em fevereiro de 2015 por Iana Chan, 27 anos, jornalista que trabalhava com educação na Fundação Victor Civita. Ela tinha uma amiga designer, que se achava incapaz de aprender programação — apesar de reconhecer a demanda do mercado. “Essa postura sempre me incomodou. Trabalhei com educação e questionava como alguém se achava incapaz de aprender qualquer coisa. Ouvir isso é sempre perturbador. Que tipo de educação a pessoa recebe para pensar assim sobre si mesma?”, questiona Iana.

Movida pelo incômodo, decidiu criar um clube de programação para mulheres. Mas logo perceberam que o projeto seria maior do que isso e, além de aprenderem a programar, poderiam ajudar a desconstruir o machismo dentro do mercado de tecnologia. “Para mim é clara a ideia de que você não aprende por aprender, é necessário um objetivo maior”, comenta.

Hoje a Programaria atua em três frentes: debate, inspiração e aprendizado. Para debater, escrevem textos, participam de eventos ou promovem discussões sobre o papel da mulher na tecnologia; para inspirar, trazem casos de mulheres em computação; e para aprender, promovem cursos e workshops.

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Os cursos parecem ser um dos maiores atrativos na Programaria. Inauguraram recentemente seu primeiro curso completo, o “eu programo”, que ensina JavaScript, CSS e HTML para mulheres. São oito sábados, com seis horas de aulas teóricas e workshops. Para a primeira turma, elas tinham apenas 30 vagas disponíveis, mas 977 se inscrevam para participar.

Mulheres na programação: Tecnologia e empoderamento andam juntos

As mulheres nem sempre estiveram longe da tecnologia. A primeira pessoa a programar um algoritmo, em 1833, foi uma mulher: Ada Lovelace. Entre 1883 e 1984, a participação de mulheres em cursos de computação era de 37%. As coisas parecem começar a mudar depois da década de 1980. Em 2010 e 2011, o índice chegava a 18%, segundo o Centro Nacional de Estatísticas Educacionais (ou National Center for Education Statistics, em inglês). Veja no gráfico abaixo, produzido pela rádio NPR:

Gráfico mostra o que a aconteceu com mulheres na computação

Fonte: NPR

Na NPR, os apresentadores demonstram como, a partir da década de 1980, os computadores pessoais começaram a serem vendidos como “brinquedos para meninos” e boa parte da cultura geek foi, aos poucos, sendo vista como algo apenas masculino. E isso ajudou, por anos, a construir a imagem de que tecnologia não é para mulher.

“Foi assim na minha casa também. O computador e o videogame eram do meu irmão. Eu só usava quando ele estivesse parado. Isso determina muito o futuro da pessoa”, diz Iana, que cresceu em um sítio em Jundiaí, e sempre foi aficionada por tecnologia.

Questionamos essa narrativa cultural, que diz se uma coisa é ou não de mulher, e como isso nos impacta lá na frente. Isso tem muito mais a ver com os estímulos que a gente recebe do que apenas com nossa natureza.

Ao trabalhar o debate, a inspiração e o aprendizado de mulheres na tecnologia, Iana e as garotas da Programaria pretendem reverter esse quadro — tanto dentro de universidades quanto no mercado de trabalho. “Faltam programadores nas empresas. E é claro que isso vai acontecer enquanto se excluir 50% da população mundial das áreas tecnológicas. Felizmente, muitas empresas estão percebendo que precisam promover diversidade em seu quadro de funcionários”, diz Iana. “Nossa intenção é conectar tanto as mulheres que querem aprender quanto as empresas que querem contratá-las”, explica.

Mas, além de dar mais oportunidades para mulheres no mercado de trabalho, o objetivo é permitir que as garotas possam usar a programação como ferramenta de construção e transformação social.

Iana diz: “É inegável que a tecnologia determina diversas coisas na nossas vidas. E isso deverá se intensificar afetando ainda mais como nos conhecemos, comunicamos, produzimos, consumimos, etc. Se a tecnologia é usada para resolver problemas, quantos estão deixando de ser resolvidos porque não há mulheres se apropriando dessa ferramenta?”.

É por isso, por exemplo, que elas pretendem fazer ainda em 2016 uma hackathon (maratona onde pessoas se juntam para programarem um projeto em um dia ou final de semana) só para mulheres interessadas em desenvolverem soluções para outras mulheres.

Esses posicionamento, no entanto, levanta algumas discussões, como relata Iana. “Quando dizemos que somos um negócio feito por mulheres para mulheres, algumas pessoas nos chamam de sexistas”, diz. “O que elas não entendem é que não estamos excluindo os homens, mas incluindo as mulheres“, continua. Então ela conclui:

Se vivêssemos em uma sociedade onde a área de tecnologia fosse igualitária não precisaríamos da Programaria. Inclusive esse é um grande sonho: estar viva no dia em que a Programaria não for mais necessária. Fazemos atividades voltadas só para mulheres para elas perceberem que são bem vindas naquele espaço.

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