Bagagem vai tornar o intercâmbio possível para jovens de periferia
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Foto: Istock/Getty Images
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Projeto Bagagem vai tornar o intercâmbio possível para jovens de periferia

Camila Luz em 5 de agosto de 2016

Fazer intercâmbio ainda é um privilégio de pessoas que têm boas condições financeiras de vida. Essa realidade pode começar a mudar a partir do projeto Bagagem, que ajuda jovens de periferia a fazer viagens para viver experiências fortalecedoras. Em troca, devem compartilhar seus novos conhecimentos com a comunidade de onde vieram.

O Bagagem financia viagens de jovens de 16 a 29 anos que estejam envolvidos em projetos sociais, acadêmicos, artísticos, esportivos, políticos e assim por diante. Quando voltam para a comunidade, pagam os custos de duas formas: 50% é devolvido em dinheiro para alimentar o projeto, sem juros e em parcelas. A metade restante é paga com ações multiplicadoras.

“O que você traz na sua bagagem para dividir com sua comunidade?”, questiona a idealizadora do projeto Jéssica Oliveira. O objetivo é que os beneficiados apliquem os conhecimentos que obtiveram durante o intercâmbio em projetos e aulas. Dessa forma, mais jovens poderão ter novas perspectivas em suas vidas e, quem sabe, participar do programa no futuro.

Nasce o Bagagem

Jéssica Oliveira é estudante de comunicação social e produtora cultural. Moradora de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, sempre desenvolveu trabalhos em favelas cariocas. Ela conta que jovens de periferia precisam fazer vaquinhas para bancar viagens que podem ter impactos positivos em suas vidas como participar de campeonatos esportivos, cursos de aperfeiçoamento ou eventos culturais.

Em uma manhã comum, estava indo para o trabalho de trem quando se deparou com mais uma dessas histórias, divulgada no Facebook. “Por que ninguém acredita na gente?”, pensou. Nesse momento, já com nome e tudo, nasceu a ideia do Bagagem, um projeto para captar investimento de empresas e instituições que possam financiar as viagens desses jovens.

logo do projeto bagagem

Foto: Divulgação

O Bagagem começou a virar realidade em janeiro deste ano, quando Jéssica descobriu que a Aliança Empreendedora estava buscando projetos de inovação com impacto social desenvolvidos por jovens de periferia. Foi selecionada ao lado de outras 14 iniciativas do Brasil todo e desenvolveu a ideia em quatro semanas, com apoio de dois amigos.

A partir de maio, começou a desenvolver o MVP do projeto, ou seja, Mínimo Produto Viável. “Para concretizá-lo, precisava encontrar um jovem cujo perfil estivesse dentro do nosso recorte”, explica. O selecionado foi o lutador de jiu-jitsu Bruno Borges. “Quando lancei a convocatória, recebei muitas inscrições. Percebi que a dele era a mais adequada, pois tinha uma história muito legal e um retorno interessante”, explica.

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Intercâmbio com objetivo

Jéssica explica que a principal dificuldade dos jovens que se inscrevem no Bagagem está na ação multiplicadora: a hora de trazer algum retorno para a comunidade. Bruno, por exemplo, é da Favela do Alemão e irá participar do campeonato “Gramado International Open Jiu-Jitsu”. Quando voltar, quer dividir seus conhecimentos com membros da comunidade. “Ele irá desenvolver aulas como voluntário para incentivar novas crianças ou fortalecer o ensino em alguma academia que esteja precisando de apoio”, explica Jéssica.

O que o Bagagem quer é que os jovens beneficiados compartilhem seus conhecimentos com a comunidade de forma prática.

Queremos esse retorno intelectual, que o jovem contribua e divida o que conhece. O nosso sonho é que um dia a criança que foi ensinada pelo Bruno também peça o nosso apoio.

O jovem com o perfil ideal para realizar o intercâmbio deve estar envolvido com alguma ação esportiva, cultural ou social comprovada. Estar estudando não é uma exigência, pois isso poderia ser um critério forte de exclusão. “Queremos que ele esteja praticando uma atividade que faça bem a ele e gere resultados positivos”, explica Jéssica. No futuro, esse beneficiado pode até retomar os estudos.

O Bagagem não quer proporcionar apenas um intercâmbio, mas uma possibilidade de construir redes, novos contatos e novas opções. Por isso, quem se inscreve no projeto deve ter um motivo para realizar a viagem. Na opinião de Jéssica, os jovens devem criar possibilidades que estejam dentro de seus campos de interesse e possam gerar impacto positivo. Se tiverem uma meta, o projeto irá ajudar.

Menos vaquinha e mais carinho

Jéssica conta que está enfrentando uma série de desafios para concretizar o Bagagem. O maior deles é encontrar empresas e pessoas interessadas em patrocinar as viagens. “Muitos nos perguntam por que não fazemos vaquinha ou crowdfunding. Mas o que queremos é que a iniciativa privada, o governo, a filantropia olhem para jovens de periferia, acreditem no seu potencial e no valor da multiplicação de conhecimento”, defende.

“Sei que o Bruno vai viajar para Gramado e isso vai fazer muito bem para a auto-estima dele. Quando voltar para o Alemão, vai estar com sangue no olho e vontade de fazer acontecer”, afirma. Jéssica acredita que a iniciativa privada vai olhar com carinho para as comunidades e para sua potência criativa. Desistir não está em seus planos.

Por enquanto, apenas jovens do Rio de Janeiro podem participar das convocatórios do Bagagem, que ainda dá suporte só para viagens nacionais. O segundo passo é abrir para candidatos do resto do país e, o terceiro, bancar o intercâmbio também para o exterior.

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