Youtubers mirins são pequenas celebridades e vendem estilo de vida
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Youtubers mirins são pequenas celebridades e vendem estilo de vida

Camila Luz em 12 de janeiro de 2017

Você acessa o YouTube e escolhe vídeos para assistir a tutoriais de maquiagem, receber dicas de compras em Nova York ou ver resenhas de filmes. Muitas vezes, quem está do outro lado da tela é uma criança. Youtubers mirins famosos como Julia Silva, Felipe Calixto e Bel, do “Bel para Meninas”, têm milhares de seguidores e recebem tanta atenção quanto atores de cinema e adultos.

Alguns youtubers mirins chegam a ter milhões de seguidores. Julia Silva, de 11 anos, tem seu canal há seis. Já postou quase 200 vídeos e está perto de bater dois milhões de inscritos. Ela faz resenhas de brinquedos, mostra seus materiais escolares, promove tours pelo seu luxuoso quarto e responde com vídeos as mesmas tags que blogueiras mais velhas, como “Recebidos do mês” e “10 fatos sobre mim”.

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Já Isabel Peres Magdalena, dona do “Bel para meninas”, chega ainda mais longe. Seu primeiro vídeo foi o “Tour pelo quarto”, há dois anos. Desde então, se tornou um fenômeno de audiência e já tem mais de três milhões de seguidores. Ela posta vídeos todos os dias, nos quais aborda temas do universo infantil e contracena em novelinhas com sua mãe.

Nas ruas, os youtubers mirins também recebem bastante atenção. São reconhecidos, ganham presentes e cartinhas dos fãs. Mas não são só outras crianças que enviam “mimos”: grandes empresas fazem questão que recebam seus produtos. Afinal, serão exibidos para milhares de crianças. Seria ou não publicidade infantil?

Publicidade velada e a venda do estilo de vida

A ONG Instituto Alana e o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) consideram que enviar esses presentes é fazer publicidade velada dirigida ao público infantil. Para a advogada Claudia Almeida, do Idec, esse tipo de propaganda é até mais poderoso do que a explícita, transmitida em comerciais de TV, por exemplo.

Claudia conta que conheceu o universo dos youtubers mirins através de sua filha. Aos quatro anos, ela começou a assistir os vídeos da Julia Silva, nos quais a menina destacava as qualidades da boneca Baby Alive. “Vi uma menina fazendo o review de uma boneca e fiquei horrorizada. Vi que tinha uma criança vendendo uma boneca para a minha filha”, conta.

“Me senti impotente, mesmo sendo uma mãe e advogada que trabalha no Idec”, revela. A advogada, então, pediu para cuidar da questão da publicidade infantil no YouTube dentro do Instituto. “Afinal, a eficácia é muito maior. Aquela criança [a youtuber] está feliz, brincando, então seu filho se identifica com aquilo”, opina e continua:

É cruel ver uma criança vendendo para outra criança. É como se fosse um plano infalível. Deixa a criança em extrema vulnerabilidade.

Para Claudia, os youtubers mirins não vendem apenas produtos, e sim um estilo de vida que não é comum para as crianças do Brasil. Em vídeos como “Tour pelo banheiro”, “Tour pela penteadeira” ou “Comprinhas dos Estados Unidos”, as crianças revelam uma quantidade de bens materiais fora do comum, de marcas caras.

“Nós entendemos que é abusivo, não se pode fazer assim. Toda essa forma de seduzir a criança está sendo feita de forma clandestina”, argumenta a advogada. “O youtuber mirim tem que respeitar as leis do CONAR [Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária]. É proibido fazer merchan direcionado à criança”, completa. Além do CONAR, o Idec entende que esse tipo de publicidade se aproveita da formação da criança para vender e, portanto, fere o Código de Defesa do Consumidor.

Youtubers mirins: pequenas celebridades ou promotores de vendas?

Em setembro de 2016, o Ministério Público Federal (MPF) ingressou com uma ação civil pública contra a Google por irregularidades relacionadas à publicidade infantil no YouTube, do qual a empresa é dona. Os direitos de crianças e adolescentes estariam sendo violados, já que a plataforma abriga diversos canais protagonizados por crianças de até 12 anos.

“Quando atingem um grande número de visualizações, os youtubers mirins tornam-se pequenas celebridades. Em decorrência dessa exposição, acabam atraindo a atenção do mercado, que as faz atuar como promotores de vendas, protagonizando anúncios comerciais de produtos dirigidos ao público infantil”, explicou o MPF em nota.

Para quem estuda o caso, a publicidade infantil feita em canais do YouTube é perigosa justamente por ser velada. Alexandra Papini é formada em relações internacionais e irá defender o mestrado na Faculdade Cásper Líbero com a dissertação “A publicidade infantil em canais de youtubers mirins”. Ela diz:

A publicidade é confundida com o tema do vídeo. Se para um adulto já é difícil notar que é publicidade, imagina para a criança.

“A pergunta do meu trabalho é como um youtuber abre cada vez mais espaço para essa publicidade infantil”, argumenta Alexandra. Ela explica que há uma batalha entre empresas e organizações como o Instituto Alana quando o assunto é publicidade infantil. Interessadas em vender, as companhias são a favor de liberar praticamente tudo. Já o Instituto Alana acredita que muito deve ser proibido.

Em 2014, o CONANDA (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) publicou a Resolução 163, que proibiu a publicidade abusiva – inclusive na internet. “Mas não é uma lei que foi criada através do legislativo, sancionada pela presidência. Por isso, há muito discussão sobre ser válida ou não”, diz Alexandra. “Se formos seguir essa regra, não deveria ter [publicidade abusiva]. Tem discussões nesse caminho, mas não há leis concretas que definam o que é publicidade no YouTube”, completa.

Em 2016, o Instituto Alana denunciou o McDonald’s por enviar brinquedos aos youtubers mirins. Nesse caso, foi possível considerar publicidade já que ficou provado que a empresa enviou os presentes. “Mas há vários vídeos de crianças falando do McDonald’s nos quais as crianças não mencionam se os produtos foram enviados ou não. As crianças também pedem”, diz.

Como o universo dos youtubers mirins ainda é recente, há muito a se ajustar. Na opinião pessoal de Alexandra, a tendência é que os youtubers explicitem quando estão fazendo propaganda. Blogueiras famosas já colocam a hashtag ‘publi’ quando falam sobre produtos. Julia Silva, quando posta os Recebidos do mês, agradece às marcas por terem enviado os presentes. “A tendência é que conforme a gente vá se sentindo incomodado, os youtubers comecem a se adaptar. Ainda é tudo muito novo”, opina.

Exposição infantil e letramento digital

Outra questão que chama atenção de organizações preocupadas com os direitos das crianças é a exploração infantil. Os youtubers mirins podem ter rotinas cansativas, postando muitos vídeos por semana.

“Quando o problema está centrado no YouTube, pais e empresas não entendem que as leis que temos hoje já são válidas para a plataforma”, diz Claudia. “Nem o Código de Defesa do Consumidor, nem a Constituição e nem o Estatuto da Criança ignoram essas leis. A criança tem prioridade absoluta, o espaço dela tem que ser respeitado e a exploração contra a criança deve ser vetada”, argumenta.

A advogada ainda aponta para a questão da exposição infantil. Os youtubers mirins são como celebridades que vivem um “Show de Truman”. Suas vidas são expostas para milhões de seguidores e é preciso lidar com críticas, reconhecimento e pressão dos fãs.

Claudia acredita que essas crianças devem ser protegidas e receber ajuda de profissionais, como psicólogos, que possam trabalhar a questão da exposição. “Será que isso é bom? Será que é mesmo diversão? A Google diz que é responsabilidade dos pais; os pais dizem ‘o filho é meu e faço o que eu quiser’. E nenhum dos códigos permite que o pai faça o que quer com o filho”, afirma. “Como vão ficar essas crianças daqui 10, 15 anos, quando perderem a graça, se não deslancharem como youtubers teens? Isso pode causar uma série de transtornos psicológicos”, alerta.

Alexandra concorda que é preciso ficar atento ao trabalho dos youtubers mirins. Será que estão frequentando a escola como deveriam? Eles têm tempo para descansar e brincar livremente? Para ela, funciona como um trabalho artístico, que deve ser regulamentado. Atores infantis precisam receber autorização de um juiz para atuarem em novelas e filmes. É ele quem irá definir a carga horária e cuidar da proteção da criança.

“Em alguns meses, os youtubers mirins fazem mais de 20 vídeos. É uma rotina diária, que exige muito”, opina. “É legal, interessante, porque eles se desenvolvem. Mas será que estão indo na escola? Será que o dinheiro está sendo usado em benefício deles? É uma rotina puxada, mesmo se a criança ama”, completa.

Ser youtuber mirim tem sem suas vantagens, já que propicia um ambiente no qual a criança desenvolve sua comunicação e perde a vergonha de falar o que pensa. Além disso, há a questão do letramento digital, já que desde cedo tem acesso às ferramentas e aprende como elas funcionam – e isso também serve para os pequenos que estão apenas assistindo.

Para a especialista, a principal questão é a proteção de seus direitos. Se o canal tem monetização, aquele dinheiro deve ser usado em benefício da criança. O ator mirim, por exemplo, é protegido nesse sentido. O mesmo deve ser feito em prol do youtuber mirim. “Em um primeiro momento, é preciso ter investigações, pesquisas e uma atenção do governo mesmo”, diz. “No âmbito legislativo, não há um projeto de lei na Câmara dos Deputados que trate de YouTube. Essa discussão tem que ser apurada para que, no futuro, existe uma regulamentação que garanta os direitos”, conclui.

YouTube Kids

O Free the Essence pediu ao YouTube que se posicionasse sobre o assunto. “O YouTube é uma plataforma aberta e destinada a adultos, como está observado em nossos termos de serviços. Seu uso por crianças deve sempre ser feito num contexto familiar e em companhia de um adulto responsável”, respondeu a empresa.

Para Alexandra e Claudia, a questão é que canais de youtubers mirins geralmente são feitos pelos próprios pais, já com idade suficiente para criar um conta. Além disso, crianças de 10 anos, por exemplo, podem assinar os termos na plataforma afirmando que são maiores de idade e criar seus próprios canais sem que seus responsáveis saibam.

O YouTube indica que, para crianças menores de 13 anos, o correto é usar o YouTube Kids. Ele “oferece o conteúdo ideal para famílias, inclusive com regras muito mais severas para publicidade, já que se destina ao público infantil”. No entanto, os canais de youtubers mirins citados nesta reportagem estão abrigados no YouTube regular.

“Se você olhar todos esse canais, estão no YouTube normal, então a resposta está aí. As crianças usam o YouTube Kids? Não.”, afirma Claudia. “Como a empresa trabalha para realmente fortalecer o YouTube Kids?”, questiona.

O YouTube também afirma que os usuários são responsáveis pelo conteúdo gerado e devem seguir as Diretrizes da Comunidade. No que se refere a publicidade na plataforma, descrita como anúncios, marcas e anunciantes devem seguir as diretrizes da empresa e estar em conformidade com a legislação brasileira.

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