"Minha desconstrução é complexa", conta Rincon Sapiência
Rincon Sapiência
Foto: Renato Stockler
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“Minha desconstrução é complexa”, conta Rincon Sapiência

Kaluan Bernardo em 26 de julho de 2017

O rapper Danilo Albert Ambrosio, mais conhecido como Rincon Sapiência, lançou seu primeiro disco oficial aos 31 anos de idade. “Galanga Livre” mistura rock africano, funk carioca, soul, R&B e rimas sem rodeios para falar da vivência de um homem negro no Brasil de 2017.

Calaganda Livre Foto: Divulgação

Galanga é o nome de um escravo que mata seu senhorio. A história é narrada em músicas como “Crime Bárbaro” e a homônima “Galanga Livre”. A ideia, segundo o rapper, é, metaforicamente e poeticamente, matar o racismo.

Com versos como “Infelizmente Bolsonaros não é tipo raro”, “Batemos tambores, eles panela” e “Ela sonha com o casamento / Antes de dormir ela sempre ora / Podia orar por coisa melhor / Tipo viajar pelo mundo afora”, Rincon vai além da discussão racial e aborda também política, desigualdade socioeconômica, sexualidade e discussões de gênero.

Paulistano criado em Itaquera, Rincon quase se tornou jogador de futebol profissional. Entre uma pelada e outra, acabou no rap. Produziu o disco inteiro em seu quarto, de forma completamente independente, e inspirado por artistas como Racionais MCs, MV Bill e Xis.

Conversamos com o rapper sobre seu trabalho e sua visão de mundo na casa da Boia Fria, a produtora que divulga seu trabalho. Abaixo você confere os melhores trechos da conversa.

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Construindo e desconstruindo

Acho que nosso poder de reivindicação está maior e, consequentemente, algumas máscaras caem (…). Muitas pessoas que tinham trejeitos que caíam no racismo agora estão se policiando porque sabem que a gente está reivindicando e a gente está, de certa forma, educando-as a se desconstruírem. Tem acontecido na questão racial; na das mulheres em relação ao machismo; e com os homossexuais em relação à homofobia.

Minha desconstrução é complexa. É algo que é instituído na nossa educação. Quando jogava muito futebol, por exemplo, rolava muita homofobia de chamar o cara de mocinha, mandar ele brincar de boneca, falar que não foi falta e que ele tem que ser macho. Cresci nesse ambiente. A gente se desconstrói ao longo dos anos.

A responsabilidade ao falar em questão racial naturalmente já envolve a questão das mulheres. Porque uma coisa é você estar em situação de desfavorecimento por ser homem preto e outra coisa é ser mulher preta, que o combo é duplo. Não adianta nada eu falar várias coisas em relação à questão racial e não colocar a questão de gênero na pauta.

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Paternidade e o rap como educação

É uma responsabilidade muito grande, principalmente por conta da minha profissão de músico (…) Por mais que eu viva um momento bacana, estou feliz pra caramba, fazendo shows… ainda estou remando contra a maré, contra o mercado da música, contra uma série de coisas. Ser um pai presente fisicamente e financeiramente e tocar seu trabalho com responsabilidade é um desafio que acho que tenho cumprido. Mas é difícil.

A parte que mais invisto [em seu filho] é educação. É quando a gente tem o poder de contra-argumentar qualquer coisa. Quando a gente está bem informado, bem educado, nada te derruba. Querendo ou não, a educação dá um norte pra você se dar melhor no campo de trabalho – o que te dá dinheiro.

Foto: Renato Stockler

Acredito que meu filho vai poder contrariar várias coisas quando tiver seu poder aquisitivo e informação.

Agora temos professores que ouviam rap e estão antenados com o mundo contemporâneo. Acho que eles têm aplicado por livre e espontânea vontade na grade curricular. Mas acho que essa proposta podia vir de cima. Acho que a música tem uma didática que pode ensinar a alfabetizar, a contar histórias. Não só o rap, mas a música em geral.

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Fiz eu mesmo

Quando eu fazia um trampo acima da média de renda eu já comprava uma copiadora de CD porque eu sabia que se fosse lançar um CD um dia dependeria só de mim. Aí vinha outro trampo e eu comprava um microfone, porque se em algum momento eu quisesse lançar um trabalho não ia ser o top de linha, mas seria algo com uma qualidade boa e com a minha autonomia.

Sempre gostei de tecnologia e investi nesse faça você mesmo. Então quando surgiu a ideia do disco eu já tinha todo o repertório, já tinha as produções. Ainda tenho muita sobra do disco.

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É tudo nosso, tio

O rap já está há um bom tempo dominando o mercado norte-americano. Essa onda conservadora rolou no mundo todo e, consequentemente, o lado B dos artistas tem se aflorado.

Pega, por exemplo, a Beyoncé que tinha como imagem só a sensualidade e agora tem um disco conceitual, com clipes e estética bonita. Até pela idade que ela está entra em uma fase de deixar alguns signos para trás. É uma artista pop trazendo grandiosamente essa pauta.

E tem o Kendrick Lamar, que é o Cristiano Ronaldo do rap. Ele está no melhor momento, com letras, instrumental mais clássico, sem muitos elementos tão modernos. É uma figura bem necessário para o momento atual.

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Na prateleira e na pegada de outros manos

A recepção está sendo boa até porque é o primeiro álbum, embora não necessariamente o primeiro lançamento. Tenho certo romantismo com discos, que é algo até antigo já que hoje em dia as coisas são muito mais rápidas. Ainda sou daquele tempo em que você ouvia um álbum por um tempão, ficava um ano nele.

Eu tenho muita influência principalmente dos discos de rap como o “Seja como for”, do Xis, que foi o que me fez ter vontade de cantar rap. Até então, era só fã como ouvinte. Pegava coisas como Racionais, o “Declaração de Guerra”, do Mv Bill, e outros. A diferença desses grandes discos é que não são coletâneas, têm um título e há um conceito. Sempre me vi na cobrança de fazer um álbum e ter um conceito.

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O negro é lindo

Foto: Renato Stockler

O simbolismo de “Galanga Livre” é que, ao longo dos anos, muitos conceitos racistas sempre existiram – como associar o preto à ausência de beleza, ao erotismo, de chamar a pessoa de macaco etc. Eu sou de uma época, nos anos 90, em que isso era muito normal. Hoje em dia, esses conceitos foram mortos. Se você está numa roda de conversa e alguém pronunciar essas palavras vai causar um choque pra geral.

A ideia de matar o senhor de engenho é isso: alguns valores que não jogam a favor da gente precisam ser eliminados. E precisa valer a nossa liberdade de sermos nós mesmos, com nossa beleza, nossa estética, nosso biótipo precisa entrar na normatividade brasileira já que fazemos parte da realidade nacional.

Se você for pra trás do rap você chega no continente africano, nos tambores, nos contadores de história, nas danças. (…) É um reconhecimento que eu já tinha feito. O rap usa muito preto e aí passei a usar estampas coloridas, africanas, já trazia tambores, berimbau. E o mundo tem consumido o continente africano, na moda, na música.

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Rock africano é firmeza total

Querendo ou não o rap é o ritmo e a poesia. O ritmo ficou sempre em aberto. (…) Fiquei pensando como o rock ainda era uma parada pouco explorada em conjunto com o rap. Até mesmo porque não é só aquele negócio do Charlie Brown, do Planet Hemp. Eles também me influenciam mas teve outros rocks nos anos 70, nos anos 60, no continente africano, feito por artistas pretos. O rock é uma música preta, que surgiu do blues.

Trouxe essa influência setentista e africana do rock. Desconheço artistas de rap que fizeram essa combinação. O rock foi o ponto de partida pra eu ver uma musicalidade presente.

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O rap que mudou minha vida

Acho que a música “Voz Ativa dos Racionais, um rap que deles naquela fase meio Public Enemy. Esse tipo de influência, de falar da questão racial, de sentir orgulho. Ele fecha falando “A juventude negra / Agora tem voz ativa” e eu acredito muito nisso. Acho que a nossa juventude tem voz. E, a partir do momento que temos voz, construímos e desconstruímos.

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Domingão do Faustão é meta?

É claro que se eu tiver a oportunidade de tocar na rádio e emplacar vários hits eu vou adorar. Mas eu não tenho esse de ‘não vou falar isso porque a TV vai me censurar’. A parada é livre mesmo, então eu conto essas histórias de matar o senhor de engenho da forma mais artística e poética possível. Mas eu me vejo livre pra fazer tudo isso no meu trabalho justamente pela influência que tive do rap nos anos 90.

Hoje em dia não passa batido. Em todos os sentidos (…) Hoje a gente tem voz, estamos inseridos nas tecnologias, a gente tem autonomia das nossas coisas, você vê o exemplo do rap, do funk que a gente não tem abertura tão grande na TV, na rádio, mas a gente é ponta de lança, a gente faz do nosso jeito, abre nosso canal e faz as coisas acontecerem.

Não passa batido não e não estamos dispostos a estarmos marginalizados. Antes era normal existir a alta patente da música e nós como a sobra, mesmo fazendo tanto trabalho de qualidade. (…) A gente tá com a voz mais ativa que nunca.

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