O que acontece quando algoritmos são os chefes dos trabalhadores
algoritmos
Foto: Istock/Getty Images
Nova Economia > Modelos Disruptivos

O que acontece quando algoritmos são os chefes

Kaluan Bernardo em 21 de setembro de 2016

A Uber é uma empresa avaliada em US$ 66 bilhões. Além das discussões com os taxistas, ela também causa incômodos em seus próprios colaboradores, que têm algoritmos como chefes.

No Brasil, em março de 2016, os motoristas da Uber fizeram paralizações para protestar contra os baixos pagamentos que o serviço estava trazendo a eles. Situações semelhantes acontecem nos mais diferentes lugares, como na cidade estadunidense de San Francisco, onde a empresa nasceu, ou até mesmo em Nairóbi, no Quênia, onde os motoristas chegaram a dizer que estavam se tornando “escravos da Uber”.

Situações semelhantes acontecem com outras empresas como TaskRabbit, Blumpa e muitas outras que se colocam como plataforma de tecnologia para conectar trabalhadores a clientes e são acusadas de deixar de lado os direitos trabalhistas.

O que se tem são trabalhadores sem um espaço de trabalho brigando contra empresas que não os contratam. Eles não reclamam de seus chefes, já que nunca os viram, mas dos algoritmos que regulam como devem trabalhar e quanto ganharão por isso.

Essa gestão de trabalhadores por sistemas de computador, como a Uber propõe, é chamada de “gerenciamento algorítmico”, termo proposto por pesquisadores da Universidade de Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, uma das principais na área de computação.

Quais as críticas que existem à gestão por algoritmos?

Os defensores da gestão algorítmica dizem que a tecnologia cria novas oportunidades de emprego, serviços melhores e mais baratos aos consumidores, e que os trabalhadores têm um sistema mais transparente e justo, sem a ineficiência e os caprichos de chefes humanos.

No entanto, os detratores desse sistema argumentam que, na verdade, é apenas mais uma forma de se ter trabalhadores sem precisar contratá-los ou assegurar seus direitos trabalhistas. Afinal, os algoritmos não deixam eles tão livres quando dizem como a pessoa deve trabalhar e mudam, a qualquer momento, o valor pago pelo serviço.

Motoristas da Uber, por exemplo, só sabem o destino do passageiro depois que aceitam as corridas. Se ele rejeitar três corridas seguidas é desligado do serviço. Além disso, os passageiros dão nota aos condutores. Se eles ficarem abaixo da média também podem ser punidos.

Leia também:
Como o emprego está acabando, mas o trabalho não
Futuro do trabalho: em breve teremos múltiplos empregos
códigos em tela de computador

Foto: Istock/Getty Images

Em entrevista ao jornal Financial Times , Guy Standing, estudioso sobre condições de trabalho na Universidade de Londres, diz que a gestão por algoritmos pode alimentar a precariedade de trabalhadores de base, uma vez que eles passam a serem pagos apenas pelos momentos que são produtivos — o que ele considera uma “fantástica oportunidade de exploração voraz do trabalho”.

O jornal associa a gestão algorítmica a uma evolução do sistema Taylorista, criado pelo estadunidense Frederic W Taylor no início do século 20. Em seu livro “Princípios de Administração Científica” ele propõe administrar uma empresa como ciência, separando os trabalhadores por tarefa, sem deixá-los ter ciência de todo o processo de produção. A ideia é o funcionário fazer sempre a mesma ação. Desta forma, a companhia consegue monitorar melhor sua produtividade e controlar seu trabalho.

Esse modelo evoluiu para outros, como a famosa linha de montagem da Ford, na qual os funcionários mal se locomoviam e ficavam fazendo as mesmas tarefas repetitivas enquanto as peças andavam em uma esteira. O modelo, conhecido como Fordismo, também perdurou por anos.

Jeremis Prassl, professor de direito da Universidade Oxford, diz ao jornal que o gerenciamento algorítmico é o Taylorismo 2.0, com a vantagem de que, finalmente, as companhias conseguem ter controle sobre o funcionário do setor de serviços. “Os algoritmos oferecem um nível de controle e visão que os mais duros tayloristas nunca poderiam ter sonhado”, comenta.

Taylor previa que, independente das tensões entre patrões e empregados, quem determinaria o sucesso de seu método de gestão seriam os próprios consumidores, que acabariam optando pelo mais cômodo. “À primeira vista vemos duas partes nessa transação, os trabalhadores e os empregadores. Mas há uma terceira grande parte, todas as pessoas — os consumidores que vão comprar o produto desses dois primeiros. No final, as pessoas vão forçar a nova ordem das coisas tanto ao empregado quanto ao empregador”, escreveu em seu livro. A provocação continua valendo hoje.

Gostou deste post? Que tal compartilhar:
Últimos
Trend Tags
Array ( [0] => 76 [1] => 222 [2] => 237 [3] => 115 [4] => 17 [5] => 238 [6] => 92 [7] => 125 [8] => 173 [9] => 16 [10] => 276 [11] => 25 [12] => 157 [13] => 66 [14] => 67 [15] => 62 [16] => 153 [17] => 127 [18] => 12 [19] => 19 [20] => 187 [21] => 69 [22] => 154 [23] => 175 )
Vídeos
Copyright © 2016 Free the Essence