Conheça o Sense-Lab, consultoria em projetos de impacto social
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Foto: Divulgação
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Conheça a história do Sense-Lab, empresa que ajuda projetos de impacto social

Rafael Nardini em 14 de dezembro de 2017

“Repetir os modelos do século 20 nas próximas décadas é suicídio. Montamos um modelo econômico baseado em crescimento infinito, onde a estabilização e a redução da produção leva ao desemprego e a crises. Mas como crescer indefinidamente em um planeta finito?”. É assim que pensa Andreas Ufer, 35, engenheiro de materiais de formação que precisou revolucionar a própria carreira para se realizar como profissional. Desse movimento pessoal, nasceu o Sense-Lab, a consultoria empresarial e de estratégia focada em iniciativas do terceiro setor.

A ideia de ajudar causas a se tornarem economicamente e estrategicamente eficazes tem um sentido maior para Andreas e para o Sense-Lab: a transformação social e a inclusão de quem mais precisa dentro da economia e da sociedade. A missão é das mais árduas, mas ele está otimista. “Na minha opinião, existe uma boa chance de vermos uma grande virada no que enxergamos ser o papel das empresas na sociedade e do indivíduo dentro das empresas”, comenta ele em entrevista ao Free The Essence.

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Como você deve supor, Andreas deixou para atrás o ar condicionado para gastar sola de sapato. Ele tinha tudo para seguir firme como executivo de uma grande multinacional e fazer um bom dinheiro desta forma. A carreira acadêmica é bastante sólida, com formações pela Politécnica-USP, pela Universidade de Aachen na Alemanha, além de MBA em Gestão Estratégica de Negócios pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e pós-graduação executiva em Estratégias de Impacto Social pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Com isso tudo na bagagem, trabalhou em uma consultoria de sustentabilidade e em supply chain, planejamento estratégico e acabou como Project Management Office (PMO) na holding do Grupo Votorantin. Mas no meio disso tudo, veio a ideia do Sense-Lab. E tudo mudou para ele.

Da perspectiva de fazer a vida em grandes empresas para viver sem salário foi um salto no escuro. Quando o Sense-Lab começou, em junho de 2014, ninguém — incluindo Andreas — recebia nada. Pelo contrário, foi o próprio Andreas quem usou R$ 20 mil de economias pessoais para dar início ao Sense-Lab. E foram meses vendo o dinheiro que entrava caindo diretamente para o capital de giro da empresa. Três anos depois, os clientes maiores já aparecerem no portfólio: a WWF, Fundação Boticário, DOW Chemicals, General Motors, Metrô de SP. E a experiência começa a se pagar, literalmente.

Para Andreas, é uma questão irreversível: nós vamos precisar reaprender e começar a dividir mais e acumular menos. Compartilhar é a chave do que virá nos próximos anos.

Acredito que todos esses movimentos recentes, como capitalismo consciente, empresas B, negócios de impacto social, ou mesmo as centenas de pessoas que procuram o Sense-Lab (…) são reações a esse extremo ao qual chegamos.

Nas próximas linhas você acompanha os melhores momentos da nossa conversa com Andreas.

Free The Essence: De quais maneiras trabalhar em uma iniciativa como o Sense-Lab afeta positivamente sua vida? Da para dizer que hoje você se sente mais completo?
Andreas Ufer – Ao fundar o Sense-Lab eu estava na busca por uma atividade que pudesse ao mesmo tempo ser relevante para o coletivo, contribuindo para gerar uma mudança social e ambiental positiva, e que me permitisse ter autonomia na tomada de decisão e flexibilidade de tempo. Com certeza posso dizer que estou mais realizado do que em qualquer outro momento da minha trajetória profissional.

Ver um filho como o Sense-Lab, em uma área nada ortodoxa como o campo de inovação social, sair da estaca zero, pouco mais de três anos atrás, para chegar no ponto onde estamos, tendo alcançado uma relevância interessante em nosso setor, com diversos cursos ofertados e projetos concluídos em áreas tão diversas quanto empreendedorismo social, conservação ambiental, desenvolvimento de periferias urbanas, desenho de governança de redes organizacionais e desenvolvimento de organizações de diversos setores e portes, é uma enorme satisfação.

O lado negativo desta jornada é que ela consome muita energia e tempo, o que deixa muito menos tempo para família, amigos e viagens do que eu gostaria. Com dois filhos pequenos em casa, este ponto passa a ter um peso muito grande.

Como foi fazer a transição de carreira? Quais valores você precisou abandonar e quais outros você sente que já ganhou?
Não sei se enxergo um momento específico de transição de carreira. Considero toda a minha trajetória uma constante transição. Estudei engenharia na Escola Politécnica da USP, mas já na época era extremamente inquieto e de certa forma fora do padrão. Me interessava e lia muito sobre questões ambientais, limites do nosso sistema econômico e novas abordagens. Tinha como referência autores como Otto Scharmer, Fritjof Capra, Joanna Macy e Herman Daly, que falam de coisas como teoria de sistemas e economia ecológica.

Nesta época, junto do meu irmão e um grupo de amigos, fundei uma iniciativa com foco em apoiar ONGs com planeamento e gestão. Já na época da faculdade eu fazia planos de negócios e pensava em empreender. Então enxergo que a minha passagem por diferentes momentos profissionais, como as áreas de supply chain internacional e planejamento estratégico no Grupo Votorantin, o papel de sócio diretor de uma empresa de médio-porte na área de bens de capital, os cursos de pós-graduação (MBA na FGV e Estratégias de Inovação Social na Universidade da Pensilvânia) e as incursões no mundo das startups, na verdade foram uma grande busca e um grande aprendizado. Cada etapa me deu mais ferramentas para estar onde estou hoje e todas elas se esgotaram por não trazerem os elementos que eu realmente buscava.

A conversa com os projetos é feita assim: todo mundo em círculo, opinando e decidindo. Foto arquivo: pessoal

No momento que fundei o Sense-Lab, já havia atuado como sócio por 7 anos na Metaltrend, que foi uma empresa fantástica para se estar e apreender. Foi uma super pós-graduação no mundo real em administração, aspectos tributários, trabalhistas, financeiros e gestão de projetos. Sem conhecer os conceitos e as teorias, já exercitávamos muitos dos elementos de gestão nos quais acredito atualmente e que buscamos continuamente incorporar e exercitar no Sense-Lab e em nossos projetos. Essa empresa tinha em especial um propósito maior, que ia além do dinheiro: equipes auto-geridas, pouca relevância para as hierarquias e cargos e abertura para cada um ser genuíno também no ambiente de trabalho. Isso tudo em uma empresa industrial que chegou a ter 150 funcionários.

Nesse percurso tive que abandonar, totalmente por convicção e perfil, a segurança de ter um chefe dando ordens e uma estrutura financeira que pudesse pagar por erros cometidos (como é o caso em grandes empresas).

Ou seja, a grande diferença de estar empreendendo é que não tem ninguém acima de você para te orientar ou segurar a bucha se der errado.

É você por conta própria e com sua equipe e sócios dando um salto no escuro e tomando decisões na extrema incerteza. Tive que aprender mais ainda a tomar essas decisões no escuro e bancar as próprias escolhas. Além disso, tive que aprender ainda mais a navegar a rede, na verdade a “ser rede”. No Sense-Lab não acreditamos em fronteiras organizacionais rígidas. Somos rede e navegamos uma rede de muitos contatos, parceiros, amigos e companheiros de jornada.

Dá para dizer que vivenciar e tentar ajudar iniciativas solidárias a caminhar é um “emprego do futuro”? Como iniciativas como o Sense-Lab têm sido recebidas mundo a fora?
Acredito que o modelo como nos organizamos atualmente se esgotou. Estamos dando sobrevida a um modelo que já bateu no muro, do ponto de vista de limites naturais e consumo de recursos, do ponto de vista de desigualdade e exclusão social e cada vez mais do ponto de vista de governança participativa e governos. Repetir os modelos do século 20 nas próximas décadas é suicídio. Montamos um modelo econômico baseado em crescimento infinito, onde uma estabilização e uma redução da produção leva ao desemprego e crises. Mas como crescer indefinidamente em um planeta finito? No passado recente focamos, individualmente e coletivamente, em um modelo focado em maximizar o ganho individual, a ascensão na carreira e o acumulo de bens materiais sem nenhum propósito. Essa conta não tem como fechar.

Acredito que todos esses movimentos recentes, como capitalismo consciente, empresas B, negócios de impacto social, ou mesmo as centenas de pessoas que procuram o Sense-Lab em um movimento de deixar uma carreira no mundo corporativo em busca de alguma atividade mais relevante, são reações a esse extremo ao qual chegamos. Tendo observado todo esse movimento desde a faculdade e mais intensamente nos últimos 5 anos. Vejo que ele é sim uma tendência e está acelerando.

Tomando como exemplo o campo de negócios de impacto social. Há 7 anos ele era quase inexistente. Atualmente, temos milhares de empresas atuando com essa lógica, dezenas de fundos de investimento, aceleradoras e incubadoras apoiando esses negócios e inúmeras universidades, como FGV, Insper, USP, ESPM e até governos, inclusive em esfera federal como o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio), se envolvendo na temática. Trata-se de um campo que foi erguido praticamente do zero em poucos anos. Na minha opinião, existe uma boa chance de vermos uma grande virada no que enxergamos ser o papel das empresas na sociedade e do indivíduo dentro das empresas.

Iniciativas como o Sense-lab têm sido bastante procuradas por diversas pessoas, em especial profissionais entre 30 e 40 anos, que não aguentam mais trabalhar por trabalhar e estão em busca de algo mais significativo para fazer.

Muito se fala nos meios teóricos e acadêmicos sobre um virtual esgotamento de modelo econômico. De que forma você enxerga isso? Da para dizer que o Sense-Lab é uma iniciativa inovadora nesse sentido?
Acredito que uma transição no modelo econômico é inevitável. Precisamos nos movimentar para uma economia de baixo carbono, onde compartilhamos mais ao invés de possuirmos mais. O jovem de hoje não quer mais ter um carro, ele quer apertar um botão e ter mobilidade na porta de casa.

Precisamos começar a falar seriamente sobre os limites ambientais do nosso sistema econômico, sobre como o individualismo exacerbado está sendo destrutivo não só para o sistemas sociais e naturais, mas para as pessoas que sofrem cada vez mais de doenças como depressão e ansiedade. Precisamos falar seriamente sobre uma enorme massa de pessoas que ficou pra trás e está excluída do nosso sistema econômico em periferias urbanas empobrecidas e não nos esconder atrás da falácia de que o capitalismo gera oportunidades iguais para todos. Isso é fácil de falar quando se cresceu em uma família estruturada, com acesso a boas escolas, e quando você não é filho de uma mãe adolescente, vivendo em uma favela em meio a tráfico e seus amigos todos ou são usuários-traficantes ou estão mortos. Essas são realidades que vemos constantemente no Sense-Lab em nossas incursões em comunidades periféricas de São Paulo.

Os sócios do Sense-Lab: Andreas e Alice N. Castello Branco com Lucas Harada, do time da empresa. Foto: Arquivo pessoal

Estamos falando da nova revolução industrial, as indústrias 4.0 totalmente automatizadas, de carros autônomos e do desenvolvimento exponencial da inteligência artificial, que poderá gerar avalanches em virtualmente todos os setores econômicos, de call centers, ao transporte, da manufatura ao setor de serviços. Centenas de milhões de empregos poderão deixar de existir.

Segundo um relatório recente da Oxfam, atualmente as 8 pessoas mais ricas do mundo possuem a mesma riqueza que os 3,6 bilhões mais pobres. Precisamos falar seriamente sobre como essa revolução tecnológica pode beneficiar a todos e não somente os poucos detentores de muito capital. Por fim acredito que estamos vendo um esgotamento do nosso modelo de representação democrática. Não só aqui no Brasil, mas também em várias partes do mundo como os Estados Unidos e a Europa. E um dos principais problemas se repete em todos esses lugares: ainda não encontramos uma forma de manter os nossos governos blindados contra grupos de interesse e articulações com foco em interesses particulares.

Sempre quem tem mais poder é beneficiado pelo governo. Aqui no Brasil são as construtoras e alguns outros setores econômicos fortes, além de sindicatos, nos EUA é a indústria do petróleo e de armas. Mas a insatisfação está crescendo e as vozes estão ficando mais altas. As vezes nos esquecemos que o nosso modelo de governança das nações ocidentais tem pouco mais de 200 anos de existência. As corporações modernas, apesar de terem suas raízes na Companhia das Índias Orientais no século XVII, tomaram sua atual forma na primeira metade do século XX, ou seja ontem. Estamos nos prendendo a modelos que não estiveram sempre aí e já mostram claramente seus limites. Acredito portanto que uma transição para um modelo mais saudável e equilibrado é inevitável se quisermos continuar como hóspedes desse nosso planeta.

Acredito que o Sense-Lab é inovador no sentido de não pretender ter as respostas, mas não ter medo de ser um veículo para esses questionamentos. Queremos ser parte de um movimento cada vez maior que busca novos modelos mais equilibrados tanto para os indivíduos quanto para as organizações e sistemas sociais.

Qual resultado alcançado pelo Sense-Lab te da mais orgulho? E qual você ficou de coração partido por não ter conseguido ajudar?
Conseguimos avançar bem com a agenda de conscientizar e capacitar indivíduos para serem agentes de mudança. Temos muito orgulho de fazer parte de uma rede de pessoas, muitas delas ex-participantes das nossas formações, que já atuam de uma forma diferente e estão fazendo a sua parte por um mundo melhor.

Também estamos bastante animados com o avanço do nosso conhecimento e articulação em estruturação de modelos de governança participativa e multi-setorial, em diversos contextos, em especial para projetos de conservação ambiental com organizações como WWF e Fundação Grupo Boticário.

Sense-Lab trabalha em prol do impacto social. Foto: Arquivo pessoal

Trabalhamos muito com as periferias da zona sul de São Paulo, em especial Capão Redondo, Campo Limpo, Jardim São Luiz e Jardim Ângela. Uma frustração é ainda não ter visto uma melhoria significativa destes territórios, ainda que o nosso contato seja relativamente recente comparado com o contexto histórico da região.

Da para dizer que veremos mais aceleradoras de iniciativas sociais dentro e fora de grandes empresas nos próximos anos?
Temos observado um crescimento considerável de diversos tipos de aceleradoras e incubadoras sociais, tanto independentes, quanto ligadas a parques tecnológicos, universidades e grandes empresas nos últimos anos. Acredito que esse número só irá aumentar.

Se você pudesse dar um conselho pro nosso leitor que levou bastante tempo para aprender, qual seria esse conselho?
Seja inquieto. Não se conforme com onde está hoje. Procure muito, tome muitos cafés com pessoas interessantes e encontre uma forma de ser feliz e fazer um trabalho relevante para o mundo. Mas faça isso de forma cautelosa e prepare o seu momento, tanto do ponto de vista de financeiro, quanto do ponto de vista emocional e de relações.

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